JJ
Nenhuma Mulher está Realmente Segura
O Atlas da Violência revela um dado devastador
Nenhuma Mulher está Realmente Segura
Por JJ
Há algo de profundamente cruel no Brasil contemporâneo. Um país que se acostumou a contabilizar mulheres mortas como quem acompanha índices econômicos, gráficos frios, estatísticas de rotina. O Atlas da Violência mais recente aponta redução em alguns indicadores gerais de homicídio, mas a realidade concreta permanece brutal, sufocante e quase imutável para milhões de mulheres brasileiras. A violência não recua, ela apenas muda de endereço, assume novas formas, reorganiza sua geografia do horror.
O discurso otimista produzido por autoridades, setores da mídia e parte dos governos esbarra num fato incontornável, mulheres continuam sendo assassinadas dentro de casa, perseguidas por companheiros, violentadas por homens que acreditam possuir seus corpos, seus destinos e suas vidas. O problema não é episódico. Não é exceção. Não é desvio. É estrutura.
Quando uma mulher é sequestrada pelo ex companheiro, jogada de um penhasco e milagrosamente sobrevive agarrada a uma árvore, o país não está diante de um “caso chocante”. Está diante do retrato fiel de uma sociedade adoecida. O espanto público dura horas. A lógica que produz o crime continua funcionando normalmente no dia seguinte.
O Atlas da Violência revela um dado devastador, mais de 46 mil mulheres foram assassinadas no Brasil em pouco mais de uma década. Em 2023 sozinho foram quase 4 mil vítimas. Uma média aterradora de aproximadamente 13 mulheres mortas por dia.
E há algo ainda mais perturbador nessa tragédia, grande parte dessas mortes ocorre justamente no espaço que deveria representar proteção. O lar brasileiro tornou-se, para inúmeras mulheres, um território de medo. O agressor não é um estranho escondido numa esquina escura. Frequentemente é o marido, o namorado, o ex companheiro, o pai dos filhos, o homem que conhece rotinas, fragilidades e caminhos
Isso desmonta uma das maiores farsas sociais do país, a ideia de que a mulher está em perigo apenas nas ruas. Não. Muitas vezes ela está em perigo na cozinha de casa, no quarto, na sala, dentro do próprio casamento.
O feminicídio brasileiro não nasce do nada. Ele é alimentado diariamente por uma cultura de posse masculina profundamente enraizada. Uma cultura que ensina homens a confundirem amor com domínio, relacionamento com controle, masculinidade com autoridade absoluta. Quando a mulher rompe, questiona, denuncia ou simplesmente deseja existir fora da tutela masculina, muitos homens interpretam isso como afronta pessoal.
É por isso que os crimes são tão violentos. Não basta matar. É preciso punir. Humilhar. Destruir. Apagar.
O mais grave é que o Brasil parece ter normalizado essa barbárie. A sucessão de notícias produz anestesia coletiva. Mulheres espancadas, queimadas, esfaqueadas, perseguidas, violentadas, assassinadas na frente dos filhos. Tudo vira fluxo contínuo de manchetes consumidas rapidamente nas redes sociais antes da próxima tragédia ocupar a tela.
Enquanto isso, o Estado permanece frequentemente lento, burocrático e insuficiente. Medidas protetivas são descumpridas. Delegacias especializadas são poucas. Abrigos são insuficientes. Investigações falham. Muitas mulheres denunciam repetidas vezes antes de morrer. Em inúmeros casos, o assassinato acontece depois de pedidos explícitos de socorro ignorados pelas instituições.
Há ainda um recorte racial impossível de ignorar. As mulheres negras continuam sendo as maiores vítimas da violência letal no Brasil. A desigualdade social, a precariedade econômica e a ausência histórica de proteção estatal tornam essas mulheres ainda mais expostas ao ciclo de violência doméstica e feminicídio.
E talvez o dado mais duro seja este, mesmo quando os índices gerais de homicídio caem, a violência contra mulheres resiste. Isso significa que existe um componente específico, estrutural e cultural sustentando essas mortes. Não se trata apenas de segurança pública. Trata-se de uma sociedade inteira organizada sobre desigualdades de gênero naturalizadas há séculos.
Por isso soa tão vazio celebrar pequenas reduções estatísticas enquanto mulheres continuam vivendo aterrorizadas dentro de suas próprias casas.
Nenhuma sociedade civilizada deveria considerar aceitável conviver com milhares de mulheres assassinadas todos os anos. Nenhuma democracia saudável deveria tratar feminicídio como ruído permanente do cotidiano.
O Brasil vive uma epidemia silenciosamente aceita. E talvez o aspecto mais assustador dessa tragédia seja justamente esse, ela deixou de provocar ruptura moral coletiva. O horror tornou-se rotina.
E quando uma sociedade se acostuma ao horror, ela própria já está profundamente ferida.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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