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Barra Mansa,12/06/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    O Deus dos Algoritmos e o Barro das Trincheiras:

    O Brasil no Espelho de Harari


    O Deus dos Algoritmos e o Barro das Trincheiras:

    O Deus dos Algoritmos e o Barro das Trincheiras:

    Por Marcelo Kieling

    O Brasil no Espelho de Harari

    A notícia, seca e precisa como um código binário, atravessou as telas na última semana: uma startup do Vale do Silício anunciou avanços significativos na interface cérebro-computador, prometendo, em um futuro não tão distante, a "expansão da consciência" e a superação de limitações biológicas. No mesmo ciclo de notícias, quase como uma nota de rodapé de uma realidade persistente, os dados do último Censo revelavam que quase metade da população brasileira ainda não possui acesso a uma rede adequada de esgoto. O contraste não é apenas estatístico; é uma fenda ontológica. Enquanto uma parcela da humanidade se prepara para o upgrade em direção ao Homo Deus, a outra ainda luta para não ser engolida pelo Homo Sapiens do século XIX.

    Em sua obra monumental "Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã", Yuval Noah Harari nos provoca com uma tese audaciosa: após milênios combatendo a fome, as pestes e a guerra, a humanidade está mudando seu foco para a busca da imortalidade, da felicidade plena e da divindade. Para Harari, o humanismo — a religião que colocou o homem no centro do universo — está sendo substituído pelo "Dataísmo", a crença de que o universo consiste em fluxos de dados e que o valor de qualquer entidade ou fenômeno é determinado por sua contribuição para o processamento de dados.

    No Brasil, essa transição não ocorre de forma linear, mas sim em um emaranhado de tempos sobrepostos. Vivemos em um país onde o agricultor de precisão utiliza drones e satélites para monitorar a colheita em tempo real, enquanto, a poucos quilômetros dali, uma criança caminha descalça sobre o solo contaminado porque o Estado ainda não resolveu o enigma básico do saneamento. É a distopia de Harari manifestada em solo tropical: uma elite tecnológica que já flerta com a divindade algorítmica, cercada por uma massa que ainda não conquistou o direito básico à dignidade biológica.

    A provocação de Harari ganha contornos dramáticos quando analisamos a "História do Amanhã" sob a ótica da desigualdade brasileira. O autor alerta para a criação de uma "classe inútil" — não do ponto de vista moral, mas econômico e político. Com a ascensão da Inteligência Artificial e da automação, milhões de pessoas podem perder sua relevância no mercado de trabalho. No Brasil, onde a educação básica ainda patina em índices medíocres e a formação técnica é um privilégio de poucos, esse risco não é uma profecia distante, mas uma ameaça iminente. O que acontece com uma nação que ainda não alfabetizou plenamente seus cidadãos quando o mundo passa a exigir que todos sejam "processadores de dados" eficientes?

    O Dataísmo, para o brasileiro médio, manifesta-se de forma perversa. Somos um dos povos que mais consomem redes sociais no mundo; entregamos nossos dados, nossos desejos e nossa atenção de forma voluntária aos algoritmos de Mountain View e Menlo Park. No entanto, essa hiperconectividade não se traduz em poder político ou bem-estar social. Pelo contrário, parece aprofundar cada vez mais a nossa alienação. Enquanto o algoritmo decide o que vamos comprar ou em quem vamos votar, a realidade física das nossas cidades permanece estagnada. O "Deus" de Harari, no Brasil, é um algoritmo estrangeiro que nos conhece melhor do que nós mesmos, mas que não tem interesse algum em resolver o problema da fome que voltou a assombrar as nossas esquinas.

    Harari argumenta que, no passado, a autoridade vinha de deuses celestiais; depois, passou para os humanos; agora, está migrando para os algoritmos. No Brasil, essa migração é caótica. Nossa democracia, ainda jovem e tateante, vê-se bombardeada por fluxos de desinformação nas bolhas das redes sociais que operam na velocidade da luz, manipulando emoções básicas e instintos primordiais. É o paradoxo tecnológico: usamos as ferramentas do futuro para alimentar ódios do passado. O Homo Deus brasileiro corre o risco de ser um deus irascível, alimentado por ódio, fake news e ressentimento, em vez de sabedoria e transcendência.

    A tese do livro nos obriga a perguntar: qual é o projeto de futuro do Brasil? Se a agenda global está se movendo para a biotecnologia e a engenharia cibernética, onde nos situamos? Não podemos nos dar ao luxo de ignorar a revolução tecnológica, mas também não podemos permitir que ela crie um abismo intransponível entre os "aprimorados" e os "esquecidos". A modernidade brasileira sempre foi uma colcha de retalhos, um "belíndia" — a mistura de Bélgica com Índia, como definiu o economista Edmar Bacha. No entanto, a nova divisão proposta por Harari é ainda mais radical: é a separação entre aqueles que possuem os dados (e, portanto, a vida eterna e o poder) e aqueles que são apenas um mínimo ruído no sistema.

    O rigor jornalístico nos obriga a olhar para os números: o Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, mas a insegurança alimentar ainda atinge milhões. Temos um sistema financeiro dos mais modernos do globo, mas uma infraestrutura urbana que remonta ao período colonial em certas regiões. A política é administrada por interesses e não em função de projetos de Estado. Essa dissonância é o nosso maior desafio. O futuro do Brasil não pode ser apenas a importação de tecnologias de ponta para o usufruto de uma minoria; precisa ser a aplicação dessa inteligência para resolver os problemas que o século XX nos deixou de herança.

    Ao final de sua obra, Harari deixa uma pergunta inquietante: "O que acontecerá com a sociedade, com a política e com a vida cotidiana quando algoritmos não conscientes, mas altamente inteligentes, nos conhecerem melhor do que nós mesmos?". Para o Brasil, a resposta a essa pergunta passa, obrigatoriamente, pelo enfrentamento das nossas carências básicas. Não haverá Homo Deus que se sustente sobre pés de barro, em cidades sem esgoto e escolas sem livros.

    A crônica do nosso amanhã está sendo escrita agora, mas o papel ainda está manchado pela lama das nossas omissões históricas. Se quisermos habitar o futuro que Harari descreve, precisamos primeiro garantir que todos os brasileiros sobrevivam ao presente. A divindade tecnológica é uma promessa vazia se não for precedida pela humanidade básica. O desafio da modernidade brasileira não é apenas alcançar a nuvem, mas garantir que, aqui no chão, o pão e a água sejam tão universais quanto o sinal de Wi-Fi.

    O relógio de Harari corre rápido. Para o Brasil, o risco não é apenas ficar para trás na corrida tecnológica, mas perder a própria alma humana no processo, trocando a solidariedade de uma nação em construção pela frieza de um banco de dados mal gerido. O futuro nos aguarda, mas ele não aceita desculpas por problemas que já deveriam ter sido resolvidos há cem anos.

    Leia Homo Deus e entenderá porque sempre convoco a todos a mudar o Brasil. Vamos?

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.


     



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