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Barra Mansa,08/09/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    A patrulha do grito

    Quando a imprensa vira torcida e a democracia vira ringue


    A patrulha do grito

    A patrulha do grito

    Quando a imprensa vira torcida e a democracia vira ringue

    Por Marcelo Kieling

    Vamos ao que interessa, sem eufemismo: vivemos uma pandemia de ódio e intolerância cognitiva, e quem negar isso está mentindo — para si mesmo, primeiro. Há uma cena que se repete todos os dias, em todas as plataformas, com a pontualidade de um rito macabro: alguém escreve, expõe uma ideia, e em minutos a horda desce sobre ele como abutres sobre a carniça. Não para contestar — contestar seria um gesto de respeito intelectual, e respeito é a última coisa que essa matilha pratica. Desce para destruir. Um dado isolado do contexto vira a prova do crime; uma frase arrancada do parágrafo vira a confissão; a divergência vira traição; o adversário de ideias vira inimigo de guerra. O debate público, essa praça que a democracia herdou dos gregos, virou um ringue de vale-tudo em que não pontua quem argumenta melhor, mas quem grita mais alto — e, se preciso, quem dá o primeiro soco.

    O que quase nunca se diz, por covardia ou por conivência, é que essa horda não nasceu do nada. Ela foi alimentada, treinada e vestida pelo mesmo espetáculo que finge condená-la. Entre a plateia digital e a cobertura política de um país em atrito institucional corre um fio invisível — e é exatamente esse fio que este artigo vem puxar, com raiva calculada.

    O escrutínio e o espetáculo: a imprensa escolheu o ringue

    A atuação da imprensa nesse cenário de atrito institucional opera em uma linha tênue entre o jornalismo investigativo de relevo e a amplificação do espetáculo político. Mas atenção: não há empate nessa balança. Por um lado, veículos e jornalistas desempenham um papel vital de escrutínio — revelando bastidores, trazendo à luz documentos sigilosos, cobrando transparência em um momento em que os freios e contrapesos da República sofrem pressões extremas. Sem esse acompanhamento cerrado, a opacidade institucional seria total. Esse jornalismo é inegociável, e é a profissão em seu estado mais nobre. Que isso fique registrado, porque a crítica que vem a seguir não poupa ninguém.

    Por outro lado — e é aqui que a casa cai — parte expressiva da cobertura contemporânea cedeu, deliberadamente, à lógica da espetacularização e da torcida partidária ou corporativa. Quando o noticiário diário adota o tom de cobertura esportiva de confronto — escalando "lados", antecipando placares de julgamentos, transformando divergências jurídicas em cruzadas pessoais entre ministros e autoridades —, o jornalismo deixa de moderar o debate e passa a atuar como combustível da polarização. Não há ingenuidade nisso. O espetáculo vende; a moderação não. E é precisamente aí que a imprensa trai a sua função: ela não precisa mentir para ser nociva. Basta escolher o enquadramento certo, o adjetivo certo, o silêncio certo. Basta, como fazem os melhores marqueteiros do caos, transformar o tribunal em arena e o juiz em personagem.

    O principal efeito colateral dessa dinâmica é a erosão da confiança pública na própria ideia de justiça e de estabilidade democrática — e quem controla a narrativa sabe exatamente disso. Quando a população passa a enxergar cada decisão judicial ou editorial não pelo seu mérito técnico ou constitucional, mas apenas como o lance de um jogo de poder entre facções em disputa, o tecido institucional se fragiliza, dificultando qualquer perspectiva de pacificação e previsibilidade para o país. A plateia que consome o ringue institucional é a mesma que depois entra na arena digital para linchar. A imprensa não é espectadora desse processo: é sócia majoritária.

    A unanimidade burra: o rebanho aplaude

    Nelson Rodrigues, o cronista que enxergava o Brasil como poucos, cunhou a frase que deveria estar tatuada em toda timeline: "Toda unanimidade é burra." Pois é exatamente isso que a lógica do "nós contra eles" produz: não pensamento, mas unanimidade de rebanho. E rebanho não pensa; rebanho rumina. Rebanho bale.

    O viés de confirmação — esse mecanismo que transforma cada post em espelho elogioso — faz com que o interlocutor extremado não leia o argumento, leia apenas o que já decidiu encontrar nele. A descontextualização tática é sua ferramenta favorita: isola-se um dado, amputa-se o contexto, e pronto, o raciocínio inteiro está "refutado". É uma demolição seletiva que não busca verdade, busca vitória — e busca, acima de tudo, a dose de dopamina de humilhar o outro em público. Machado de Assis, com seu humor feroz, já havia desenhado essa lógica no Humanitismo de Quincas Borba: "Ao vencedor, as batatas." No ecossistema digital, as batatas são os likes, e o vencedor é quem humilha primeiro. Quem humilha mais rápido. Quem humilha sem piedade.

    A intolerância como método: o divergente virou herege

    A intolerância à pluralidade é o segundo pilar dessa arquitetura da estupidez. O dogmático — de qualquer espectro, porque dogmatismo não tem partido — parte da premissa de que sua visão de mundo é a única moralmente aceitável. O divergente, então, não erra: peca. E pecado, na lógica inquisitorial, não se discute; pune-se. Queimam-se as ideias queimando-se as pessoas.

    Daí o ataque ad hominem como método: se não consigo refutar sua ideia, ataco sua pessoa, sua origem, sua foto de perfil. É o velho truque de quem não tem argumento e não quer ter. Caetano Veloso, em 1968, cantava "é proibido proibir" — e a patrulha ideológica de hoje, de todas as cores, transformou essa irreverência em dogma: proíbe-se o que não se concorda, cancela-se o que não se entende, silencia-se o que incomoda. A censura mudou de endereço: saiu dos gabinetes e entrou nos grupos de WhatsApp. Mas diga-se, com todas as letras: a censura de hoje é mais eficiente do que a de ontem, porque não precisa de carimbo oficial — precisa apenas de uma maioria barulhenta e de algoritmos que sabem exatamente qual ferida cutucar.

