Seja bem-vindo
Barra Mansa,26/05/2026

    • A +
    • A -
    Publicidade

    MK - Marcelo Kieling

    O Naufrágio das Âncoras:

    A Ciranda Financeira e o Rio de Janeiro sem Destino


    O Naufrágio das Âncoras:

    O Naufrágio das Âncoras:

    A Ciranda Financeira e o Rio de Janeiro sem Destino

    Por Marcelo Kieling

    A Baía de Guanabara, vista de cima, ainda tenta conservar a ilusão de uma promessa intocada. Sob o sol do fim de tarde, a água reflete um dourado que parece purificar, ainda que por breves instantes, as margens sufocadas por um abusivo descaso. Mas o Rio de Janeiro é uma terra de contrastes brutais, onde a beleza geográfica funciona como uma espécie de anestesia coletiva para uma grave dor crônica. Sob a superfície reluzente da mística carioca, corre um rio subterrâneo de calamitosas transações sombrias, onde o futuro de milhares de cidadãos foi apostado em mesas de roleta financeira e o próprio conceito de soberania estatal dissolveu-se na fumaça da conveniência política.

    Não se trata de uma crise passageira, daquelas intempéries que assolam governos e depois se dissipam com a próxima colheita ou o próximo ciclo econômico. O que o Rio de Janeiro experimenta é o real ápice de um processo de captura do Estado. É a transformação da máquina pública em um balcão de negócios privados, onde coalizões de interesses particulares — que vão de colarinhos-brancos engomados em gabinetes refrigerados a fuzis empunhados em ruelas de terra batida — ditam o ritmo da vida de milhões de fluminenses.

    O Cassino dos Aposentados: A Roleta do Rioprevidência

    Há uma frieza quase obscena nos números que habitam os relatórios de auditoria. Quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, o cidadão comum, preocupado com o preço do feijão e a tarifa do transporte, talvez não tenha compreendido de imediato o tamanho do abismo que se abria sob seus pés. Mas a matemática da tragédia fluminense é direta: o Rioprevidência (Fundo Único de Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro) aportou cerca de R$ 2,6 bilhões em fundos de investimento e letras financeiras atreladas ao grupo do Banco Master.

    Para quem passou trinta ou quarenta anos gizando quadros-negros em escolas sem ventilador, patrulhando ruas violentas ou atendendo pacientes em enfermarias superlotadas, a previdência pública não é um "ativo de risco". É a sua âncora. É a certeza de que, no crepúsculo da vida ativa, haverá um porto seguro. No entanto, as investigações da Polícia Federal e os alertas do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) revelaram que essa âncora foi lançada em mar revolto, sem quaisquer amarras da prudência e da governança mais elementar.

    A engrenagem desse dreno é sofisticada. Não se rouba mais o Estado apenas com malas de dinheiro em hotéis de luxo; rouba-se com algoritmos, com papéis de altíssimo risco disfarçados de oportunidades imperdíveis, com a conivência de diretorias que parecem sofrer de uma súbita cegueira técnica. A prisão do ex-presidente da autarquia, e as operações da PF que miraram a cúpula do fundo são os retratos de uma tragédia anunciada.

    O governo corre para garantir que os pagamentos imediatos não atrasem, temendo a convulsão social que o atraso de salários sempre provoca no Rio de Janeiro. Mas o rombo atuarial é uma gigante assombração de longo prazo. Ele não desaparece; ele se acumula. E quem pagará a conta, inevitavelmente, é você, o contribuinte. Cada centavo perdido nessa ciranda financeira é um leito de hospital que deixa de existir, uma escola que permanece sem merenda, uma viatura que fica sem combustível. O cidadão fluminense, sem saber, tornou-se o fiador involuntário de apostas temerárias feitas em banquetes dos quais ele nunca participou.

    A Presença Seletiva: O Estado Negociado

    Se a economia do colarinho-branco drena o topo, a economia territorial do crime organizado asfixia a base. A história recente do Rio de Janeiro é um desfile melancólico de ex-governadores que trocaram o Palácio de Laranjeiras por celas de segurança máxima. Essa constante não é um desvio de rota; é o próprio sistema. O colapso da representação política tradicional abriu espaço para uma simbiose perfeita entre o poder formal e as forças informais que controlam o território.

    Há um erro crasso, repetido à exaustão por analistas apressados, de que o crime organizado cresce na "ausência do Estado". Nas periferias e favelas do Rio, o Estado nunca esteve ausente. Ele se faz presente de forma seletiva, negociada e, muitas vezes, armada. As milícias e as facções do narcotráfico não são meras quadrilhas de salteadores; são holdings econômicas complexas.

