MK - Marcelo Kieling
Independência de Mentira:
A República que comemora a própria rendição
Independência de Mentira:
A República que comemora a própria rendição
Entre púlpitos que usurpam tribunais e um povo que aplaude a própria irrelevância, o 7 de Setembro deixou de celebrar a liberdade para exibir a nossa falência institucional.
Por Marcelo Kieling
O 7 de Setembro, no Brasil, há muito deixou de ser a celebração de um pacto coletivo de liberdade para se transformar no reflexo de uma nação totalmente fragmentada. Entre desfiles formais e o silêncio de uma população exausta, o país assiste a uma bizarra inversão de papéis institucionais: tribunais que operam como palanques, autoridades que substituem a fundamentação técnica e jurídica por apelos confessionais e uma República que continua patinando sob estruturas de poder herdadas do período colonial.
O púlpito que substitui o tribunal
A laicidade do Estado brasileiro, consagrada no Artigo 19 da Constituição Federal, não é um detalhe burocrático: é a garantia de que o poder público é impessoal e se fundamenta na razão jurídica, não em dogmas de fé ou conveniências teológicas. Quando uma autoridade de cúpula — enredada em crises institucionais — usa as redes sociais para desviar o foco das respostas republicanas obrigatórias e apela para orações e símbolos religiosos, ocorre uma grave subversão. O púlpito substitui o tribunal. Em vez da transparência exigida pelo dever público, recorre-se à blindagem emocional e à mobilização da crença para neutralizar o debate racional. Isso apequena a Constituição e revela o profundo desvio dos parâmetros republicanos: a fé privada de cada indivíduo é instrumentalizada para conferir aura de inquestionabilidade a atos de poder que deveriam ser estritamente laicos, técnicos e transparentes.
Três Poderes, um único projeto: a autopreservação
Essa encenação retórica é sintoma de um mal muito mais profundo: o distanciamento absoluto entre os Três Poderes e a sociedade. O Supremo Tribunal Federal, o Congresso Nacional e o Executivo parecem orbitar em um vácuo de autopreservação, incomodados apenas com o próximo ciclo de disputas de influência, enquanto o cidadão comum lida com um país sem projeto estrutural de nação. A corrupção sistêmica e a impunidade travestida de legalismo corroeram qualquer sentido de pertencimento pátrio. Não há nação quando o Estado protege a si mesmo em detrimento do bem comum.
O que há de mais grave nessa coreografia não é o gesto em si, mas o que ele revela: a conversão do espaço público em arena de espetáculo. Quando a autoridade troca a prestação de contas pela oração, não erra apenas o tom — sinaliza que a lei, a técnica e a transparência viraram obstáculos a contornar, e não fundamentos a respeitar. A laicidade, nesse cenário, deixa de ser princípio constitucional e vira incômodo. É exatamente aí que a crise institucional encontra seu ponto mais perigoso: não na disputa entre Poderes, mas no consenso silencioso de que a forma republicana pode ser encenada sem jamais ser praticada.
Herança de castas: o poder como propriedade privada
O reflexo mais melancólico dessa engrenagem disfuncional manifesta-se nos períodos eleitorais. Em vez de debates densos sobre o futuro da educação, a reforma estrutural, a transição produtiva ou o desenvolvimento social, o que se observa é a repetição de velhas fórmulas demagógicas cujo único objetivo é a perpetuação no poder. Trata-se de uma herança estrutural que remonta ao sistema de Capitanias Hereditárias e ao latifúndio político: o poder como propriedade privada de castas, e não como mandato temporário a serviço da coletividade.
O espectador da própria irrelevância
Curiosamente, o combustível que alimenta essa engrenagem não é apenas a ambição dos que mandam, mas a total apatia dos que obedecem. O comodismo social, a resignação diante do absurdo institucional e a paralisia crítica transformaram o povo, em grande medida, em espectador da própria irrelevância. Enquanto a sociedade não resgatar a capacidade de indignação ativa e a exigência de responsabilidade republicana, o Brasil continuará preso a essa eterna e melancólica promessa de ser o "país do futuro" — um futuro que, convenientemente, nunca chega.
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.




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