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Barra Mansa,02/09/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    Freud não explica o Brasil, mas o Supremo explica Freud

    Uma análise freudiana de um país que trocou o divã pelo plenário


    Freud não explica o Brasil, mas o Supremo explica Freud

    Freud não explica o Brasil, mas o Supremo explica Freud

    Uma análise freudiana de um país que trocou o divã pelo plenário e chama a pulsão de morte de debate democrático, esperando que o Supremo cure a neurose sem que ninguém precise falar.

    Por Marcelo Kieling

    Tem um samba que o Brasil canta há mais de meio século sem perceber que está cantando sobre ele mesmo. "Podem me prender / podem me bater / podem até deixar-me sem comer / que eu não mudo de opinião." Zé Keti escreveu esses versos como grito de resistência, naqueles anos em que o país aprendeu, na marra, o que é um Estado sem freio. A voz do morro dizia: pode me calar, mas não vai me dobrar.

    Só que o samba tem dessas ironias. A mesma firmeza que deu dignidade a quem era oprimido virou, no teatro institucional, a intransigência de todo mundo. A direita canta "não mudo de opinião" contra o STF; a esquerda canta o mesmo verso contra a direita; e o tribunal canta contra os dois. Cada um tem o seu morro, e o morro de cada um é a sua trincheira. Ninguém sai de lá. E é exatamente aí que o Brasil precisaria de um analista — ou, ao menos, de alguém que tenha a disposição de escutar o verso do outro.

    Se o Freud tivesse um consultório no Brasil, a fila começava na esquina e dava voltas no quarteirão inteiro. Só que, tragicamente, o país não deita no divã. O país quer deitar no sofá do Supremo Tribunal Federal.

    É lá que a nação deposita, há décadas, o que não consegue elaborar: o medo da desordem, a raiva da impunidade, a fantasia de que alguém, enfim, ponha ordem na casa. O tribunal virou a consciência moral da República — não a consciência que orienta, mas a que pune, a que decide, a que arbitra quando os outros Poderes se recusam a arbitrar. Freud escreveu, num livro chamado O Mal-Estar na Cultura, que a civilização se sustenta em cima de renúncias: a gente abre mão de uma parte da nossa agressividade pra viver junto, e em troca ganha leis, instituições, tribunais. A conta é simples no papel e brutal na prática. Quando o Legislativo trava diante de qualquer assunto espinhoso, quando o Executivo prefere o silêncio estratégico a decidir, o Judiciário herda o espinhoso. Herda tudo. E o Supremo, no Brasil, herdou quase tudo.

    Nenhum dos três Poderes sai limpo dessa história: o Legislativo abdica, o Executivo enrola, e o Judiciário, de tanto decidir, confunde sentença com governo. O resultado é uma instituição que ninguém consegue amar sem reservas. Pra uns, é o salvador da democracia; pra outros, o tirano de toga. A mesma Corte que garante direitos é a que decide sozinha o que o país inteiro deveria decidir em conjunto. É aquela confusão clássica do filho com o pai: a gente quer a lei que protege e odeia a mão que proíbe. O tribunal virou o pai severo da nação — e o país virou um paciente que ama e odeia o analista ao mesmo tempo, sem saber explicar por quê.

    Tem coisa mais sombria ainda em jogo. Freud insistia que o ser humano não é movido só pelo desejo de viver junto: ele carrega dentro de si uma pulsão de destruição, um prazer em ver o outro se lascar que não aceita negociação. A política brasileira dos últimos anos é um laboratório disso. O adversário deixou de ser oponente — aquele com quem você disputa e, no fim das contas, convive — e virou inimigo absoluto, alguém cuja simples existência já é uma ofensa.

    Nesse atual regime, o ódio se implanta e o ataque não busca resultado: busca o prazer do ataque. Qualquer decisão do tribunal gera uma reação; cada reação gera uma resposta; cada resposta gera um ataque novo. É aquela repetição compulsiva que Freud descreveu no consultório: o paciente repete o trauma porque não consegue lembrar dele, e a repetição toma o lugar da elaboração. O Brasil repete a crise porque não consegue lembrar dela — ou seja, não consegue transformá-la em palavra, em negociação, em história contada e encerrada. O país não traz conversa: apresenta um encenação.