    Hoje, esses grupos controlam o cotidiano de maneira absoluta. Eles decidem quem vende o gás, quem distribui a água, qual provedor de internet pode operar e quem constrói prédios em áreas de proteção ambiental. A extorsão foi institucionalizada como taxa de segurança. O cidadão da Baixada Fluminense ou da Zona Oeste vive sob uma dupla tributação: paga os impostos oficiais ao Estado — que lhe devolve serviços públicos precários — e paga o pedágio diário à milícia para ter o direito de existir e trabalhar.

    Essa economia política do crime retroalimenta o sistema partidário. O controle territorial armado traduz-se em controle de currais eleitorais. Quem tem a chave do território tem os votos; quem tem os votos tem o poder de barganha nas assembleias e nos palácios. O crime organizado não quer destruir o Estado; ele quer habitá-lo, usá-lo como escudo e como o grande facilitador de seus negócios bilionários.

    A Esfera Pública Asfixiada

    Essa fragmentação territorial cria uma cisão profunda na alma do estado. Existe o "Rio formal", que discute a renegociação do Regime de Recuperação Fiscal nos salões acarpetados de Brasília, e o "Rio informal", que tenta sobreviver ao tiroteio da manhã para chegar ao trabalho. A esfera pública, que deveria ser o espaço por excelência do debate democrático e da construção de consensos, foi esvaziada.

    Em seu lugar, restou um populismo penal ruidoso e uma polarização estéril que servem como cortinas de fumaça. Discute-se a letalidade das operações policiais nas redes sociais enquanto as cúpulas financeiras do crime lavam o dinheiro da extorsão em negócios imobiliários legítimos na Zona Sul e na Barra da Tijuca. Grita-se contra a corrupção de forma genérica enquanto os fundos de pensão dos servidores continuam expostos a manobras de mercado que desafiam a lógica e a moralidade.

    A desconfiança nas instituições é tamanha que o cinismo tornou-se a postura padrão do cidadão fluminense. Quando a sociedade deixa de acreditar que a lei e a justiça são aplicáveis aos poderosos, o tecido social se esgarça. A paralisia política não é um acidente; é o resultado desejado por aqueles que lucram com o caos organizado.

    O Horizonte da Insolvência Permanente

    Para onde navega essa nau sem rumo? Se o modelo atual persistir, os cenários são de uma gravidade que dispensa quaisquer eufemismos.

    Em primeiro lugar, o Rio de Janeiro caminha para se tornar um Estado-membro insolvente permanente. A dependência crônica de socorros federais e a constante renegociação de dívidas que nunca são pagas transformam o estado em um paciente na UTI fiscal, cuja sobrevivência depende do humor político do governo central. Sem capacidade de investimento próprio, a infraestrutura se deteriora e o funcionalismo público vive sob a espada de Dâmocles de novos atrasos e reformas punitivas.

    Em segundo lugar, a segurança pública continuará refém de uma lógica de enxugar gelo. Operações espetaculares com alta letalidade podem aplacar temporariamente o desejo de vingança social alimentado pelo medo, mas não alteram a correlação de forças territorial se as rotas de lavagem de dinheiro e o financiamento político do crime não forem asfixiados.

    Por fim, o desinvestimento econômico será a consequência natural da insegurança jurídica e física. O capital produtivo, aquele que gera empregos de qualidade e desenvolvimento a longo prazo, é covarde por natureza: ele foge da instabilidade. O Rio de Janeiro corre o risco de ver sua economia ainda mais reprimarizada, dependente quase exclusivamente dos royalties do petróleo — uma riqueza volátil que, historicamente, serviu mais para financiar o gigantismo estatal e os desvios do que para estruturar um futuro sustentável.

    A crônica do Rio de Janeiro não é uma história de ficção; é um espelho que reflete os perigos do patrimonialismo levado às suas últimas consequências. Se as âncoras da governança, da ética pública e do rigor institucional continuarem a ser sacrificadas no altar da corrupção, da ganância e da cumplicidade, o desastroso naufrágio deixará de ser uma ameaça futura para se tornar o nosso endereço definitivo.

    Também precisamos salvar o Rio de Janeiro. Vamos?

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo.Todo o conteúdo foi revisado por humanos.




    COMENTÁRIOS

    LEIA TAMBÉM

    Buscar

    Alterar Local

    Anuncie Aqui

    Escolha abaixo onde deseja anunciar.

    Efetue o Login

    Baixe o Nosso Aplicativo!

    Tenha todas as novidades na palma da sua mão.