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Barra Mansa,11/03/2026

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    Marcelo Kieling

    A TRAÇÃO DO RADICALISMO

    adicalismo de direita, religião e a polarização brasileira: por que isso ganhou tanta tração agora


     A TRAÇÃO DO RADICALISMO

    O radicalismo de direita na política contemporânea não é um “desvio local”: é um fenômeno global, que aparece com força quando três dinâmicas se encontram ao mesmo tempo — crise socioeconômica, conflito cultural/identitário e mudança profunda no ambiente de comunicação. No Brasil, essa convergência tem um agravante: a política passou a ser lida, por parcelas relevantes do eleitorado, como disputa moral e até espiritual, o que eleva a temperatura do conflito e reduz o espaço de negociação democrática.

    A polarização brasileira atual é, portanto, mais do que “partidária”. Ela é também afetiva (quem é “do meu lado” ou “do outro lado”), territorial (centro x periferia, capitais x interior, redes de pertencimento) e religiosa (valores e identidade). O resultado é um cenário em que escolhas políticas tendem a ser tratadas como identidade de vida, e não como preferência revisável por políticas públicas.

    1) A raiz socioeconômica: insegurança, medo de queda e a busca por culpados

    O radicalismo prospera em ciclos de instabilidade e incerteza porque oferece uma narrativa simples para problemas complexos. A ideia central é explorar o ressentimento de grupos que se sentem ameaçados, ignorados ou “passados para trás” pelas transformações do mundo do trabalho, dos costumes e do próprio Estado.

    No Brasil, essa sensação se liga a fatores como:

    Ressentimento econômico e insegurança: informalidade persistente, rotatividade, pressão por “empreender por necessidade”, medo de desemprego e a percepção de que tecnologia e globalização beneficiam “os de cima”. Mesmo quando indicadores melhoram, a vida cotidiana pode permanecer marcada por custo alto, dívida, serviços públicos frágeis e sensação de vulnerabilidade.

    Bodes expiatórios e deslocamento do debate: em vez de discutir mecanismos estruturais (produtividade, tributação, baixa capacidade estatal, desigualdade histórica), o discurso radical tende a apontar culpados “visíveis”: elites políticas, minorias, “inimigos internos”, “doutrinação”, “comunismo”, “globalistas”. A política vira uma narrativa de inimigos, não de soluções.

    Crise de confiança nas elites e nas instituições: o desgaste com “a política como ela é”, somado à percepção de corrupção e ineficácia, abre espaço para líderes que se vendem como outsiders e “voz autêntica do povo”. Esse ponto é crucial: o radicalismo não cresce apenas por suas propostas, mas por sua capacidade de deslegitimar os mediadores (partidos tradicionais, imprensa, universidades, Judiciário).

    Oposição a políticas assistenciais como arma simbólica: a crítica a programas sociais muitas vezes não é só fiscal; vira uma disputa moral sobre mérito e pertencimento. Beneficiários passam a ser descritos como oportunistas ou “inimigos do contribuinte”, o que reconfigura o debate de proteção social para punição de grupos.

    Aqui está um mecanismo recorrente: quando a sociedade não consegue oferecer um “futuro plausível” para todos, cresce a demanda por discursos que prometem ordem, punição e restauração — mesmo que isso custe liberdades ou degradação institucional.

    2) A disputa cultural: quando política vira “guerra de valores”

    Se o componente econômico cria terreno fértil, o componente cultural frequentemente fornece o combustível emocional. Em vários países, a direita radical cresce como reação às conquistas e visibilidade de grupos historicamente marginalizados — e o Brasil segue essa lógica.

    Alguns eixos típicos:

    · Nacionalismo e nativismo excludente: a ideia de que existe um “nós verdadeiro” (os cidadãos “de bem”, “a família”, “a nação real”) e que o pluralismo ameaça a coesão. No Brasil, isso aparece com força no anticomunismo persistente e na disputa por símbolos nacionais, como se uma parte do país fosse “mais brasileira” do que a outra.

    · Contrarreação a direitos civis: pautas como aborto, diversidade, igualdade de gênero e direitos LGBTQIAP+ viram a arena preferencial porque mobilizam emoções e identidades. Expressões como “ideologia de gênero” funcionam como atalhos narrativos: simplificam debates complexos em slogans morais.

