JJ
A Eleição de São Paulo Será Decidida pelo Centro
A política, afinal, é a arte de construir maiorias.
A Eleição de São Paulo Será Decidida pelo Centro:
Por JJ
As pesquisas disponíveis até aqui apontam o governador Tarcísio de Freitas como favorito na disputa pela reeleição em São Paulo. Esse dado produz um paradoxo para muitos setores do campo progressista: como um governador considerado fraco e ruim mantém tamanha vantagem eleitoral?
A resposta talvez não esteja apenas na avaliação de governo, mas na dinâmica política construída ao longo das últimas décadas no estado. Há um erro recorrente na interpretação da realidade paulista. A oposição insiste em enxergar São Paulo como um território ideologicamente disponível para uma disputa clássica entre esquerda e direita.
Não é!
Desde os tempos de hegemonia do PSDB no Palácio dos Bandeirantes, consolidou-se uma cultura política fortemente moderada, pragmática e conservadora, inclusive nos costumes econômicos. A classe média paulista pensa que é rica, aspira mobilidade social, valoriza em demasia o empreendedorismo e finge rejeitar discursos excessivamente ideológicos, independentemente de sua origem. Mas, invariavelmente, coloca-se concretamente à margem direita das disputas.
Foi justamente nesse ambiente que Tarcísio prosperou eleitoralmente. Sua vitória não decorreu de atributos administrativos ou de realizações governamentais. Ela foi favorecida por uma polarização nacional intensa e pela transferência de capital político do então presidente Jair Bolsonaro, especialmente forte em São Paulo.
Se esse diagnóstico estiver correto, a conclusão é inevitável: repetir a mesma estratégia de enfrentamento ideológico dos anos anteriores seria um erro político grave.
A oposição não derrotará Tarcísio disputando quem representa melhor a esquerda. Tampouco vencerá transformando a eleição estadual em mais um capítulo da guerra cultural. Esse terreno favorece naturalmente o governador e sua base política.
O desafio é outro.
É necessário construir uma alternativa ampla, capaz de dialogar simultaneamente com trabalhadores, classe média, empreendedores, prefeitos, lideranças municipais, setores produtivos da indústria e do agro, além do eleitorado do interior. Em outras palavras, uma chapa que represente convergência ampla, que olhe a partir do centro, e não de nichos.
Nesse sentido, a candidatura de Fernando Haddad ao governo possui méritos evidentes. Trata-se de um nome conhecido, com elevado recall eleitoral, experiência administrativa e perfil mais moderado do que frequentemente lhe atribuem adversários e críticos. Seu desafio não seria falar para a esquerda, mas ampliar pontes para muito além dela.
A presença de Simone Tebet em uma das vagas ao Senado também representa um movimento inteligente de ampliação política. Tebet construiu uma imagem de moderação, equilíbrio institucional e diálogo, características particularmente valorizadas por parcelas importantes do eleitorado paulista. Além disso, dialoga fortemente com as mulheres, maioria do eleitorado do estado.
O problema surge quando se imagina que a simples soma de nomes identificados com o campo progressista seja suficiente para conquistar as duas vagas senatoriais. A realidade eleitoral paulista recomenda rejeitar tal conduta.
Historicamente, São Paulo tende a distribuir representação entre campos políticos distintos. Por isso, a escolha dos candidatos ao Senado não deve obedecer apenas à lógica da identidade ideológica, mas também à capacidade de expansão eleitoral.
É nesse ponto que ganha relevância o nome de Márcio França. Ex-governador, profundo conhecedor da realidade paulista e político reconhecido pela habilidade e capacidade de diálogo, França reúne características que transcendem fronteiras partidárias tradicionais. Sua trajetória lhe permite interlocução com setores empresariais, lideranças municipais e segmentos da segurança pública, ampliando o alcance da chapa para além de seu núcleo original.
Já uma candidatura de Marina Silva ao Senado enfrentará dificuldades específicas e tornaria a chapa mais estreita. Embora possua relevância nacional e trajetória conhecida, sua identificação prioritária com a agenda ambiental alienígena e o fato de não possuir raízes políticas no estado devem dificultar a construção de uma candidatura competitiva em determinadas regiões paulistas. Seus apoiadores poderiam argumentar que sua contribuição estratégica talvez fosse mais eficaz em outras frentes eleitorais.
Além disso, seria muito difícil o eleitorado eleger duas mulheres, ainda do mesmo campo e da mesma chapa. Nunca isso ocorreu nas eleições do estado.
Da mesma forma, a escolha da vice-governadoria deveria obedecer à lógica da ampliação real, e não apenas simbólica.
Nesse contexto, o nome de Marcelo Barbieri apresenta atributos relevantes. Ex-prefeito de Araraquara por dois mandatos, foi deputado federal por várias legislaturas e presidente nacional do MDB, partido no qual militou por cinquenta anos.
Com forte tradição municipalista, experiência parlamentar, trânsito entre prefeitos e profundo conhecimento da realidade do interior paulista, Barbieri é empresário do comércio e mantém excelentes relações com o agronegócio.
Barbieri agregaria densidade política e territorial à chapa. Sua presença poderia fortalecer a conexão com municípios médios e pequenos, segmento decisivo em qualquer eleição estadual.
A política, afinal, é a arte de construir maiorias.
Quando uma candidatura favorita lidera as pesquisas, a oposição precisa compreender que a vitória não virá da reafirmação das próprias convicções, mas da capacidade de dialogar com quem pensa diferente. Ganham eleições aqueles que ampliam fronteiras, não aqueles que falam apenas para os convertidos.
Por isso, a construção de uma chapa ampla não deveria ser vista como concessão ideológica, muito menos como projeto pessoal, mas como estratégia eleitoral. O objetivo central de qualquer coalizão que pretenda disputar o governo paulista é convencer a maioria dos eleitores de que representa uma alternativa viável, segura e competente.
Se a disputa de 2026 for reduzida a mais um confronto entre esquerda e direita, o favoritismo de Tarcísio tende a permanecer intacto. Mas, se a eleição for transformada em um debate sobre gestão, desenvolvimento, municipalismo, crescimento econômico e capacidade de governar para todos, o cenário pode tornar-se muito mais competitivo.
Em São Paulo, como tantas vezes ocorreu na história política brasileira, a vitória provavelmente será construída no centro do tabuleiro, e não nos extremos dele.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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