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Barra Mansa,02/06/2026

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    Carlos Thadeu de Freitas

    Dívida cresce, mas PIB não

    Verdadeiro debate econômico no Brasil não é apenas sobre como distribuir os recursos, mas sobre como gerar mais riqueza.


    Dívida cresce, mas PIB não Aumento contínuo da dívida pública amplia a percepção de risco fiscal, exigindo juros ainda mais altos para financiar o governo..

    Dívida cresce, mas PIB não

    Verdadeiro debate econômico no Brasil não é apenas sobre como distribuir os recursos, mas sobre como gerar mais riqueza.

    Por Carlos Thadeu de Freitas 

    O Brasil vive uma situação que deveria preocupar qualquer formulador de política econômica: a dívida pública continua crescendo em ritmo acelerado, enquanto a capacidade de expansão da economia permanece limitada. O resultado é uma combinação perigosa de endividamento crescente, juros elevados e inflação resistente, que compromete as perspectivas de crescimento sustentável do país.

    O IPCA deverá encerrar o ano próximo de 6%, permanecendo acima do teto do intervalo de tolerância da meta de inflação. Diante desse cenário, a taxa Selic permanece em patamar elevado, encarecendo o crédito para famílias e empresas e reduzindo a disposição para investir. Ao mesmo tempo, o aumento contínuo da dívida pública amplia a percepção de risco fiscal, exigindo juros ainda mais altos para financiar o governo.

    O problema é que a expansão da dívida pública não tem sido acompanhada por um crescimento equivalente do Produto Interno Bruto. A economia cresce pouco, mas o endividamento avança rapidamente, deteriorando a relação entre dívida e capacidade de geração de riqueza do país. Isso significa que o país acumula obrigações em velocidade superior à expansão de sua economia. O resultado é deixar para os próximos governos uma tarefa cada vez mais difícil: reorganizar as contas públicas, recuperar a credibilidade fiscal e criar condições para a redução dos juros estruturais.

    Embora o PIB tenha apresentado crescimento no 1º trimestre de 2026, esse resultado não altera a questão central da economia brasileira. O desafio não está na capacidade de registrar avanços pontuais da atividade econômica, mas na dificuldade de sustentar um ritmo de crescimento capaz de acompanhar a expansão da dívida pública. Enquanto o endividamento avança de forma persistente, a economia cresce em ritmo insuficiente para melhorar de maneira significativa os indicadores fiscais do País.

    O setor privado já demonstra os efeitos desse ambiente de incerteza. Bancos adotam maior cautela na concessão de crédito, empresas reduzem planos de expansão e investidores aguardam definições sobre o rumo das contas públicas. Quando o crédito fica mais caro e os investimentos são adiados, a economia perde dinamismo, a produtividade avança menos e o crescimento potencial diminui.

    Nesse contexto, o comércio também vem pagando o preço de mudanças que aumentam custos sem necessariamente elevar a produtividade. O debate sobre o fim da escala 6×1 ilustra esse desafio. A redução da jornada de trabalho pode representar um aumento significativo dos custos operacionais para diversos segmentos intensivos em mão de obra, especialmente comércio e serviços, justamente em um momento em que o mercado de trabalho opera próximo do pleno emprego.

    Quando há escassez de trabalhadores disponíveis, a redução da jornada exige contratações para manter o nível de atendimento. Isso eleva custos, pressiona preços e pode estimular a informalidade. Em alguns casos, o efeito pode ser exatamente o oposto do pretendido: empresas aceleram processos de automação e substituição de mão de obra para compensar o aumento dos gastos trabalhistas.

    A experiência internacional demonstra que ganhos permanentes de renda e qualidade de vida dependem fundamentalmente do aumento da produtividade. No entanto, a produtividade não surge por decreto. Ela resulta de investimentos, qualificação profissional, inovação tecnológica, segurança jurídica, infraestrutura eficiente e ambiente favorável aos negócios.

    Por isso, o verdadeiro debate econômico que o Brasil precisa enfrentar não é apenas sobre como distribuir recursos, mas sobre como gerar mais riqueza. O país necessita de uma agenda consistente de reformas estruturais capaz de tornar o orçamento público mais flexível, reduzir o ritmo de crescimento das despesas obrigatórias, controlar a expansão da dívida e criar condições para a redução dos juros de longo prazo.

    Sem avanços nessa direção, o risco é continuar convivendo com uma economia que acumula dívida, mantém juros elevados e cresce pouco. A conta acaba recaindo sobre empresas, trabalhadores e consumidores, que enfrentam crédito caro, menor investimento e oportunidades mais limitadas. O desafio do próximo governo será interromper esse ciclo e promover as reformas capazes de aumentar a produtividade, recuperar a confiança e permitir que a economia volte a crescer de forma compatível com as necessidades de desenvolvimento do país.

    Carlos Thadeu de Freitas Gomes, 78 anos, é assessor externo da área de economia da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). Foi presidente do Conselho de Administração do BNDES e diretor do BNDES de 2017 a 2019, diretor do Banco Central (1986-1988) e da Petrobras (1990-1992).



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