Seja bem-vindo
Barra Mansa,10/09/2026

    • A +
    • A -
    Publicidade

    Fernanda Medeiros

    Quando a dor parece não ter saída

    Setembro Amarelo


    Quando a dor parece não ter saída

    Quando a dor parece não ter saída

    Setembro Amarelo e a importância de levar o sofrimento psíquico a sério

    Todos os anos, o mês de setembro amplia uma conversa que não deveria existir apenas durante um mês.

    Hoje, 10 de setembro, Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, somos novamente convidados a falar sobre sofrimento psíquico, prevenção, cuidado e vida.

    Mas falar sobre suicídio exige responsabilidade.

    Não se trata de procurar uma explicação simples para um fenômeno complexo. Também não se trata de repetir frases motivacionais para alguém que pode estar vivendo uma dor que, naquele momento, parece insuportável.

    Prevenção começa quando conseguimos compreender algo fundamental:

    Nem sempre quem deseja interromper a própria dor deseja, exatamente, deixar de existir.

    Em situações de intenso sofrimento, a pessoa pode experimentar um estreitamento de suas possibilidades. Aquilo que para quem observa de fora parece ter alternativas pode ser percebido, por quem está sofrendo, como um caminho sem saída.

    É justamente por isso que sofrimento psíquico precisa ser levado a sério.

    Nem sempre o sofrimento é visível

    Existe uma imagem social bastante difundida de que uma pessoa em sofrimento profundo necessariamente parecerá triste o tempo inteiro.

    Nem sempre é assim.

    Uma pessoa pode trabalhar.

    Sorrir.

    Cuidar dos filhos.

    Conversar com amigos.

    Publicar fotografias.

    Cumprir compromissos.

    E ainda assim estar enfrentando uma experiência psíquica extremamente dolorosa.

    O comportamento humano é complexo demais para que possamos determinar o estado emocional de alguém apenas pela aparência.

    Por isso, frases como “mas parecia tão bem” são frequentes quando pessoas próximas descobrem uma realidade que desconheciam.

    Isso não significa que necessariamente existiam sinais claros que todos deveriam ter percebido.

    Significa que sofrimento e aparência nem sempre caminham juntos.

    “Mas ela tem tudo”

    Talvez essa seja uma das frases que mais demonstram nossa dificuldade de compreender o sofrimento do outro.

    “Tem família.”

    “Tem emprego.”

    “Tem saúde.”

    “Tem filhos.”

    “Tem uma vida boa.”

    “Não teria motivos para estar assim.”

    Mas sofrimento psicológico não funciona como uma equação matemática na qual somamos aquilo que uma pessoa possui e concluímos quanto ela teria direito de sofrer.

    A dor é subjetiva.

    Isso não significa que qualquer sofrimento inevitavelmente levará a uma crise grave, nem que todos os fatores tenham o mesmo peso.

    Significa apenas que olhar de fora não nos permite medir com precisão aquilo que está acontecendo dentro de alguém.

    Quando respondemos ao sofrimento dizendo que a pessoa “não tem motivos” para se sentir daquela maneira, podemos aumentar justamente aquilo que já está presente: a sensação de não ser compreendida.

    Pedir ajuda pode ser muito difícil

    Costumamos dizer:

    “Procure ajuda.”

    A orientação é importante, mas precisamos reconhecer que pedir ajuda nem sempre é simples.

    Para falar, primeiro é necessário conseguir transformar sofrimento em palavras.

    Depois, é preciso acreditar que alguém estará disposto a ouvir.

    E ainda pode existir medo de julgamento, vergonha, culpa, sensação de estar dando trabalho ou receio de que o sofrimento seja minimizado.

    Algumas pessoas passaram tanto tempo escondendo aquilo que sentem que sequer sabem como começar uma conversa.

    Por isso, prevenção não pode depender exclusivamente da capacidade de quem sofre de pedir socorro.

    Também precisamos construir relações e espaços nos quais seja possível dizer:

    “Eu não estou bem.”

    Sem receber imediatamente uma comparação.

    Sem ouvir que outras pessoas têm problemas maiores.

    Sem ser acusado de ingratidão.

    Sem precisar justificar por que aquilo dói tanto.

    Escutar não significa ter todas as respostas

    Quando alguém revela sofrimento intenso, é comum surgir uma sensação de impotência.

    O que dizer?

    Como convencer?

    Como resolver?

