Carlo Simi
MISANTROPIA
A descrença na humanidade.
MISANTROPIA
por Carlo Simi
Na madrugada de sexta para sábado, o Brasil foi acordado por um alerta nos celulares. Uma palavra incomum — misantropia — saltou das telas e entrou em milhões de lares adormecidos.
Misantropia. A descrença na humanidade.
Não foi um sinal de guerra. Não foi aviso de enchente. Foi algo mais sutil e, por isso mesmo, mais perturbador: um alerta sobre o estado da nossa alma coletiva.
Eu entendo de onde vem esse sentimento.
Vivemos um tempo em que a palavra que nos manteve de pé parece ter sido confiscada. Há guerras que a televisão normalizou. Há um genocídio na Palestina que o mundo assiste enquanto digita outra coisa. Há uma crise climática que destruiu o Rio Grande do Sul — a maior enchente da história — e mesmo assim, para uma parte considerável da nossa classe política, aquilo já passou. Como passam todas as tragédias que não lhes tocam a pele, que não lhes molham os sapatos, que não lhes afogam os filhos.
Entendo a misantropia. Eu a conheço por dentro.
Mas me recuso a aceitá-la como destino.
Porque quando olho para a humanidade, eu não enxergo primeiro os genocidas e os negacionistas. Eu enxergo a mulher que acorda às cinco da manhã para pegar dois ônibus. O jovem da periferia que estuda numa escola sem telhado e ainda assim sonha com um futuro que ninguém lhe prometeu. O pai que chega em casa tarde, com o corpo gasto, e mesmo assim senta à mesa com os filhos porque sabe que a presença é tudo que ele tem para oferecer naquele dia. Essa é a humanidade que ainda me move. Essa é a humanidade em que ainda acredito.
A misantropia, no fundo, é o caminho mais curto para a rendição. E a rendição tem um endereço certo: ela entrega o povo aos líderes que prosperam no desespero alheio, que convertem dor em ódio, que transformam legítima indignação em arma contra os próprios irmãos.
Eu aprendi com o trabalhismo — com Getúlio, com Brizola, com Darcy — que a política que liberta não é a que alivia. É a que transforma.
Há uma diferença enorme entre essas duas palavras, e ela nos custa caro quando a ignoramos.
Políticas compensatórias aliviam a fome. Políticas estruturantes eliminam as causas da fome. Políticas compensatórias constroem creches onde há carência. Políticas estruturantes constroem uma nação onde a carência não define o destino de nenhuma criança. Durante décadas, confundimos as duas coisas. Celebramos o alívio como se fosse libertação. E quando o alívio acabou — porque alívio sempre acaba — ficamos sem chão.
A educação que o trabalhismo sempre defendeu não é a escola que domestica. É a escola que emancipa. É o CIEP que Darcy Ribeiro imaginou não como depósito de criança pobre, mas como território de cidadania — onde a criança come, aprende, brinca, sonha, e volta para casa com a consciência de que ela importa, de que o mundo também é dela. Quando Brizola construiu aquelas escolas no Rio de Janeiro, não estava apenas erguendo paredes. Estava dizendo, em concreto e tijolo, que o filho do trabalhador tem o mesmo direito que o filho do doutor.
Esse projeto foi interrompido. Sabotado. Abandonado.
Mas ele não morreu — porque as ideias que tocam a vida real das pessoas não morrem com facilidade.
E é por isso que ainda tenho esperança.
Tenho esperança porque os jovens — mesmo os que perderam a fé em partidos, em líderes, em sistemas — continuam, no fundo, com raiva. Não a raiva que destrói, que aponta o dedo para o irmão e faz do ódio uma identidade. A raiva que indigna. A raiva que não se conforma. Raiva é o oposto da indiferença — é energia que ainda não encontrou forma, mas que procura uma. Cabe a nós — os que viemos antes, os que aprendemos na escola dura da luta — mostrar que essa forma existe, que ela tem nome, que ela tem história.
A forma é a organização. É a consciência de que salário digno não é favor, é direito. Que crédito barato para quem produz não é privilégio, é lógica. Que uma economia que coloca o trabalho no centro — e não o rentismo, não a especulação, não o algoritmo da bolsa — é possível, foi tentada, e pode voltar a ser construída.
O sistema financeiro não pode continuar decidindo quem merece prosperar neste país. Quem merece prosperar é quem acorda, quem produz, quem planta, quem carrega, quem ensina, quem cuida. Enquanto o dinheiro render mais do que o trabalho, a desigualdade vai continuar sendo a única constante da nossa história.
Mudar isso exige política. Exige Estado. Exige coragem de ir além do alívio.
Exige acreditar que outra sociedade é possível — mesmo quando tudo ao redor grita que não é.
Na madrugada de sexta para sábado, o Brasil foi acordado com uma palavra que nomeou o nosso medo mais profundo.
Mas o Brasil também tem outra palavra. Mais antiga. Mais teimosa.
Essa palavra é esperança.
E enquanto houver um filho de trabalhador sentado numa carteira escolar acreditando que o mundo pode ser diferente, essa palavra não morre.
Nem nós.
Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.




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