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Barra Mansa,06/09/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    O ladrão não usa capuz

    Qual o nome do teu sócio?


    O ladrão não usa capuz

    O ladrão não usa capuz

    Qual o nome do teu sócio?

    Por Marcelo Kieling

    Teve um sujeito que gritou a pergunta certa antes de todo mundo, num tempo em que a gente ainda achava que a resposta era só política. "Brasil, mostra a tua cara", cantou Cazuza. "Quero ver quem paga pra gente ficar assim." Trinta e tantos anos depois, a cara continua escondida, mas o país aprendeu a fazer a pergunta seguinte — essa que ninguém teve coragem de cantar em voz alta: qual é o teu negócio, Brasil? E o nome do teu sócio? Porque é isso que as investigações da Polícia Federal no caso que envolve o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro estão descascando, camada por camada, feito cebola: o crime brasileiro de colarinho branco não tem chefe de morro, não tem fuzil, não tem beco. Tem CNPJ. Tem gravata de seda. E, principalmente, tem sócio.

    A velha escola, a de filme, precisa de violência, de território, de medo correndo na rua. A nova escola, não. Ela opera na luz dos refletores, posa para a foto em fórum internacional, desfila em festa de luxo e ainda acha ruim quando é chamada de ladra. Enquanto o crime tradicional esbarra na polícia e toma tiro, o crime de terno Armani não esbarra em nada — porque, no fundo, no fundo, a polícia, a toga, o palácio e até o púlpito viraram extensão do próprio escritório. O Estado, para essa gente, não é obstáculo. É o sócio oculto. Daqueles que não aparecem no contrato social, mas aparecem na hora de receber.

    E não venham me dizer que isso é exagero de cronista amargo. A arquitetura que as operações recentes desvendaram não é assalto de esquina; é o real e verdadeiro sistema. Começa na finança, com títulos de rentabilidade que só existem na imaginação — CDB que rende o que banco nenhum rende, a não ser que o "rendimento" saia do bolso de quem entra depois. Sobe para a política, atravessa o arco-íris ideológico sem constrangimento: costura à direita, à esquerda, no Centrão, no Planalto. O capital predatório não tem bandeira. Tem preço. Ele não pergunta de que partido é o padrinho — pergunta quanto custa o silêncio corrupto e onde fica a porta dos fundos. Pode chamar de pragmatismo; eu chamo de não ter vergonha na cara. "Hoje você é quem manda, falou, tá falado, não tem discussão", já cantava Chico Buarque, numa época em que a gente ainda achava que aquele "você" era só o regime. Que nada. O "você" troca de endereço, troca de gravata, troca de partido e continua mandando. Falou, tá falado.

    A Faria Lima entra nessa dança como a grande lavanderia de reputação. É ali, entre um pitch e outro, que o dinheiro sujo toma banho de loja, que o golpe ganha aura de "oportunidade de negócio" e o vigarista vira "executivo visionário". A sofisticação do mercado de capitais — essa máquina feita para dar valor à confiança — é sequestrada para dar verniz à fraude. E o mercado, esse fiscal que se diz tão rigoroso, fecha os olhos, porque a liquidez é imediata e o lucro é extraordinário. Ninguém pergunta de onde veio o dinheiro quando ele rende bem. Ninguém quer saber o nome do sócio. "Enquanto os homens exercem seus podres poderes", cantou Caetano, "morrer e matar de fome, de raiva e de sede". Pois é: os podres poderes hoje têm sala na cobertura, e a fome continua lá embaixo, no mesmo endereço de sempre.

    Mas o mais corrosivo de tudo — o que faz a crônica virar tragédia — é a promiscuidade com quem devia proteger a lei. As investigações apontam proximidade, envolvimento e cumplicidade de quem deveria fiscalizar: órgãos de controle, tribunais superiores, forças de segurança. Quando o juiz, o delegado e o banqueiro frequentam as mesmas festas, os mesmos jatinhos e os mesmos fóruns internacionais, o Estado deixa de ser o mediador do conflito para virar o sócio oculto do ilícito. Aí não é mais corrupção — termo até elegante demais. É fusão. É o público e o privado casando no cartório da conveniência, com testemunha de gravata e padrinho de toga. O nome do sócio, Brasil, é esse: a própria República, de braço dado com o assalto.