    Talvez seja importante compreender que escutar não significa possuir uma frase capaz de eliminar a dor do outro.

    Às vezes, a primeira função da escuta é justamente não deixar aquela pessoa sozinha com aquilo que está vivendo.

    Isso significa levar a fala a sério, acolher sem julgamento e, quando necessário, favorecer o acesso a atendimento profissional e serviços de saúde.

    Também significa não assumir sozinho uma responsabilidade que exige uma rede de cuidado.

    Família, amigos e pessoas próximas podem ser importantes fontes de apoio, mas não substituem assistência profissional quando ela é necessária.

    Falar sobre suicídio exige cuidado, não silêncio

    Durante muito tempo, falar sobre suicídio foi cercado por medo e tabu.

    O silêncio, entretanto, não protege automaticamente.

    Uma conversa responsável pode abrir espaço para que alguém consiga nomear aquilo que está vivendo e encontre ajuda.

    Responsabilidade também significa evitar romantização, exposição desnecessária, descrições de métodos ou explicações simplistas.

    Não existe uma única causa para o comportamento suicida.

    Questões psicológicas, sociais, relacionais, econômicas, ambientais e condições de saúde podem se combinar de maneiras diferentes em cada história.

    Por isso, diante de uma morte por suicídio, procurar imediatamente um culpado ou uma explicação única quase sempre significa reduzir uma realidade muito mais complexa.

    Prevenção também acontece antes da crise

    Quando pensamos em prevenção do suicídio, frequentemente imaginamos apenas o momento extremo.

    Mas cuidar da saúde mental começa muito antes.

    Começa quando sofrimento emocional pode ser reconhecido sem vergonha.

    Quando buscar atendimento psicológico ou psiquiátrico não é tratado como sinal de fraqueza.

    Quando escolas, famílias, serviços de saúde e espaços de trabalho conseguem conversar seriamente sobre saúde mental.

    Quando vínculos oferecem espaço para perguntas verdadeiras — e disponibilidade para ouvir as respostas.

    E também quando compreendemos que prevenção não é responsabilidade exclusiva de uma campanha, de uma profissão ou de uma pessoa.

    É uma construção coletiva.

    Algumas dores precisam encontrar companhia

    Setembro Amarelo não deveria ser apenas um mês de frases bonitas sobre valorização da vida.

    Precisa ser também um convite para olhar com mais seriedade para o sofrimento humano.

    Nem sempre conseguiremos perceber quando alguém está enfrentando uma crise.

    Nem toda mudança de comportamento significa risco.

    Nem toda tristeza significa intenção suicida.

    E justamente por isso não devemos transformar prevenção em tentativa de adivinhar o que acontece dentro das pessoas.

    Podemos, entretanto, construir relações nas quais falar seja possível.

    Podemos levar mudanças importantes de comportamento e manifestações de desesperança a sério.

    Podemos perguntar.

    Podemos ouvir.

    Podemos encaminhar.

    Podemos permanecer próximos enquanto a ajuda especializada é buscada.

    E quem está vivendo um sofrimento intenso precisa saber que não precisa esperar chegar ao limite para procurar atendimento.

    Quando a dor parece não ter saída, a percepção daquele momento não precisa determinar aquilo que acontecerá depois.

    Pedir ajuda não diminui a gravidade da dor. Pode ser justamente o primeiro movimento para que outras possibilidades voltem a ser percebidas.

    Neste 10 de setembro, talvez a mensagem mais responsável não seja simplesmente dizer a alguém que a vida é bonita.

    Talvez seja dizer:

    “Se viver está difícil demais agora, isso merece cuidado. E você não precisa atravessar esse momento sem ajuda.”

    No Brasil, pessoas em sofrimento emocional podem procurar os serviços da rede pública de saúde, incluindo UBS, CAPS e serviços de urgência e emergência. O CVV — Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. Em situação de risco imediato, deve-se procurar atendimento de urgência ou acionar o SAMU pelo 192.

    Fernanda Medeiros

    Psicóloga Clínica e Jurídica

    Perita Judicial e Assistente Técnica

    CRP-SC 12/02536 | CRP-RJ 05/300859



    COMENTÁRIOS

    LEIA TAMBÉM

    Buscar

    Alterar Local

    Anuncie Aqui

    Escolha abaixo onde deseja anunciar.

    Efetue o Login

    Baixe o Nosso Aplicativo!

    Tenha todas as novidades na palma da sua mão.