MK - Marcelo Kieling
O Silêncio de 13 de Maio
O racismo ter cor e endereço
O Silêncio de 13 de Maio
Por Marcelo Kieling
Salvador acordou com atabaques.
Em algum terreiro do Pelourinho, o toque ancestral ecoava como uma memória que se recusa a morrer. Enquanto isso, o restante do país — Brasília, São Paulo, Rio, os gabinetes climatizados do poder — simplesmente não ouviu. Ou fingiu não ouvir. Treze de maio, Dia da Abolição da Escravatura, passou como um dia qualquer no calendário oficial da nação.
Nenhuma fala presidencial. Nenhum comunicado oficial do Congresso. Nenhuma pauta urgente nas comissões. Os silêncios institucionais são declaratórios. E o silêncio de um país sobre a data que encerrou (em tese) trezentos anos de cativeiro é a assinatura pública de que o tratado de libertação dos negros ainda não foi rasgado — foi apenas esquecido numa gaveta empoeirada do arquivo morto da história.
O que se viu, nos últimos anos, não foi um país caminhando em direção à reparação, mas um movimento vigoroso de marcha a ré. Parlamentares que se autointitulam "conservadores" — palavra que o dicionário insiste em associar à prudência e à moderação — transformaram o racismo estrutural em plataforma eleitoral. Mas não nos enganemos com o verniz terminológico: o que se veste de conservadorismo é, no osso, reacionarismo puro. O conservador autêntico zela por instituições e valores que merecem ser preservados. O reacionário, por sua vez, não conserva nada — ele deseja retroceder. E o que há de mais primitivo no retrocesso brasileiro é a recusa em reconhecer o negro como sujeito pleno de direitos.
O que sustenta essa máquina de apagamento é uma aliança tão sólida quanto silenciosa: parte expressiva da massa religiosa brasileira, majoritariamente evangélica, tem servido de base eleitoral fiel a esses parlamentares. Não se trata de generalizar — o movimento evangélico é plural, heterogêneo e, em suas margens, abriga vozes antirracistas potentes. Mas a fatia que ocupa o microfone e dita o voto tem alinhado suas narrativas teológicas a um projeto político que nega cotas, desqualifica ações afirmativas e trata o debate racial como "vitimismo".
Há uma contradição que deveria doer na consciência de qualquer pessoa que leia a Bíblia: o mesmo Deus que libertou o povo hebreu da escravidão no Egito é invocado para justificar a indiferença diante dos herdeiros da escravidão brasileira. O Êxodo vira peça de museu. O cativeiro moderno — o da subclasse racializada, do jovem negro morto pela polícia, da empregada doméstica que ainda chama a patroa de "sinhazinha" — esse não merece um sermão sequer.
Em certo dia cruzei com uma senhora no centro do Rio. Ela vendia balas no sinal, como vendeu a vida inteira. Couro queimado de sol, mãos caleadas, olhos de quem já viu tudo e já espera nada. Perguntei se ela sabia que era 13 de maio. Ela riu, sem graça. "Sei, sim. Mas pra quê?" A pergunta dela ficou comigo como um caco de vidro na sola do pé.
Pra quê?
Para que servem as datas se o Estado as ignora? Para que servem os feriados se o sistema educacional não os ensina? Para que serve a memória se a política a enterra viva?
É aí que o cheiro das Capitanias Hereditárias ainda perfuma os salões da República. A lógica do latifúndio, da sesmaria, do poder concentrado nas mãos de poucos homens brancos que decidem o destino de muitos — essa matriz colonial não foi dissolvida pela independência, nem pela república, nem pela abolição. Ela se adaptou. Mudou de roupa. Hoje usa terno e gravata, ocupa cadeiras no Congresso, pastas ministeriais, presidências de comissões. Mas o espírito é o mesmo: o Brasil como propriedade privada de uma elite que se vê no direito de definir quem merece ser cidadão e quem deve permanecer na senzala moderna da subcidadania.
Não se trata de defender um 13 de maio como feriado nacional festivo, coberto de ufanismo vazio. A própria data é controversa — a "abolição" da Princesa Isabel foi uma engrenagem do projeto de branqueamento, uma libertação incompleta que jogou o povo negro à própria sorte, sem terra, sem trabalho, sem reparação. Mas o apagamento da data não é uma crítica a essa incompletude. É um sintoma. O país não silencia sobre 13 de maio porque acha a data imperfeita; silencia porque não quer falar sobre racismo.
Salvador, terra do candomblé, terra da resistência negra mais visceral do Brasil, ainda celebra. Os atabaques tocam. As baianas acendem velas. O axé corre solto nas ladeiras. Mas Salvador não é o Brasil. Salvador é a exceção que confirma a regra. O Brasil real, o Brasil do Planalto Central, das capitais frias e dos condomínios fechados, preferiu não ver. Como sempre preferiu.
Desde 1500, a história brasileira é um exercício contínuo de cegueira seletiva: enxergamos o lucro, mas não o sangue que o molha; enxergamos o progresso, mas não os corpos sobre os quais ele foi construído; enxergamos a miscigenação como propaganda, mas não o racismo que a desmente. O mito da democracia racial, denunciado por Florestan Fernandes e Abdias Nascimento há décadas, ainda é o nosso — a crença confortável de que aqui todos se amam, de que o problema é lá fora, nos Estados Unidos, na África do Sul.
Não é. O problema está aqui, na manhã de 13 de maio em que o Brasil não teve nada a dizer.
O racismo brasileiro não usa capuz branco. Ele usa terno, gravata e sorriso amarelo. É o racismo do "não vejo cor", do "isso é vitimismo", do "já teve ação afirmativa demais". É o racismo que aponta para o negro bem-sucedido como prova de que o sistema funciona, enquanto ignora os 75% de mortos pela polícia que são negros, o desemprego que é o dobro entre pretos e pardos, o analfabetismo que insiste em ter cor.
E enquanto a sociedade cala, a parcela reacionária do Parlamento avança. Projetos que criminalizam o debate racial nas escolas. Cortes orçamentários nas políticas de igualdade racial. Nomeações que apagam a pauta antirracista da máquina pública. A cada 13 de maio silenciado, uma nova camada de concreto é despejada sobre a memória.
Mas memória não morre. Ela fermenta. Ela espera. Ela encontra brechas.
Nos terreiros de Salvador, nos grupos de rap das periferias, nas ocupações estudantis, nos movimentos de base das igrejas negras, nas universidades públicas que ainda resistem à política do apagamento — a memória não só vive como se organiza. O problema é que ela ainda não tem força para furar o bloqueio do poder institucional. E enquanto não tiver, o Brasil continuará sendo este país estranho que celebra a diversidade no Carnaval e a enterra no dia seguinte.
Pode ser que 13 de maio nunca precise ser um feriado nacional. Mas precisa, no mínimo, ser um dia de incômodo. Um dia em que a escola explique por que a abolição foi incompleta. Em que o Congresso pelo menos cite a data em algum discurso protocolar. Em que a mídia não trate o assunto como tema de nicho, mas como questão estrutural da nação.
Enquanto isso não acontecer, o ar das Capitanias Hereditárias continuará soprando nos corredores do poder. E o Brasil, esse gigante que se pretende moderno, continuará tropeçando nas próprias correntes — aquelas que foram abolidas no papel em 1888, mas que ainda apertam os pulsos da alma nacional.
Salvador que o diga. Lá, pelo menos, os atabaques não se calam. O resto do país precisa aprender a ouvir.
Precisamos mudar o Brasil. Vamos?
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.





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