JJ
Lula Não Mentiu!
Resistir ampliando e ampliar para resistir
Lula Não Mentiu!
Por JJ
Nos bastidores de uma reunião do G20, Lula teria comentado a outros líderes que jamais foi esquerdista. A frase causou estranheza em alguns setores e indignação em outros. Mas, se de fato foi dita, não há mentira alguma nela.
Lula nunca foi esquerdista. E, para dizer a verdade, tampouco foi um homem de esquerda no sentido clássico que muitos imaginam. Sua trajetória sempre esteve mais próxima da social democracia de origem sindical e operária do que das correntes revolucionárias ou doutrinárias da esquerda tradicional.
Desde 2018, com a ascensão do bolsonarismo, consolidou-se no Brasil uma confusão conceitual que interessa muito mais à disputa política do que ao esclarecimento da opinião pública. A mídia reproduziu, militantes de todos os lados aderiram e o debate foi empobrecido. Passou-se a tratar "esquerda" e "esquerdismo" como se fossem a mesma coisa.
Não são.
O próprio Lênin definiu o esquerdismo como a doença infantil do comunismo. Em outras palavras, tratava-se justamente de uma crítica à incapacidade de compreender a realidade concreta, construir alianças e acumular forças para avançar. O esquerdismo seria, portanto, a negação da política eficaz, não sua expressão mais elevada.
Ser de esquerda significa defender os interesses populares e dos trabalhadores, mas também compreender a correlação de forças existente em cada momento histórico. Significa saber que a tática está a serviço da estratégia e que alianças amplas, muitas vezes heterogêneas, são indispensáveis para produzir avanços sociais, econômicos e democráticos.
Foi exatamente esse o caminho trilhado por Lula ao longo de sua vida pública.
As elites brasileiras, a direita tradicional e, mais recentemente, a extrema direita, passaram a utilizar o termo "esquerdista" como um rótulo pejorativo. O objetivo sempre foi evidente: isolar a esquerda, dificultar alianças, afastá-la do centro da vida nacional e, consequentemente, do povo e dos eleitores.
Infelizmente, parte da própria esquerda acabou aceitando esse enquadramento. Acuada, minoritária e frequentemente absorvida por pautas identitárias tratadas de forma desconectada das grandes questões nacionais, viu seu diálogo se restringir a bolhas específicas e recorrentes.
Mas a luta política real exige amplitude. Exige alianças. Exige convivência com diferenças. Exige a capacidade de construir maiorias.
Resistir ampliando e ampliar para resistir.
A política é uma atividade complexa, cheia de curvas, contradições e desafios. Participar dela requer coragem, sem dúvida. Mas coragem sozinha não basta. São necessários inteligência, compromisso, talento e prática.
Lula nunca foi esquerdista. Talvez nem mesmo um homem de esquerda na acepção mais rígida do termo. Foi, e continua sendo, um líder popular capaz de compreender a necessidade das alianças, da acumulação de forças e da defesa dos interesses nacionais.
Num tempo em que tantos confundem radicalismo com firmeza e isolamento com coerência, talvez seja justamente essa compreensão que explique sua longevidade política.
E também por que, ao dizer que nunca foi esquerdista, Lula não mentiu.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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