    E tem a cereja do bolo, o golpe de mestre, aquele que nenhum roteirista de série teria coragem de escrever porque soaria forçado demais: a fé. A infiltração em redes religiosas de massa, com raízes no neopentecostalismo, dá ao esquema uma blindagem moral que impõe respeito — o empresário vira "homem de Deus", o dinheiro vira "bênção", e milhões de fiéis desavisados viram escada para o céu dos outros. Chico Buarque, de novo, com aquela amargura de quem já viu tudo: "De que me serve ser filho da santa? Seria melhor ser filho da outra". É a pergunta certa. Porque, quando o púlpito vira balcão e o altar vira cofre, ser filho da santa não serve de nada — serve só de cortina de fumaça, de lavanderia de imagem, com direito a amém e aleluia. "Tanta mentira, tanta força bruta", completou Chico. E o pior: a mentira agora usa vestes, e a força bruta usa terno.

    O que se consolida no Brasil é um capitalismo de compadrio gigantesco, daqueles que fazem a linha entre o setor privado e o fiscal do Estado simplesmente sumir. O jeito de agir dessas redes, segundo as investigações, inclui: repórter sendo vigiado por estrutura paralela; adversário grampeado não pelo Estado, mas por empresa particular a serviço de banqueiro; informação privilegiada comprada por dentro. É o Estado paralelo rodando com orçamento privado. E o mais triste é que nada disso é novidade. Belchior, lá em 1976, já tinha avisado, com aquela lucidez de quem enxerga o país inteiro num espelho embaçado: "Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais". É isso. O futuro virou um museu de grandes novidades, como cantou Cazuza: o mesmo esquema, a mesma cara de pau, o mesmo compadrio — só que agora com aplicativo, com banco digital e com bênção pastoral.

    E aqui mora a piada de mau gosto que envergonha até o crime organizado clássico. O bandido do morro, quando cresce demais, esbarra na polícia e toma bala. O barão do colarinho branco, quando cresce demais, ganha coluna de economia, aplauso em evento de sustentabilidade e convite para o fórum de Davos. O assaltante de ônibus leva duzentos reais e vira manchete policial. O assaltante do país leva bilhões e vira capa de revista. Um tem o nome no boletim de ocorrência; o outro, no cartão de visita. E a plateia? A plateia faz exatamente o que a cidade fazia com a Geni do Chico: joga pedra no pequeno, no ladrão de galinha, na mulher que furta sabonete no mercado — mas, na hora do apuro, é a mesma plateia que aplaude o grande, que o chama de "gênio", que pede autógrafo, que quer estar na foto. "Joga pedra na Geni", o povo canta, sem perceber que a Geni, hoje, é ele mesmo — pagando a conta do espetáculo inteiro.

    Porque a conta, essa, ninguém pergunta quem paga. Zé Ramalho já tinha feito o retrato falado do contribuinte brasileiro em "Admirável Gado Novo": "É duro tanto ter que caminhar e dar muito mais do que receber". O gado acorda cedo, paga imposto, acredita em recibo, acha que a aposentadoria vem, acha que o hospital funciona, acha que a escola ensina — e o dinheiro dele sobe, sobe, sobe, até sumir no andar de cima, onde o sócio oculto divide o bolo com a toga, com o palácio e com o púlpito. A de cima sobe, a de baixo paga. É sempre a mesma valsa, tocada no mesmo piano, com o mesmo sorriso.

    O Brasil, esse país cantado como aquarela, virou um prédio com fachada bonita e viga podre. E a pergunta de Aldir Blanc, cantada por Elis com aquela ironia fina, nunca foi tão atual: "O Brasil não conhece o Brasil. O Brasil nunca foi ao Brasil." Nunca foi, de fato. Porque quem conhece o Brasil de verdade — o das planilhas, o dos gabinetes, o das sacristias e o dos tribunais — esse não está nem aí para a aquarela. Esse está aí para o cofre. E o cofre, descobrimos agora, tem porta giratória: entra o dinheiro do povo, sai a impunidade dos barões.

    O que resta ao cidadão comum, esse que ainda acredita que uma hora a casa cai, é continuar torcendo para que, desta vez, a engrenagem seja desmontada com nome, sobrenome, devolução do dinheiro e, quem sabe, até uma cela. Porque, se depender da lógica atual, o desfecho mais provável não é a cadeia — é o livro de memórias, seguido de palestra motivacional sobre "superação". E o Brasil, esse Brasil que já viu de tudo e finge que não viu nada, vai continuar se perguntando, com a mão no bolso, onde foi parar o salário. Gonzaguinha cantava que viver é "não ter a vergonha de ser feliz". A pergunta que fica, amarga como café requentado, é outra: o que faz um país que perdeu a vergonha de ser feliz — e ganhou, em troca, a vergonha de ser justo? O ladrão, dessa vez, não usa capuz. Usa terno Armani. Anda de jatinhos e teve a cara de pau de chamar o assalto de "oportunidade de negócio".

    O nome do teu sócio, Brasil. Confia em mim?

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    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.



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