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Barra Mansa,06/09/2026

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    JJ

    Para Não Dizer que Não Falei das Flores

    (Correlação de Forças)


    Para Não Dizer que Não Falei das Flores

    Para Não Dizer que Não Falei das Flores 

    (Correlação de Forças) 

    Por JJ

    Lula é, indiscutivelmente, um grande líder político. Talvez o maior que a classe trabalhadora brasileira produziu em nossa história recente e, seguramente, o mais importante representante popular ainda em atividade no país. Não o coloco na dimensão histórica de Getúlio Vargas, pela complexidade e pelo alcance de seu projeto nacional, nem de Luís Carlos Prestes, pela densidade de sua trajetória revolucionária. Mas Lula possui algo que poucos líderes conseguem construir: uma biografia que se transforma em símbolo. Sua origem pobre, nordestina e operária confere à sua figura uma aura quase mítica, porque sua própria existência política representa, para milhões de brasileiros, a possibilidade de o povo chegar ao centro do poder.

    Sua grande força nunca esteve na elaboração teórica sofisticada. Lula não é um intelectual orgânico no sentido clássico, nem um formulador sistemático de grandes construções conceituais. Sua inteligência é de outra natureza: política, intuitiva, emocional e profundamente relacional. Ele compreende pessoas, ambientes, interesses e humores coletivos com uma capacidade que beira, muitas vezes, o genial. Soma-se a isso um sentido de classe que, embora tenha sido moderado pela experiência do poder, continua presente em sua visão de mundo. E é justo reconhecer que Lula cresceu intelectualmente. Estudou mais, leu mais, ampliou seu horizonte e adquiriu uma dimensão cultural muito superior àquela que possuía no início de sua trajetória.

    Por isso mesmo, qualquer projeto nacional de reconstrução democrática, social e econômica do Brasil ainda passa necessariamente por sua liderança. Não porque Lula seja insubstituível em termos absolutos, pois nenhum indivíduo deveria ser, mas porque, na atual correlação de forças, ele continua sendo a figura com maior capacidade de reunir setores populares, democráticos e progressistas em torno de uma alternativa de poder. Entre os nomes hoje apresentados ao país, é, de longe, o candidato mais competitivo e mais qualificado para enfrentar a extrema direita. Isso não significa, entretanto, que esteja acima da crítica. Ao contrário. Quanto maior o líder, maior deve ser a responsabilidade de quem está ao seu lado em apontar seus erros.

    Tenho a impressão de que Lula ainda não compreendeu inteiramente a crueldade da luta política contemporânea. Talvez isso nem seja propriamente uma falha moral. Cada liderança é também resultado de sua história, e pé de jaca, afinal, não dá manga. Lula foi formado numa época em que a negociação política possuía outras mediações, em que adversários podiam ser duros sem necessariamente destruir as próprias instituições e em que a extrema direita ainda não havia transformado o ódio, a mentira industrializada e a guerra permanente em método de conquista do poder. O problema é que o mundo mudou. E a política brasileira mudou com ele.

    Também é impossível ignorar que Lula se cerca, com frequência excessiva, de bajuladores, aproveitadores e pessoas que confundem lealdade com submissão. Um presidente popular, carismático e historicamente vitorioso precisa de gente capaz de lhe dizer não. Precisa de governança rigorosa, especialmente em relação a familiares, amigos e auxiliares próximos. Não se trata de criminalizar relações pessoais, mas de compreender que, em torno de uma liderança como Lula, qualquer privilégio, qualquer proximidade indevida e qualquer aparência de favorecimento rapidamente se transforma em munição política. O presidente não pode ser prisioneiro da própria aura. A popularidade não substitui regras, e a confiança pessoal não pode substituir mecanismos institucionais.

    Mas foi na questão da correlação de forças que Lula cometeu, a meu ver, um dos seus mais evidentes erros estratégicos. A indicação de Jorge Messias ao Supremo, derrotada pelo Senado em abril, revelou um cálculo político profundamente equivocado.  Em política, especialmente numa República fragmentada como a brasileira, não basta ter prerrogativa constitucional. É preciso medir o custo de exercê-la contra os interesses e as posições reais dos demais centros de poder. Confrontar o presidente do Senado e ignorar uma composição que poderia produzir maior estabilidade institucional foi uma demonstração de que a vontade presidencial, por mais legítima que seja, não pode prescindir da leitura concreta das forças em disputa.

    Não é possível afirmar com certeza que outra escolha para o Supremo teria garantido automaticamente a aprovação do fim da escala seis por um ou da redução da jornada de trabalho. A política não funciona por relações mecânicas de causa e efeito. Mas é perfeitamente legítimo perguntar se uma relação menos conflituosa com o comando do Senado teria produzido um ambiente mais favorável para as grandes pautas do governo. A PEC que prevê o fim da escala 6x1 e a redução da jornada para 40 horas chegou ao centro da agenda política, mas sua votação acabou sendo adiada para depois das eleições.  E esse é precisamente o ponto: correlação de forças não é teoria abstrata. Ela determina o que pode ou não pode ser conquistado em determinado momento histórico.

    Lula continua sendo o melhor candidato disponível para o campo popular e democrático. Mas nenhuma liderança, por maior que seja, vence sozinha. O maior perigo para um líder histórico é acreditar que sua própria história basta para garantir o futuro. Barack Obama, certa vez, teria dito a Lula, em tom de reconhecimento, que ele era “o cara”. Talvez o elogio tenha sido merecido. Mas a política brasileira de hoje exige algo mais do que ser o cara. Exige humildade estratégica, capacidade de ouvir, rigor na escolha dos aliados e compreensão de que ninguém está acima da correlação de forças. Lula ainda pode vencer e deve ser tratado como a principal liderança popular do país. Mas, se continuar confundindo força pessoal com poder absoluto, poderá transformar uma enorme vantagem histórica em um erro político. E esse, sim, seria um erro que o Brasil talvez não possa se permitir.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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