    · Autoritarismo e antidemocracia: quando a política é enquadrada como “o bem contra o mal”, instituições que limitam poder (STF, Congresso, imprensa, regras eleitorais) passam a ser retratadas como obstáculos ilegítimos à “vontade do povo”. A democracia deixa de ser um valor em si e vira apenas um meio — descartável se atrapalhar o objetivo.

    · Nesse ponto, a polarização partidária se transforma em algo mais profundo: o adversário não é “quem pensa diferente”, mas “quem ameaça minha existência moral”. Isso tende a alimentar intolerância, hostilidade e disposição para soluções de força.

    3) O catalisador: mídia digital, bolhas e a política do choque

    A política contemporânea é inseparável da arquitetura das plataformas. Redes sociais mudaram quem fala, como fala e como se organiza o conflito. O radicalismo se beneficia de três características do ambiente digital:

    · Desintermediação: líderes se comunicam diretamente com a base, sem filtros, com linguagem emocional e simplificada.

    · Economia da atenção: indignação, medo e escândalo performam melhor do que nuance.

    · Formação de bolhas: comunidades interpretam o mundo com suas próprias “provas”, reforçando identidade e reduzindo abertura ao contraditório.

    É nesse terreno que florescem o anti-intelectualismo e o negacionismo científico, porque “a autoridade” passa a ser definida pela afinidade identitária, não pela evidência.

    4) Igreja e política no Brasil: quando a fé vira infraestrutura de mobilização

    A implicação da igreja na política, especialmente via protagonismo da Bancada Evangélica (com forte presença pentecostal e neopentecostal), tornou-se um dos eixos centrais da polarização brasileira. Importante separar: religião, como experiência social, não é sinônimo de radicalismo. O ponto analítico é como parte do campo religioso pode operar como rede organizada, com capilaridade territorial e capacidade de coordenação política.

    4.1 Base social de massa e capilaridade onde o Estado falha em muitas periferias e áreas

    Em muitas periferias e áreas com baixa presença estatal, igrejas funcionam como ponto de apoio social, oferecendo acolhimento, comunidade, orientação e redes de ajuda. Isso cria:

    · Mobilização capilar: capacidade de alcançar gente fora da política formal.

    · Amplificação de mensagens: púlpito, grupos e redes internas funcionam como “meios” de comunicação.

    · Coesão e pertencimento: um ativo político poderoso num país desigual.

    4.2 Agenda moral como cola política

    A aliança com a extrema-direita tende a priorizar pautas de costumes como eixo unificador:

    · defesa da “família tradicional”;

    · oposição a políticas de inclusão e diversidade;

    · resistência a mudanças legislativas sobre aborto e drogas;

    · fusão entre identidade nacional e fé (“nação cristã”), com risco de marginalizar outras crenças.

    Isso desloca o centro do debate: em vez de políticas econômicas e sociais, a política se organiza como defesa de fronteiras morais.

    4.3 Desinformação, medo e demonização do adversário

    Quando a discordância política é narrada como guerra espiritual, o adversário vira “agente do mal”, “inimigo de Deus” ou “destruidor da família”. Isso:

    · intensifica a polarização afetiva (ódio/medo do outro);

    · reduz o espaço para compromissos;

    · legitima agressividade simbólica e, em casos extremos, hostilidade concreta.

    No ecossistema digital, a linguagem da fé pode ser usada como selo de verdade e missão, tornando fake news e teorias conspiratórias mais resistentes à correção.

    5) O que há de “momento brasileiro” nisso tudo

    O Brasil vive uma polarização que combina:

    · ansiedade material (medo de queda e sensação de injustiça);

    · reação cultural (costumes e identidade);

    · desconfiança institucional (anti-elite, anti-imprensa, anti-STF);

    · infraestrutura de mobilização (redes digitais + redes religiosas e comunitárias).

    Essa combinação produz um efeito prático: muitos eleitores passam a avaliar governos não por entrega, mas por sinalização identitária — “ele está do meu lado na guerra moral?”. E, quando isso acontece, a política pública perde centralidade e a disputa vira permanente.

    Resumindo

    · O radicalismo de direita cresce quando crise socioeconômica, conflito cultural e mídia digital se reforçam mutuamente.

    · No Brasil, a polarização ganha intensidade porque parte do debate vira moral/espiritual, e o adversário passa a ser visto como ameaça existencial.

    · Redes religiosas (sobretudo neopentecostais) podem atuar como infraestrutura de mobilização, legitimação e agenda, ampliando capilaridade e coesão política.

    · A demonização e a desinformação tendem a desinstitucionalizar o conflito e reduzir espaço para diálogo democrático.




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