Carlo Simi
O Fluminense que o preconceito não conta
De Marcos Carneiro de Mendonça à visita dos moradores de rua: um clube que sempre soube de que lado está
O Fluminense que o preconceito não conta
De Marcos Carneiro de Mendonça à visita dos moradores de rua: um clube que sempre soube de que lado está
Por Carlo Simi
I. O rótulo que não cola
Existe um preconceito antigo, repetido com a insistência de quem confunde memória com verdade: o Fluminense seria um clube elitista, conservador, fechado em si mesmo. Um clube de casaca, de gente fina, distante do povo. Esse retrato é historicamente falso.
A pecha aristocrática nasce da fundação nas Laranjeiras pela fidalguia carioca do início do século XX. Mas as arquibancadas subverteram essa lógica há muito tempo. O Maracanã e o coração do povo carioca transformaram o Fluminense no time do subúrbio, da Baixada Fluminense e também das Comunidades carentes do Rio de Janeiro. A melhor forma de desmontar um mito é com fatos, nomes e datas.
II. O goleiro que comprou um avião de guerra
Marcos Carneiro de Mendonça chegou ao Fluminense em 1914, estreando pela Seleção Brasileira no mesmo ano. Defendeu o gol do Brasil por quase dez anos, em 8 jogos oficiais. Fora de campo, construiu uma segunda carreira como historiador: "O Intendente Câmara", "O Marquês de Pombal e o Brasil" e "A Amazônia na era pombalina" são referências até hoje.
Presidente do Fluminense entre 1941 e 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, não ficou neutro. Em 1942, liderou uma arrecadação que levantou 155 mil cruzeiros e comprou um monomotor Fairchild PT-19, doado à Força Expedicionária Brasileira. A aeronave foi entregue antes de um Fla-Flu em Laranjeiras — o clássico mais apaixonado do Rio como palco de resistência antifascista. O clube cedeu instalações para treinos militares e formou dezenas de enfermeiras para os campos de batalha na Itália. Por tudo isso, recebeu homenagens da Comunidade Judaica.
Sua esposa, Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça, foi uma das mais proeminentes sufragistas do Brasil. Poetisa e intelectual, lutou pelo voto feminino, conquistado em 1932. Um casal cujas convicções não caberiam em nenhum rótulo de clube elitista.
Mas 1914 guarda outro símbolo. No dia 13 de maio — aniversário da abolição — o atleta Carlos Alberto estreava pelo Fluminense contra o América. Homem negro, tinha o hábito de passar talco no rosto após fazer a barba. A torcida rival usou isso como ofensa: gritou "pó de arroz". A torcida tricolor transformou o ataque em bandeira e o ergueu como símbolo de orgulho. O que nasceu como ofensa virou a marca mais reconhecível do clube no mundo.
Se o Fluminense fosse o clube que alguns insistem em pintar, jamais teria colocado esse homem na presidência, jamais teria comprado um avião para combater o fascismo e jamais teria transformado um ataque racista numa tradição de amor.
III. 1942: o mesmo ano, dois gestos, a mesma alma
No mesmo ano em que Marcos comprava o avião para a FEB, a arquibancada também escrevia sua história. Em 1942 nascia a primeira torcida organizada do Brasil — liderada por Chico Guanabara, homem negro, capoeirista e praticante da umbanda. Enquanto o presidente combatia o nazismo, o povo das gerais organizava sua própria forma de pertencer ao Fluminense.
Elitista? Em 1942, o clube tinha um presidente antifascista e uma torcida organizada fundada por um homem negro da umbanda. Que outro clube pode dizer o mesmo?
IV. A prova que os números não mentem
Em 1963, 194.603 pessoas assistiram ao Fla-Flu pela final do Campeonato Carioca — o maior público da história do futebol mundial entre clubes. Em 1969, outro Fla-Flu reuniu 171.599 torcedores, o segundo maior da história. Não há elite capaz de preencher esses números.
A cultura popular transbordava nas arquibancadas muito antes dos títulos. No final dos anos 1950, mulheres vestidas de baianas com as cores verde, branco e grená giravam nos degraus do Maracanã jogando talco — desfile carnavalesco em plena partida. Muitas vinham de redutos tricolores como a Mangueira, onde Cartola havia fundado sua escola em 1928 planejando usar as mesmas cores do Fluminense. A transição para o verde e rosa se deu apenas pela facilidade de encontrar tecido rosa nos armarinhos. O cordão umbilical com as Laranjeiras jamais se desfez.
V. A fidalguia do morro
Cartola não estava só. Jovelina Pérola Negra — nascida em Botafogo, voz rouca e poderosa do partido alto, considerada herdeira de Clementina de Jesus — era tricolor fervorosa, homenageada pelo próprio clube no Dia da Consciência Negra ao lado de Cartola e Chico Guanabara. Noca da Portela, compositor refinado recentemente falecido e patrimônio do samba, expressou em vida seu amor ao Fluminense com a mesma naturalidade com que compunha. O samba de raiz e o Fluminense construíram juntos uma identidade que nenhum rótulo aristocrático explica.
VI. A ditadura tentou entrar pelas Laranjeiras — e perdeu
As gestões de Luís Murgel (1966–1969) e Francisco Leitão Cardoso Laport (1969–1972) coincidiram com os Anos de Chumbo. Esses presidentes replicavam dentro do clube o espírito centralizador da ditadura: jogadores — em sua maioria negros ou de origem humilde — eram proibidos de circular pelas piscinas e restaurantes das Laranjeiras. O artilheiro Flávio Minuano, herói dos títulos de 1969 e 1970, foi repreendido por ser visto conversando com sócias na entrada da sede e acabou forçado a deixar o clube em 1971 — após 92 gols em 115 jogos. A Jovem Flu de Chico Buarque, Nelson Motta e Hugo Carvana também era alvo da ojeriza da cartolagem.
