JJ
A Mídia Brasileira e o Culto aos Vencedores
Onde está a autocrítica da mídia esportiva brasileira?
A Mídia Brasileira e o Culto aos Vencedores
Por JJ
A derrota do Brasil para a Alemanha por 7 a 1, na semifinal da Copa do Mundo de 2014, foi um dos maiores traumas da história do futebol brasileiro. O resultado foi humilhante, incontestável e exigia reflexão profunda sobre os rumos do nosso futebol. O problema começou quando parte significativa da mídia esportiva transformou uma derrota histórica em uma sentença definitiva contra toda a tradição do futebol brasileiro.
A Alemanha, campeã mundial naquele ano, foi elevada à condição de modelo absoluto. Não bastava reconhecer seus méritos. Era preciso decretar o fim do futebol brasileiro e anunciar o nascimento de um novo "país do futebol". Manchetes, editoriais e programas esportivos passaram a tratar o modelo alemão como verdade incontestável. Muitos jornalistas abandonaram qualquer senso crítico para reverenciar um vencedor momentâneo.
Instalou-se um discurso marcado pelo velho vira latismo brasileiro. Em vez de compreender que o futebol vive de ciclos, preferiu - se afirmar que o Brasil estava condenado ao atraso estrutural. Para sustentar essa narrativa, repetiu-se à exaustão um argumento conveniente, a corrupção. Evidentemente, problemas administrativos existiam e mereciam investigação e punição. Entretanto, reduzir o desempenho esportivo de uma seleção pentacampeã exclusivamente à corrupção era uma simplificação conveniente, incapaz de explicar a complexidade do futebol.
Enquanto isso, dirigentes foram presos, instituições perderam credibilidade e a história do futebol brasileiro passou a ser tratada como um amontoado de fracassos e incompetência. A imprensa parecia satisfeita por encontrar uma explicação única para justificar a superioridade alemã.
O tempo, porém, costuma ser implacável com análises superficiais.
Na Copa do Mundo de 2018, na Rússia, a poderosa Alemanha foi eliminada ainda na fase de grupos. A reação de parte da imprensa brasileira foi quase folclórica. Surgiram comentários sobre "maldição", "macumba brasileira" e outras tentativas risíveis de explicar o fracasso alemão.
Em 2022, no Catar, o roteiro repetiu-se. Nova eliminação na primeira fase. Desta vez, quase não houve repercussão entre aqueles que haviam proclamado o modelo alemão como referência definitiva.
Agora, na competição atual, a Alemanha volta a ser eliminada precocemente, pela terceira Copa consecutiva, sem alcançar sequer as oitavas de final. O modelo antes tratado como insuperável revelou-se tão sujeito aos altos e baixos do esporte quanto qualquer outro.
Onde está a autocrítica da mídia esportiva brasileira? Onde estão os editoriais reconhecendo que o futebol não admite verdades eternas? Onde estão os pedidos de desculpas pela arrogância com que decretaram o fim da escola brasileira de futebol?
Não existem.
Em vez disso, a mesma imprensa simplesmente mudou de referência. Hoje, a França ocupa o lugar que ontem pertencia à Alemanha. Fala-se em "ciclo vencedor", "modelo francês", "estrutura ideal". Repete-se exatamente o mesmo comportamento de idolatria que antes era dedicado aos alemães.
O problema nunca foi a Alemanha, nem agora é a França. O problema é uma mídia esportiva que frequentemente troca análise por modismo, reflexão por slogans e jornalismo por espetáculo.
Grande parte dos programas esportivos deixou de produzir conteúdo analítico. Limitam-se a repetir gols, lances e imagens em câmera lenta durante horas, estimulando paixões imediatas e fabricando polêmicas artificiais para manter audiência. O debate técnico cede espaço ao conflito encenado. O patrocinador vende, a emissora lucra e o torcedor é tratado mais como consumidor emocional do que como cidadão interessado em compreender o esporte.
O Brasil não precisa de comentaristas que transformem cada derrota em tragédia nacional e cada vitória estrangeira em prova definitiva de inferioridade brasileira. Precisa de profissionais capazes de interpretar o futebol com equilíbrio, memória, contexto histórico e independência intelectual.
O futebol é dinâmico. Potências surgem, caem, se reinventam e voltam a vencer. A história mostra isso continuamente. O que não deveria continuar é a incapacidade de parte da mídia brasileira de aprender com os próprios erros. Talvez a maior derrota não tenha sido o 7 a 1. Talvez tenha sido a renúncia ao espírito crítico por aqueles cuja função deveria ser justamente exercê- lo.




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