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Barra Mansa,11/07/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    A dura realidade de um bêbado chamado Brasil!

    O bêbado e o equilibrista. O Brasil é os dois ao mesmo tempo.


    A dura realidade de um bêbado chamado Brasil!

    A dura realidade de um bêbado chamado Brasil!

    Por Marcelo Kieling

    Uma crônica

    Vivemos o orçamento dos contrários:

    Caía a tarde feito um viaduto. E o Brasil, esse bêbado que cambaleia entre o oitavo e o nono PIB do mundo, vestia luto sem saber. A fila do INSS tinha 1,8 milhão de almas — cada uma esperando o que lhe é devido, o que a Constituição prometeu, o que o orçamento engoliu. 400 mil estudantes tinham largado a escola naquele ano, como quem larga um sonho pesado demais para carregar. E a Escola Nacional de Circo, aquela que formava equilibristas de verdade, estava sem funcionamento por mais de 50 dias.

    Fechada. Como um circo sem pano. Como um país sem lona.

    A lua, tal qual a dona do bordel, pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel. E o Congresso, senhoras e senhores, pedia mais. Sempre mais. R$ 6 bilhões entre fundo partidário e fundo eleitoral — mais do que todo o orçamento do Ministério da Cultura. Mais do que custa manter viva a memória de um povo. O dinheiro vai para os partidos, que são máquinas de perpetuação, não de representação. Vai para as emendas parlamentares, que já ultrapassam R$ 50 bilhões anuais — um balcão de negócios travestido de democracia. Vai para os penduricalhos, esses R$ 30 bilhões em privilégios que o funcionalismo público de alto escalão chama de "direitos adquiridos" e qualquer cidadão na fila do INSS chamaria de insulto.

    E nessa longa estrada da vida, o Brasil vai correndo e não consegue ver nem mesmo a luz que brilha à sua frente.

    O diagnóstico está nos números. R$ 12,7 trilhões de PIB. Nona economia do mundo. E 1,8 milhão de pessoas esperando. O país não é pobre — nunca foi. O que o Brasil tem é uma arquitetura política do gasto público desenhada para beneficiar quem já está dentro do sistema. O Legislativo preserva o fundo partidário e as emendas porque disso depende sua sobrevivência eleitoral. O Judiciário e o alto funcionalismo defendem os penduricalhos porque perder um privilégio dói mais do que nunca tê-lo tido. As elites econômicas — essas 430 mil pessoas que concentram R$ 54 trilhões em patrimônio, uma média de R$ 125 milhões por indivíduo — pagam quase nada de imposto sobre essa riqueza. Não há imposto sobre grandes fortunas regulamentado. O ITCMD, imposto sobre heranças, tem alíquota máxima de 8%, uma das mais baixas do mundo. Dividendos são isentos.

    É um orçamento dos contrários: o dinheiro público financia a perpetuação das desigualdades que deveria combater.

    O bêbado e o equilibrista. O Brasil é os dois ao mesmo tempo. É o bêbado que cambaleia entre a fila do INSS e a porta do banco, entre a escola que fechou e o curso que não pôde fazer, entre o circo desativado e o sonho que não teve vez. É também o equilibrista que tenta se manter sobre o fio tênue da governabilidade, negociando com o centrão, cedendo emendas, engolindo privilégios, mantendo o equilíbrio precário entre o que é certo e o que é possível.

    Ei, você aí, me dá um dinheiro aí.

    O pedido do bêbado na canção de João Bosco e Aldir Blanc, imortalizada por Elis Regina, é o mesmo pedido do Brasil profundo. O cidadão na fila do INSS estende a mão. O estudante que abandona a escola estende a mão. O artista que viu a Escola Nacional de Circo sem funcionar estende a mão. E o sistema responde com o silêncio ensurdecedor de quem já dividiu o butim entre os seus.

    Me dá um dinheiro aí.

    Não é esmola. É o que a Constituição prometeu. É o que o orçamento deveria entregar. É o que o equilibrismo político impede.

    O Brasil de 2026 é o país do novo arcabouço fiscal, que flexibilizou o teto de gastos mas manteve intacta a composição do orçamento. Os privilégios continuam lá. Os subsídios continuam lá. O fundo eleitoral continua lá. O que muda é o que sobra — ou melhor, o que não sobra — para investimento público, para previdência, para cultura, para educação.

    A rigidez orçamentária não é acidental. É o resultado de décadas de escolhas institucionais que beneficiaram sempre os mesmos atores. A Constituição de 1988 ampliou direitos, sim, mas também vinculou receitas e engessou o orçamento de tal forma que o gestor público tem margem mínima de manobra. As reformas liberais dos anos 1990 tentaram conter o gasto, mas não tocaram nos privilégios corporativos. A expansão do gasto social dos anos 2000 conviveu com o crescimento real do bolo — todos comeram, ninguém reclamou. A crise de 2015 expôs a verdade: 93% do orçamento federal é composto por despesas obrigatórias. O Teto de Gastos de 2016 congelou despesas primárias por vinte anos, mas os privilégios ficaram de fora. O ajuste caiu sobre investimento e serviços.

    Você não vai me dar?

    O bêbado insiste. O Brasil insiste. A fila do INSS insiste. Os 400 mil estudantes que evadem a cada ano insistem. A Escola Nacional de Circo, parada, insiste em existir como memória do que o país poderia ser.

    Não vai me dar?

    A resposta mais honesta à pergunta "por que o Brasil gasta mal e não consegue mudar?" não está na economia. Está na política. Está na assimetria de poder de pressão entre os atores organizados — partidos, Judiciário, alto funcionalismo, elites econômicas — e os atores difusos — o cidadão na fila, o estudante que evade, o artista que sobrevive sem política pública.

    Quem tem capacidade de bloquear mudanças são justamente os setores que mais se beneficiam do status quo. É a captura corporativa do Estado, como chama a sociologia política. Grupos organizados extraem rendas do orçamento público porque têm poder de veto institucional e capacidade de mobilização que os segurados na fila do INSS simplesmente não têm.

    Mudar esse cenário exige enfrentar três tabus que o sistema político prefere evitar: o custo do financiamento partidário sem contrapartida social mensurável; a blindagem tributária da riqueza concentrada; e a captura corporativa de parcelas significativas do orçamento público por grupos organizados com poder de veto.

    Enquanto esses três tabus permanecerem intocados, o Brasil continuará sendo esse bêbado que cambaleia entre o nono PIB do mundo e a fila do INSS. Esse equilibrista que mantém o equilíbrio precário sobre o fio da governabilidade enquanto o circo pega fogo.

    A tarde caiu. O viaduto está lá. O bêbado, vestindo luto, estende a mão.

    Ei, você aí, me dá um dinheiro aí.

    O Brasil pede. O orçamento cala. E a Escola Nacional de Circo continua fechada.

    Precisamos mudar o Brasil. Vamos?

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.

     



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