    O ódio como negócio: a indústria do desencontro

    O terceiro mecanismo é o mais perverso: o ódio como ferramenta de engajamento. A hostilidade funciona como imunizante contra a dúvida — e a dúvida, convenhamos, é o único antídoto contra a burrice. O agressor digital não quer convencer; quer validar a própria bolha. Não dialoga; exibe força. Cada humilhação pública é um troféu, cada cancelamento é uma medalha, cada grito é uma prova de pertencimento.

    A vida, ensinou Vinicius de Moraes no Samba da Benção, "é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida". A era digital conseguiu o prodígio de transformar a arte do encontro na indústria do desencontro: nunca estivemos tão conectados e tão incapazes de nos falar. E a imprensa espetacularizada, diga-se outra vez, é sócia dessa indústria: dá palco ao grito, audiência à grosseria, normalidade ao ataque. O algoritmo não criou o ódio; o ódio criou o algoritmo — e a imprensa, em vez de enfrentá-lo, resolveu faturar em cima dele.

    O sintoma, não o vilão: a plateia que se linha

    Mas há um detalhe que o usuário médio das redes não percebe: ele não é o vilão original, é o sintoma. Essa agressividade que explode nas redes é o reflexo amplificado da apatia e da intolerância institucional que corroem o país há décadas. Quando a sociedade perde a capacidade de processar o dissenso com maturidade democrática, o autoritarismo deixa de ser prática de gabinete e vira hábito doméstico: o cidadão comum assume a patrulha, impõe sua narrativa na base do grito e se sente virtuoso por isso. O patrulheiro de WhatsApp julga-se um herói da moral; na verdade, é o porteiro de um presídio que ele mesmo construiu em volta da própria cabeça.

    Lima Barreto, com a lucidez amarga de quem conhecia o Brasil por dentro, escreveu que "o Brasil não tem povo, tem público." Público assiste; plateia aplaude; torcida grita. Povo debate, decide, constrói. Estamos vivendo a era do público: milhões de espectadores de si mesmos, aplaudindo o próprio reflexo.

    Ruy Barbosa, num dos lamentos mais citados da nossa literatura política, descreveu o que acontece quando triunfam as nulidades e prospera a desonra: "o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto". É exatamente o clima das redes: o moderado se cala, o razoável se esconde, o ponderado é chamado de covarde — e o grosseiro, esse é tratado como autêntico. Invertemos os valores: a grosseria virou sinceridade, o equilíbrio virou suspeita, a dúvida virou fraqueza. Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, descreveu o "homem cordial", aquele que pauta as relações públicas pelo coração e pelo afeto. O que temos hoje é o seu avesso: o homem hostil, que pauta o debate pelo ódio, pela suspeita e pela vontade de aniquilar o diferente. A cordialidade, que já foi nossa contribuição à civilização, degenerou em intolerância de bolha.

    Opinião virou identidade: o fim do contraditório

    E aqui entra o ponto que me parece o mais grave — e o menos discutido: a confusão entre opinião e identidade. Quando a divergência de ideias é tratada como traição pessoal, é porque deixamos de separar o que pensamos de quem somos. O pensamento virou adorno identitário, e contestá-lo virou agressão à pessoa. Atacar a ideia, hoje, é atacar o próprio sujeito — e atacar o sujeito é declarar guerra. É o fim do contraditório, esse exercício que, como ensinou Paulo Freire, é o encontro dos homens para a pronúncia do mundo. Sem contraditório não há pensamento crítico; sem pensamento crítico não há cidadania; sem cidadania, o que sobra é a plateia de Lima Barreto — e a plateia, quando se sente ameaçada, não debate: lincha.

    Não estou pedindo cordialidade de fachada nem essa tolerância de salão que aceita o diferente desde que não incomode. Falo de algo mais elementar: a capacidade de ouvir o que nos desagrada sem transformar o interlocutor em inimigo. A democracia não é o consenso dos iguais; é o arranjo para conviver com os diferentes. Quem não suporta a divergência não suporta a democracia — suporta apenas o espelho. E espelho, como todo mundo sabe, é o único interlocutor que nunca nos contradiz. É também, como Nelson Rodrigues sabia, o mais burro de todos: a unanimidade consigo mesmo.

    A escolha: gritar ou construir

    Talvez seja hora de recuperar uma lição antiga, dessas que os algoritmos não ensinam: no meio do caminho tinha uma pedra — e a pedra, Drummond nos ensinou, não era obstáculo, era convite a pensar. O outro, o divergente, o que pensa diferente de nós é essa pedra. Podemos tropeçar nela, xingá-la, cancelá-la — ou usá-la para construir alguma coisa. A mesma escolha se impõe à imprensa: ser escrutínio ou ser plateia; iluminar os bastidores ou dar palco ao ringue; servir à verdade ou servir ao espetáculo.

    A escolha, essa sim, é nossa. E ela se faz todos os dias, a cada comentário, a cada resposta, a cada edição, a cada decisão de gritar ou de escutar. A história — essa juíza que não se deixa comprar por likes — já está anotando quem gritou e quem construiu.

    A Imprensa está no Banco dos Réus, pois o jornalismo virou torcida e o Brasil virou ringue!

    Produzi o conteúdo com a utilização de Ferramentas de IA.

     

     

     

     



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