Carmem Teresa Elias
Reflexões literárias para todos os dias e não apenas de um domingo
Autores , sejam diferentes dos padrões, dos eus, dos louros pessoais.
Reflexões literárias para todos os dias e não apenas de um domingo
Tive a alegria de encontrar em meu feed na manhã chuvosa deste domingo uma entrevista do prof acadêmico Godofredo de Oliveira Neto, cujas obras considero entre as melhores da literatura brasileira atual.
Fiquei mais feliz ainda por ler que o autor comunga de avaliações que eu também possuo acerca da literatura. Aconselha Godofredo: “Tentem ‘sair de si’ ao escrever. Vocês estarão, assim, criando um narrador/narradora que não é vocês realmente”.
Escrevi também há poucas semanas justamente sobre a importância insubstituível de um autor vivenciar fora de seu eu: “O verdadeiro escritor convive com o alheio. Observa, investiga, analisa, supõe, conclui, inventa sobre a vida que circula à sua volta, ou do outro lado do mundo, ou em qualquer época. A literatura não é prisioneira do imediatismo do aqui e agora, mal que assola a sociedade digital não só líquida como propôs Bauman, mas agora pulverizada pela rolagem de telas.
Costumo frisar com insistência que a literatura é constituída de valor atemporal e universal”, escrevi recentemente em resenha minha sobre obras do autor Antônio Torres, publicada na plataforma Komunic@.
Tenho observado há bastante tempo um movimento crescente que aprisiona autores novos em torno de si mesmos. Grande parte prioriza falar de si, de suas “biografias” e currículos onde tentam, em vão para mim, convencer de seus grandes atributos pessoais: listas infinitas e chatas de supostos méritos pessoais como medalhas, títulos, cargos, associações a que pertencem. Não focam em suas escritas, nem em seus textos. Querem festas.
Para mim o que importa em um autor é unicamente o seu texto, a sua escrita, a sua produção literária, sua ousadia, força e expressividade com a linguagem literária. O resto, ou seja, o foco nos currículos, muitas vezes sem qualquer valor real, é autodiletantismo no mal sentido mesmo: culto aos egos e narcisismos, que inundam a pseudoliteratura com verdadeiras disputas e brigas por falso poder, por quem exerce mais postos, funções e cargos, distantes do verdadeiro fazer da escrita. Triste. Lamentável. Anti literatura : um mal do século.
Godofredo de Oliveira Neto alerta sobre o verdadeiro exercício do narrador! Ah, como é prazeroso para o escritor o relacionamento e o amadurecimento na criação de seus narradores. Uma das experiências mais completas na minha escrita foi minha narradora no meu romance “O Julgamento das Mães, Maternidade e Terror( editora Scortecci).
A obra em si inclui várias personagens mulheres pelo mundo vitimadas por costumes patriarcais e violências misóginas. Aqui e do outro lado os mundo, comparo as dores e sofrimentos impostos. Uma obra densa, triste, pesada, sim, pois é assim que a vida tem sido para o feminino. A narradora, que surge como alguém sem indentidade, sem nome, chama-se apenas por “Eu”, por ter consciência de uma existência, embora ainda sem voz ou lugar. Ela é apenas uma visão, percepção, consciência e sentimentos diante dos fatos que observa. Justamente assim ela se auto constrói ao longo do encontro com as outras, os outros e dos árduos conflitos pela vida. Minha narradora é única e, hoje creio, ponto forte do romance, por ser a construtora simultânea da narrativa da obra e de si mesma. Ela me surpreendeu, por tão diferente que é de mim, e por tanto que se desenvolveu por meio do reconhecimento alheio das personagens que descrevia.
Estou muito cansada dos métodos anunciados on Line por influencers que julgam ensinar a criar novos best-sellers. Dizem todos as mesmas dicas, como se verdadeiros autores fossem obrigados a seguir padrões fixos: “a primeira página deve ter impacto forte, o resto do texto não importa e não passe de 50 páginas.
Socorro! Clarice Lispector, que julgo a maior autora de todos os tempos na literatura brasileira, inicia algumas de suas melhores obras de modo lento, repetitivo, cansativo, monótono. A obra cresce ao longo dos capítulos, constrói-se mais forte a cada página, acontece no miolo, no centro, no crescimento lento porém gradual e forte da trama arrasadora.
Tenho lido grandes estudiosos atuais, professores, doutores de Letras defenderem textos rasos e, pior, expressarem repulsa por complexidades. Leitura literária mesmo é uma leitura de desafios e de quebras de paradigmas. Opor-se a fluxo de consciência, a tempo não cronológico, à multiplicidade universal de temáticas e épocas, à linguagem rica e criativa soa de modo dolorido e pobre. Adoro o desafio da complexidade textual, que nos faz pensar, refletir, ampliar modos de pensar e crescer como leitor e como preceptores da complexidade da vida, das sociedades humanas e dos problemas sociais insolúveis por milênios.
Quero muito mais de um autor : quero que me inquiete e me retire das zonas de conforto e cura. Como cita Oliveira Neto: “Leituras diferentes enriquecem o romance … e ampliam a viabilidade da inclusão”… As leituras diferentes remetem à intertextualidade e à polifonia. Abrem a voz à multiplicidade ética e ao discurso de autorias diversas. “A sensação de estar contribuindo para o diálogo de várias linguagens e discursos que formam a sociedade dá arrepios.”
Autores , sejam diferentes dos padrões, dos eus, dos louros pessoais.
Minha obra mais recente, um estudo sério e profundo sobre a ESCRITA DO FEMININO: REGISTRO E OCULTAÇÃO”, visa alicerçar com argumentos sólidos a luta feminina contra o descrédito com que tem sido tratada nos cânones por séculos. Para tal sigo exatamente o que Oliveira Neto também destaca: “ressuscitar os mitos fundadores, sem os quais a condição humana seria animalizada.”
Não somos apenas o aqui e agora. Somos o fruto de condicionamentos impostos por contextos de cada tempo histórico. A literatura requer uma pergunta permanente diante de um texto : Por quê? Quanto maior o desafio universal e atemporal de uma obra, mais importante essa pergunta se torna, muito mais ela nos ensina, muito mais ela nos torna conscientes. Mitos estão em toda a sociedade: existem mitos que não podem ser apagados; outros que precisam ser repensados e modificados. Escrever ou ler é ocupar um lugar para melhorar a sociedade, não um palco para o o aplauso e o destaque pessoal , apenas. Esteja no mundo: não no espelho de si mesmo!
Carmem Teresa Elias




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