    E tem ainda a herança mais antiga: a fantasia do pai protetor. Freud mostrou, em Psicologia das Massas e Análise do Eu, que os grupos se organizam em volta de uma figura central que ocupa o lugar do ideal de cada um. No Brasil, essa figura mudou de nome com o tempo — o coronel, o presidente, o ministro — mas nunca mudou de função: prometer ordem em troca de obediência. O Supremo, querendo ou não, entrou nesse lugar. As decisões monocráticas, os calendários de julgamento, os gestos de autoridade — tudo isso responde a uma demanda antiga da nação: "alguém precisa mandar".

    Mas a tutela tem preço. Cada vez que a Corte decide no lugar dos outros Poderes, ganha um pouco de eficácia e perde um pouco da sua legitimidade. O país aplaude a ordem e se ressente da tutela. É o dilema do Édipo político: a gente quer a lei do pai pra segurar a bagunça e quer matar o pai porque ele proíbe demais. E, no meio dessa guerra de sentimentos, a democracia — que é, antes de tudo, um jeito de conversar — vai ficando pelo caminho sem ter o rumo definido.

    O que a psicanálise ensina — a sociedade e a política brasileira teimam em esquecer — é que o sintoma não se resolve com mais repressão nem com descarga de ódio. O sintoma é um aviso: alguma coisa, em algum lugar, não foi dita. A insistente crise institucional que volta e meia aparece é o aviso do país — a febre que denuncia uma infecção. E a cura, pra Freud, não era o silêncio nem o grito: era a fala. A elaboração. Aquele trabalho lento, ingrato, de trazer o medo e a fantasia pra mesa e chamar cada um pelo nome.

    Aqui, porém, vale um alerta que o próprio texto, na elegância da análise, corre o risco de esquecer: culpar a "neurose coletiva" e o "pai severo" não pode virar desculpa pra tirar a responsabilidade de quem manda de verdade. O Supremo não é um sintoma que caiu do céu — é uma instituição que cresceu porque os outros dois Poderes abriram mão do próprio papel e, de tanto ocupar o vácuo, passou a gostar do cargo. Se o país trata a Corte como pai, é porque o Legislativo e o Executivo se comportaram como filhos ausentes. Mas pai nenhum cura filho nenhum tomando todas as decisões por ele; no máximo, adia a conversa que um dia vai ter que acontecer. E aqui a psicanálise e o bom senso se encontram: não existe democracia madura onde a autoridade se acostuma a decidir sozinha — nem onde a sociedade se acostuma a deixar que decidam por ela. O problema não é só o tribunal que decide demais; é o país que, de tanto esperar a sentença, se esquiva e esquece que também tem voz.

    Tem sintoma que vem de longe. O Brasil carrega, na sua formação, impasses que nunca foram elaborados — a escravidão que não foi reparada, a ditadura que virou livro, a violência que não foi nomeada, a autoridade que absolutamente nunca foi discutida. Cada crise institucional é a volta desse material recalcado: o país inteiro no divã, repetindo o trauma, esperando que alguém cure ele sem que ele precise falar. Não funciona. Nunca funcionou. Não funcionará.

    Enquanto o Brasil preferir o alívio rápido do confronto à conversa difícil, o resutado do diagnóstico vai se repetir. O país vai continuar vacilando e oscilando entre o pânico da desintegração e a rigidez autoritária, entre o grito de "podem me prender" e o desejo secreto de que alguém, enfim, prenda. O samba, que nasceu como resistência, virou espelho: cada um canta a sua firmeza, e ninguém ouve o verso do outro.

    Talvez seja essa a lição que o divã ensina e o plenário esquece: não tem cura sem escuta. Enquanto a nação cantar "não mudo de opinião" como quem canta um hino de guerra, o refrão vai continuar voltando — a cada eleição, a cada crise, a cada decisão que um homem só assina em nome de mais de duzentos milhões. O morro de cada um é a sua trincheira. E infelizmente, ninguém quer sair de lá.

    Mas o samba, se a gente escutar direito, não é só teimosia. A mesma voz que canta a firmeza é a que pede, no fundo, que alguém escute. O país não precisa de um pai. Precisa de uma conversa. E, como todo paciente que finalmente fala, talvez descubra que a verdade não dói tanto quanto o silêncio.

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.

     



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