O paradoxo é que, sob esses presidentes retrógrados, o Fluminense conquistou a Taça de Prata de 1970, arrastando multidões de mais de 100 mil ao Maracanã. Quanto mais a diretoria tentava prender o clube no passado, mais a torcida e o povo das arquibancadas empurravam o Fluminense para o futuro.
VII. A torcida que nasceu contestando
Na virada dos anos 1960 para 1970, Nelson Motta, Hugo Carvana e Chico Buarque criaram a Jovem Flu — uma torcida nascida sob a ditadura, que ocupava as cadeiras do Maracanã para desafiar os cartolas com faixas criativas e humor irreverente. Nos anos 1970, novas lideranças batizaram sua torcida de Organizada Jovem Flu em homenagem àquela geração. Hugo Carvana esteve no gramado para abençoar a nova linhagem. Uma torcida que nasce contestando o conservadorismo interno não é torcida de clube elitista. É torcida de clube vivo.
VIII. O Fluminense do seu tempo — e do nosso
O programa de sócio-torcedor é a prova matemática de que o Fluminense é clube de massa. Um tricolor da Baixada, do subúrbio ou da Cidade de Deus tem o mesmo direito de voto que um sócio da Zona Sul. A Flu Fest, em julho no gramado de Álvaro Chaves, reúne torcedores de todas as classes em shows de artistas tricolores — do samba ao rock à MPB. Xerém, em Duque de Caxias, forma o homem antes do atleta: suporte pedagógico, psicológico, médico e odontológico para jovens de extrema vulnerabilidade, com exigência de desempenho escolar. Para muitos, é a primeira instituição a garantir dignidade e futuro.
O clube recebeu recentemente em seu museu moradores de rua acolhidos pela Unidade de Referência Social Haroldo Costa, na Taquara. A emoção daquelas pessoas ao percorrer a história tricolor ficou marcada em todos que acompanharam. Dos clubes procurados pela Secretaria de Assistência Social, apenas o Fluminense atendeu.
Essa cultura tem nome e rosto. Igor Julião, no Setor Sul Podcast, descreveu a presidência de Mário Bittencourt (2019–2025): "O Mário chegava no vestiário, olhava na nossa cara e dizia: não temos o dinheiro agora, mas prometo que quinta-feira vai estar na conta." Na pandemia, Bittencourt propôs redução voluntária de salários para que nenhum funcionário fosse demitido — e o Fluminense foi o único grande clube a não demitir um único trabalhador na crise. "O Fluminense está nessa fase hoje porque a gente teve a sorte de ter um dirigente como o Mário lá." Essa frase, vinda do vestiário, vale mais do que qualquer relatório de gestão.
IX. Da pandemia às salas sensoriais: um clube que age
Todo ano, no Dia do Orgulho LGBTQIA+, o Fluminense entra em campo com o arco-íris nos uniformes, braçadeiras e bandeirinhas — sob o mote "Time de Todos". As camisas são leiloadas via Play for a Cause, com renda ao Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT, que atua há mais de 25 anos pelos direitos humanos no Rio.
Em 28 de setembro de 2025, no clássico contra o Botafogo, o Fluminense inaugurou duas salas sensoriais no Maracanã para torcedores com Transtorno do Espectro Autista. Com 57m² cada, isolamento acústico, iluminação adaptada e informações em Braille, os espaços foram conquistados pelo movimento Autistas Flu após anos de luta. "A primeira vez que o Gustavo veio ao Maracanã, precisamos ir embora no meio do jogo. Estar aqui sabendo que ele vai assistir de forma acolhedora está sendo uma emoção em dobro", disse Priscilla Figueiredo, terapeuta e mãe de um torcedor autista.
Em abril de 2026, no Abril Azul, o menino Henrique Correa — 6 anos, autista — entrou em campo com os jogadores contra o Corinthians. Capitães, bandeirinhas e patrocinador foram adaptados com o símbolo da causa. O Maracanã virou palco de conscientização. São gestos que não aparecem na tabela — mas definem, com mais precisão do que qualquer troféu, o caráter de um clube.
X. O esporte mais popular não pode ser inacessível
O futebol nasceu nas ruas, cresceu nos campos de várzea e foi construído por gerações de trabalhadores. Quando se transforma em produto inacessível à maioria — como nesta Copa do Mundo, com ingressos a preços absurdos —, algo essencial se perde.
Olhar para o Fluminense hoje é perceber um clube reconciliado com sua própria história. A elite que tentou encastelar as Laranjeiras perdeu a disputa para a poesia de Cartola, para a raça de Flávio Minuano e para a força avassaladora da torcida tricolor. Cartola quase escolheu o verde e grená para a Mangueira. Chico Buarque erguia faixas contra os cartolas. Um homem negro da umbanda fundou a primeira torcida organizada do Brasil. Um avião tricolor cruzou os céus para combater o fascismo. Moradores de rua são recebidos no museu do clube com a dignidade de quem sempre pertenceu.
É uma engrenagem fantástica. E é por tudo isso — por essa história de mais de cem anos, por essa coerência entre passado e presente, por essa recusa permanente em virar as costas para o povo — que o Fluminense é, e sempre será, o Time de Todos.
Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.




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