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Barra Mansa,19/06/2026

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    Carmem Teresa Elias

    Carlos Heitor Cony

    Jornalista e cronista


    Carlos Heitor Cony

    Carlos Heitor Cony

    Jornalista e cronista

    Carlos Heitor Cony, jornalista e cronista, faria 100 anos neste 2026. A data foi lembrada na Academia Brasileira de Letras, em reunião no dia 17 de junho, com uma leitura e debate sobre sua obra, com apresentação de Miriam Leitão sob a coordenação do Acadêmico Arno Wehling. 

    Cony atuou como colunista de A Folha de São Paulo nos anos 60. Inicialmente chegou a manifestar apoio ao golpe militar de 1964,  que tirou João Goulart da presidência da república; porém Cony logo se arrependeu e rapidamente passou a se manifestar em oposição aberta ao golpe, motivo pelo qual foi preso por seis vezes. 

    O evento na ABL trouxe uma  leitura e debate acerca  do livro  O ato e o fato, que reúne crônicas escritas  entre abril de 1964 e fevereiro de 1965, no jornal Correio da Manhã. Nesses textos, ele chamou o golpe de "revolução dos caranguejos" por fazer o país andar para trás. 

    Cony denunciava o autoritarismo e a supressão de liberdades em textos com amplo uso de sátira e ironia. São crônicas consideradas  símbolos da resistência intelectual.

    Na plateia na ABL também marcou presença a  participação da grande atriz Fernanda Montenegro com seus depoimentos sobre o horror dos anos de chumbo. 

    Entre os temas chave no debate, a importância da NÃO polarização no discurso político. Acrescento: a não polarização nos discursos de gênero. Afinal, dois homens ( Cony e Wehling )  e duas mulheres ( Leitão e Montenegro) no Pétit Trianon destacaram a profunda lucidez e percepção de realidade de Cony além das consequências fundamentais para a compreensão da sociedade, do mundo e do papel pessoal que todos assumimos. 

    Miriam Leitão destacou justamente a capacidade de análise contextual que Cony expressou em sua crônica elaborada no primeiro dia pós implantação da ditadura no início dos anos 60. Ele previa de antemão a catástrofe de violência que viria, a que chamou de imediato de tirania. 

    Montenegro explicitou  o papel iluminador da arte em anos de ditadura, quando a verdade era velada à força e a arte era a única linguagem viável de consciência. 

    Afinal, a História se repete, com novas vestes, de tempos em tempos, assim como a literatura também retorna a aspectos de movimentos anteriores para seguir adiante. 

    Politicamente, a tirania nos afronta em tempos de alta tecnologia. Extremismos abusam da construção de mentiras  em nome de uma pseudo democracia. O século XXI veio com uma dicotomia distópica. Olhando para o passado, para os reais motivos que impuseram uma ditadura tirânica sobre o Brasil nos anos 60, onde foi que cegamos? Por que é que cegamos? 

    Saramago fez falta na sala. Mas sua presença esteve na mente de muitos. Porém lembrei-me de um trecho de Carlos Heitor Cony : 

    “Não levarei saudade de mim mesmo, dos meus fracassos e dívidas. Finalmente, não terei saudades dos milagres dos pastores evangélicos nem de um mundo que cada vez fica mais imundo".

    Sobre Miriam e Fernanda destaco que um país se constrói também por mulheres que  fazem  história: contam e recontam os fatos seja pelo jornalismo, seja pela arte. 


    Carmem Teresa Elias



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