JJ
Dizem que Copa do Mundo é futebol.
Que ingenuidade.
Copa do Mundo, Bets, comentaristas e o império da babação
Dizem que Copa do Mundo é futebol.
Que ingenuidade.
Por JJ
Copa do Mundo é geopolítica de chuteiras. É dinheiro. É televisão. É publicidade. É Bet. É algoritmo. É mercado. A bola continua redonda, mas gira em torno de bilhões.
Ontem foi um daqueles dias em que a História resolveu vestir uniforme.
De um lado, os antigos colonizadores. Do outro, povos que conheceram na pele o preço da colonização.
A Inglaterra sofreu contra a República Democrática do Congo. Levou um gol logo de saída, graças a uma colaboração generosa do goleiro inglês. Parecia que a zebra tinha comprado ingresso para o camarote.
Mas a História também joga.
O Congo perdeu o foco, a Inglaterra respirou, virou o jogo e os inventores do futebol seguiram adiante. Nada de novo sob o sol que nunca se punha sobre o Império Britânico.
Depois veio o Senegal.
Jogou mais. Correu mais. Criou mais. Foi melhor.
Mas vacilou.
E colonizador não costuma desperdiçar vacilo.
A Bélgica venceu com gols marcados por jogadores descendentes de congoleses, filhos da terra que um dia foi saqueada pelo rei Leopoldo II. Há ironias que nem o melhor cronista conseguiria inventar.
O futebol não apaga a História. Apenas troca a camisa.
Enquanto isso, as seleções africanas seguem exportando matéria prima. O talento nasce em Dakar, Kinshasa ou Abidjan. O brilho aparece em Bruxelas, Londres ou Paris.
A mina continua na África. O produto final continua sendo vendido na Europa.
Mas o pior ainda estava por vir.
Vieram os programas esportivos.
Que desfile de obviedades.
Que festival de reverências.
Determinados jornalistas tratam Cristiano Ronaldo, Messi e Mbappé como se fossem entidades celestiais. Não comentam. Incensam. Não analisam. Canonizam. Falta apenas organizar uma procissão com transmissão exclusiva e patrocínio de uma casa de apostas.
As Bets, aliás, conseguiram um milagre. Invadiram o futebol, os programas esportivos, os intervalos comerciais e, daqui a pouco, vão patrocinar até o minuto de silêncio.
Cansado, fui procurar alguém que ainda falasse de futebol.
Ouvi então a pérola.
"Será uma tragédia se a França não ganhar esta Copa."
Tragédia?
Tragédia é guerra.
Tragédia é fome.
Tragédia é criança sem escola.
Tragédia é um povo inteiro saqueado durante séculos.
Uma seleção milionária deixar de levantar uma taça é só um resultado esportivo.
Às vezes acho que o Brasil sofre menos com a falta de centroavantes do que com o excesso de vira latas.
Tem brasileiro que torce pela Inglaterra porque ela é organizada.
Pela França porque ela é moderna.
Pela Bélgica porque ela é europeia.
Daqui a pouco vão agradecer pela colonização em nome do futebol bem jogado.
Eu continuo preferindo torcer pelo Brasil.
Mesmo quando perde.
Porque quem nasce olhando para cima dos outros acaba esquecendo que também pode ser gigante.
Agora chega.
Fui dormir e já acordei ....
Antes que algum comentarista descubra que a próxima campeã moral da Copa é Luxemburgo.
Fui.




COMENTÁRIOS