MK - Marcelo Kieling
O Negócio do Brasil:
Entre a Navalha e a Festa Pobre
O Negócio do Brasil:
Entre a Navalha e a Festa Pobre
Por Marcelo Kieling
O Brasil tem uma solução? A pergunta, lançada como um desafio sobre o balcão de uma repartição pública qualquer ou no calor de uma discussão de rede social, costuma receber respostas que variam entre o messianismo ingênuo e o niilismo terminal. Mas para entender se há saída, é preciso primeiro admitir que o Brasil, antes de ser uma nação, um projeto de povo ou um sonho de futuro, consolidou-se como um "negócio". E, como em qualquer transação de vulto nas sombras do poder, o contrato foi redigido com letras miúdas, cláusulas de exclusão e uma droga já malhada antes mesmo de o cidadão comum assinar o termo de posse da sua própria cidadania.
A letra de Cazuza, George Israel e Nilo Romero, que atravessa décadas sem perder o corte, não é apenas um desabafo poético; é um diagnóstico de auditoria social. Quando o poeta canta que "não me convidaram para esta festa pobre que os homens armaram", ele descreve o abismo que separa o Brasil oficial do Brasil real. A "festa" é o banquete das elites, o conluio dos sócios ocultos que operam o Estado como uma extensão de seus próprios quintais. É uma festa pobre, não por falta de recursos — afinal, o Brasil é um colosso de riquezas naturais e potencial humano —, mas por falta de espírito, de ética e de alteridade. É a pobreza de uma visão que não enxerga o país além do próximo trimestre fiscal ou da próxima eleição.
Nessa festa, o cidadão comum, como eu, um jornalista que observa as entranhas do poder ou o gestor que tenta equilibrar as contas de uma prefeitura asfixiada, fica na porta, estacionando os carros. Somos os manobristas de uma opulência que não nos pertence, pagando sem ver por uma conta que nunca consumimos. O "pagar sem ver" é a essência da nossa tragédia tributária e moral: entregamos o suor do trabalho a um sistema que nos devolve serviços públicos degradados, uma educação que não liberta e uma segurança que, muitas vezes, é o próprio braço da insegurança.
O Brasil tem solução? A resposta passa pela pergunta seguinte da canção: "Qual é o teu negócio? O nome do teu sócio?". O negócio do Brasil tem sido, historicamente, a manutenção de privilégios sob a máscara do interesse público. Desde 1500, como bem pontuado em minhas reflexões sobre nossa ancestralidade colonial, o modelo de extração sobrepõe-se ao modelo de construção. Os "sócios" mudam de nome dentro da família, de sigla partidária e de ideologia, mas o método permanece o mesmo. Ora são os coronéis do café, ora os tecnocratas de plantão, ora os líderes de movimentos radicalizados que usam a fé como mercadoria política. O sócio é o corporativismo, é a impunidade, é o racismo estrutural que insiste em manter a "taba do índio" programada para dizer apenas "sim, sim" enquanto a TV a cores exibe a ilusão de um progresso que não chega ao chão da fábrica ou ao interior do sertão.
A solução, se houver, não virá de um novo "chefe de nada" eleito sob a promessa de milagres. O Brasil já teve salvadores da pátria o suficiente para preencher um cemitério de esperanças frustradas. A solução reside na transparência de "mostrar a cara". Quando exigimos ver quem paga para a gente ficar assim, estamos questionando a mecânica da nossa própria desigualdade. Quem lucra com a polarização que cega? Quem ganha com a desinformação que radicaliza o vizinho contra o vizinho? Quem se beneficia de um sistema judiciário que, por vezes, parece uma navalha que só corta a carne dos descalços?
Também como bacharel em Ciências Contábeis e gestor, sei que não há balanço que feche quando a corrupção é lançada como despesa operacional e a ética é tratada como ativo intangível de valor zero. O "cartão de crédito que é uma navalha" é a metáfora perfeita para a nossa economia de sobrevivência. O brasileiro vive no fio da lâmina, endividado não apenas financeiramente, mas existencialmente. Vivemos de crédito — de crédito na próxima safra, no próximo governo, na próxima intervenção divina — enquanto a dura realidade nos corta a pele.
A solução do Brasil exige uma ruptura com a "droga malhada" do populismo do radicalismo e do reacionarismo. Exige um sério rigor jornalístico que não se curve ao oficialismo e uma gestão que entenda que governança não é apenas um termo de MBA, mas um compromisso de vida com a transparência. É preciso desarmar a "festa pobre" e convidar o país inteiro para a mesa. Mas não para a mesa das migalhas, e sim para a mesa das decisões.
O Brasil é uma "grande pátria desimportante" no cenário global não por falta de tamanho, mas por falta de seriedade. Somos o país que suborna a própria consciência para não ter que encarar o espelho. No entanto, há um verso na canção que guarda a chave da nossa persistência: "Em nenhum instante eu vou te trair". É a lealdade crítica. Trair o Brasil seria aceitar o seu destino como um negócio falido. Não trair o Brasil significa continuar exigindo que ele mostre a cara, que ele revele seus sócios, que ele pare de nos convencer a pagar por uma droga que nos mata aos poucos.
A solução do Brasil é o fim do sigilo sobre quem somos e o que queremos ser. É a coragem de admitir que o "negócio" atual é insustentável. Enquanto o país for o balcão de negócios de uma elite que se reveza no poder, a festa continuará sendo pobre e nós continuaremos na porta, com a navalha na mão, esperando o momento em que a cara do Brasil seja, finalmente, a cara de um povo que parou de aceitar o "sim, sim" como única resposta possível.
O Brasil tem solução? Sim, mas ela não está no sócio oculto, nem no suborno da esperança. Ela está na insolvência desse modelo e na construção de uma nova governança da alma brasileira, onde a confiança não seja um pedido desesperado ("confia em mim"), mas o resultado natural de uma cara que não tem mais nada a esconder.
A solução para o impasse brasileiro, contudo, exige mais do que a troca periódica de inquilinos no poder; demanda uma reforma cirúrgica na própria arquitetura da representação, começando pela abolição definitiva da reeleição em todos os níveis — um mecanismo que, na prática, transformou o primeiro mandato em uma eterna campanha financiada pelo erário e o segundo em um balcão de negócios para a sucessão. Para que o Brasil deixe de ser a "festa pobre" dos amadores e oportunistas, é imperativo instituir um filtro de competência técnica e ética: um exame nacional de habilitação política, rigoroso como um vestibular de alto nível, que submeta todo postulante a cargo eletivo a uma avaliação profunda sobre a ordem social, a Constituição e os fundamentos da Moral e Cívica. Somente ao exigir que o "sócio" do poder demonstre conhecimento real sobre a máquina que pretende operar e compromisso inegociável com os valores republicanos, poderemos substituir a navalha do privilégio pelo bisturi da gestão eficiente, garantindo que quem mostre a cara ao eleitor tenha, no mínimo, a dignidade intelectual de compreender a pátria que se propõe a liderar.
Precisamos mudar o Brasil. Vamos?
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