Seja bem-vindo
Barra Mansa,06/07/2026

    • A +
    • A -
    Publicidade

    JJ

    A colonização da mente brasileira

    Essa lógica reforça a polarização que atravessa o país.


    A colonização da mente brasileira

    A colonização da mente brasileira

    Por JJ

    A pesquisa mais recente do Datafolha, segundo a qual 50% dos brasileiros preferem pagar menos impostos e contratar serviços privados de saúde e educação, enquanto 44% defendem pagar mais tributos em troca da oferta pública desses serviços, revela muito mais do que uma opinião sobre política fiscal. Ela expõe uma profunda transformação cultural pela qual passa a sociedade brasileira. O debate sobre impostos é apenas a superfície de um fenômeno mais complexo, a consolidação de uma visão de mundo cada vez mais individualista, competitiva e distante da ideia de bem comum.

    Há décadas o Brasil importa modelos econômicos, comportamentos e referências culturais dos Estados Unidos. Esse processo, porém, não se limita ao consumo de produtos, filmes, músicas ou tecnologias. O que foi incorporado de maneira muito mais profunda foi uma concepção de sociedade baseada na competição permanente, na valorização extrema do mérito individual e na crença de que o mercado oferece respostas superiores às soluções coletivas. Aos poucos, fomos substituindo a ideia de cidadania pela ideia de consumidor. Direitos passaram a ser vistos como mercadorias e o sucesso individual tornou se o principal parâmetro para medir o valor de uma pessoa.

    Essa lógica produz uma consequência previsível. Quando alguém afirma preferir pagar menos impostos, muitas vezes não está refletindo sobre o financiamento das políticas públicas, mas apenas sobre o dinheiro que permanecerá em seu bolso. A sensação imediata é de ganho. Afinal, quem não gostaria de pagar menos? O problema é que essa percepção desconsidera que saúde, educação, segurança, ciência, infraestrutura e assistência social possuem custos permanentes. Se deixam de ser financiados coletivamente, passam a depender exclusivamente da capacidade financeira de cada indivíduo.

    É justamente nesse ponto que o discurso da autossuficiência encontra seus limites. Enquanto a vida transcorre normalmente, a defesa da redução dos impostos parece coerente. Entretanto, basta uma doença grave, um acidente, um tratamento de alta complexidade ou uma crise econômica para que a realidade imponha outra perspectiva. Nesses momentos, descobre se que nem sempre o mercado está preparado para oferecer soluções acessíveis e que determinados riscos são grandes demais para serem enfrentados individualmente. A própria existência de sistemas públicos universais decorre desse reconhecimento histórico, o de que algumas necessidades humanas não podem depender exclusivamente do poder de compra.

    Não se trata de defender um Estado ineficiente, pesado ou desperdiçador de recursos. A insatisfação dos brasileiros com a qualidade dos serviços públicos é legítima e ajuda a explicar o resultado da pesquisa. Muitos desejam pagar menos impostos porque não percebem retorno compatível com o que contribuem. Essa crítica merece ser feita e enfrentada. O equívoco está em concluir que a solução para um Estado que funciona mal seja simplesmente reduzir sua capacidade de financiar direitos fundamentais. Melhorar a gestão pública é diferente de abandonar a responsabilidade coletiva.

    Essa mudança de mentalidade também ajuda a compreender comportamentos que se disseminaram entre a juventude, especialmente nas periferias urbanas. Em uma sociedade marcada pela desigualdade, o reconhecimento social passou a ser fortemente associado ao consumo. Tênis de grife, roupas de marcas famosas, joias, relógios e celulares tornaram se símbolos de pertencimento e sucesso. A lógica da ostentação comunica uma mensagem poderosa, vale mais quem aparenta possuir mais. O valor do indivíduo deixa de estar relacionado ao conhecimento, à solidariedade ou à participação comunitária e passa a depender daquilo que consegue exibir.

    Nesse contexto, não surpreende que música, futebol e crime estabeleçam, em muitos casos, um diálogo simbólico permanente. Evidentemente, tratam se de universos profundamente distintos e não equivalentes do ponto de vista moral ou social. Contudo, compartilham frequentemente a narrativa da ascensão rápida, do enriquecimento e da conquista de reconhecimento por meio do consumo. Para milhares de jovens submetidos à exclusão econômica, esses caminhos aparecem como possibilidades concretas de romper com a pobreza e alcançar o padrão de vida vendido diariamente pela indústria cultural.

    Essa lógica reforça a polarização que atravessa o país. Em vez de enxergar a sociedade como um espaço de cooperação, passamos a percebê la como uma arena onde apenas os mais preparados merecem vencer. A solidariedade perde espaço para a competição, o interesse coletivo cede lugar ao individualismo e a desigualdade passa a ser interpretada como resultado exclusivo das escolhas pessoais. Trata se de uma visão profundamente funcional ao modelo econômico dominante, pois transforma problemas estruturais em responsabilidades individuais.

    A pesquisa do Datafolha, portanto, não revela apenas uma preferência tributária. Ela evidencia o grau de influência que uma determinada concepção de sociedade exerce sobre o imaginário brasileiro. Talvez a maior colonização que tenhamos sofrido não seja econômica nem territorial, mas cultural. Quando um povo passa a acreditar que direitos sociais representam obstáculos ao sucesso individual, a ideia de nação perde parte de seu sentido.

    A questão central, portanto, não é simplesmente decidir entre pagar mais ou menos impostos. A verdadeira pergunta é outra. Queremos construir um país em que direitos fundamentais dependam da capacidade de consumo de cada cidadão ou uma sociedade que reconheça saúde, educação e proteção social como patrimônios coletivos? A resposta a essa pergunta definirá muito mais do que a política tributária. Definirá o tipo de Brasil que desejamos legar às próximas gerações.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira 



    COMENTÁRIOS

    LEIA TAMBÉM

    Buscar

    Alterar Local

    Anuncie Aqui

    Escolha abaixo onde deseja anunciar.

    Efetue o Login

    Baixe o Nosso Aplicativo!

    Tenha todas as novidades na palma da sua mão.