Carmem Teresa Elias
PARA QUEM ESCREVES, MARÍLIA ?
A EDUCAÇÃO brasileira anda mal, muito mal, de muito mal a pior, há décadas.
PARA QUEM ESCREVES, MARÍLIA ?
Chega um momento na vida em que não se esconde a verdade. Vamos falar sério, ao menos um pouco: a EDUCAÇÃO brasileira anda mal, muito mal, de muito mal a pior, há décadas. Aliás, acredito que desde que eu nasci. Aqueles anos de tons de cinza escuro…
Perdoem-me os jovens, ou não, mas a minha geração talvez tenha sido uma das últimas a dar importância ao estudo, para a maioria dos alunos.
E não era nada fácil: havia reprovação, repetência, recuperação, segunda época e até jubilação do colégio se a repetência ocorresse pela segunda vez.
Sempre passei direto em todas as matérias.
Problema é que um dia resolveram simplificar tanto, tanto, tanto, as grades curriculares, além de uma invenção sinistra chamada aprovação automática, que o analfabetismo funcional hoje em dia recebe até grau de doutorado. E não estou exagerando, não!
Hora de puxar as orelhas: de teóricos da educação (muitos sequer entraram em sala de aula, menos ainda nas periferias e comunidades), teóricos de países como Suíça e Noruega, teóricos dos Confins do mundo e do próprio Brasil. Hora de puxar orelhas de ministérios, de secretarias, de direções, de conselhos, de docentes e de corpo discente. A educação no Brasil é indecente!
Lá pelos idos anos de primeiro e segundo Graus ainda estudei Latim no sétimo ano, sonetos de Camões no Ensino Médio, Shakespeare original na universidade. Não morri, nem fiquei traumatizada. Hoje, nem sabem o que a palavra gramática significa! Conjugação verbal, concordância, regência… mesóclise! ‘Aqui nao pode escrever palavrão nāo’, vão logo gritar. Pode-se xingar à vontade pelas ruas, pelas redes sociais, pelos poemas. Mas pelo amor de Deus, não se pode falar em sintagma nominal!!
A ignorância virou status! A preguiça mental virou inteligência artificial. E o jovem que nada sabe finge ensinar qualquer assunto em vídeos de internet. A moça que nunca leu propõe oferecer em curso sobre como escrever um romance e se tornar best-seller. Pergunto a ela: pode me dizer o nome de um autor literário?
Outra influencer comenta uma crônica minha: “ Carmem, você escreve muito difícil, usa umas palavras estranhas como um tal de “cujo” que você repete algumas vezes.
Descobri assim, com uma desinformada que influencia escritores em cursinhos online ( pagos ainda por cima) que cujo é palavra non grata!
Falta na sala de aula tudo o que hoje em dia se programa nas máquinas. Para que serve o cérebro humano? Afinal, existem máquinas impactantes como Inteligência Artifical, verdadeiros receptáculos de morfologia, sintaxe, semântica e Linguística! As máquinas aprenderam a ler e escrever! O ser humano, não ! Então ficam todos maravilhados diante do que se aprendia em escolas aos onze anos de idade. Deixa para lá!
Bem, desta vez escrevo aqui de improviso porque a máquina teima em me perguntar em que estou pensando. Ou insiste que lhe peça para escrever algo por mim!
Por acaso, tinha procurado hoje um trabalho que fiz na universidade e que minha filha adorava só pelo título: A Figura Feminina em Marília de Dirceu. A saber, poemas que remontam da época da Inconfidência Mineira. Será que alguém já ouviu falar sobre Tiradentes e os poetas da Inconfidência? As informações podem ser achadas no Google, deixa pra lá.
Sabem, na minha época (clichê de gente que o jovem não quer nem saber), fazíamos três longos trabalhos por semestre e por cada disciplina na faculdade. Três TCCs por semestre para cada disciplina!! Ninguém abandonava o curso, nem ficava traumatizado.
Enfim, achei o trabalho de novo, amarelado, quase rasgando. Não havia computador na época. Era tudo escrito à mão.
Coisa de gente que lia, pesquisava, interpretava, analisava, redigia, argumentava, tinha ponto de vista, e algumas coisas cujos conteúdos se perderam: ética, autonomia, pensamento crítico, força de vontade, caráter e personalidade.
Carmem Teresa Elias




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