JJ
AJUDA AI!!
Arrotando espuma.
AJUDA AI!!
Por JJ
O Brasil já teve guerra de meme, guerra de narrativa, guerra de WhatsApp, guerra contra vacina, guerra contra urna eletrônica, guerra contra a Terra redonda e até guerra contra o Oscar da Fernanda Torres. Mas confesso que eu não estava preparado para a insurgência patriótica do detergente.
A semana começou com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária alertando sobre lotes de produtos da marca Ypê por possível contaminação microbiológica. Uma informação sanitária, técnica, objetiva, dessas que antigamente faziam o brasileiro apenas olhar o número do lote e trocar o produto no supermercado.
Mas estamos em 2026. E desde 2016 o Brasil resolveu abandonar a realidade e morar definitivamente num grupo de Telegram administrado por um coach de apocalipse.
Bastou descobrirem que empresários ligados à empresa haviam apoiado Bolsonaro em 2022 para surgir imediatamente a tese revolucionária: “a esquerda quer destruir o detergente patriota”.
E aí começou o espetáculo.
Teve cidadão bebendo detergente dentro do carro como se estivesse degustando um vinho chileno safra especial da liberdade. Teve gente lavando cabelo com lava louças, lavando frango com detergente, tomando banho de espuma ideológica e transformando bactéria hospitalar em símbolo de resistência conservadora.
O brasileiro já tinha visto militante defender político corrupto. Mas defender coliforme fecal foi um avanço antropológico.
A extrema direita brasileira conseguiu criar algo inédito na história da humanidade: o negacionismo sanitário doméstico. Não basta ignorar médico, cientista e vacina. Agora o sujeito quer enfrentar a microbiologia no peito, no gogó e, se possível, com espuma de coco neutro sabor patriotismo.
É impressionante como tudo vira seita.
Se a Anvisa alerta sobre bactéria, o bolsonarista entende perseguição comunista. Se chove, é manipulação climática do Foro de São Paulo. Se o pão amanhece duro, claramente foi sabotagem petista contra a indústria do trigo nacional.
E o mais fascinante é a escala do delírio.
Em qualquer país minimamente funcional, alguém que bebe detergente para provar fidelidade política seria encaminhado para observação psiquiátrica. No Brasil, vira influencer patriota, comentarista de live e candidato a vereador.
A essa altura, Darwin já desistiu de explicar a seleção natural no Brasil. Aqui ela pede exoneração.
O mais triste é perceber como uma parcela da população foi treinada para reagir emocionalmente a qualquer fato. Não importa a evidência, não importa a lógica, não importa o risco. Se alguém do “outro lado” falou, eles fazem o contrário, mesmo que isso envolva ingerir produto de limpeza.
Na pandemia, teve gente brigando pela cloroquina como quem defendia o último pedaço da civilização ocidental. Agora temos sommelier de detergente.
Daqui a pouco alguém vai fritar pastel com desinfetante para combater o comunismo.
E pensar que o sonho de várias gerações era ver o Brasil entrar no futuro.
Entramos. Só ninguém imaginava que seria montado num frasco de detergente amarelo, gritando “mito” e arrotando espuma.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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