A Foto e a Farsa
A grande mídia brasileira sempre utilizou pesos e medidas diferentes conforme os interesses que serve.
A Foto e a Farsa
Por JJ
Circula pelas redes sociais e pelos jornalões da grande mídia uma fotografia em que aparecem rindo ministros do STF. Bastou a imagem para que pseudos jornalistas, apedeutas e profissionais da manipulação seletiva se lançassem à habitual tarefa de fabricar indignação. A aparência foi imediatamente transformada em essência, como se uma fotografia pudesse explicar a complexidade da realidade política. Não é novidade. A grande mídia brasileira sempre utilizou pesos e medidas diferentes conforme os interesses que serve e conforme a classe social, a força política ou o projeto histórico que pretende proteger ou destruir.
Como não lembrar da então deputada federal pelo PT, Ângela Guadagnin, de São José dos Campos, município onde também foi prefeita, fotografada comemorando uma vitória no plenário da Câmara dos Deputados? A máquina de execração pública entrou imediatamente em funcionamento. A imprensa que o saudoso Paulo Henrique Amorim definiu como PIG, Partido da Imprensa Golpista, transformou sua comemoração na infame “dança da pizza”. Durante semanas, a imagem foi explorada como prova definitiva de degradação moral, numa operação de linchamento político que contribuiu para destruir sua trajetória eleitoral. Hoje, porém, os mesmos agentes que se apresentam como guardiões da ética parecem descobrir escândalos conforme a conveniência. Malu Gaspar, Sandberg e Milton Jung, entre tantos outros, destilam sua indignação travestida de informação ou notícia, reproduzindo a velha função ideológica de uma imprensa que raramente é neutra e quase nunca é inocente.
A questão central é compreender que a mídia dominante não existe fora da luta de classes. Ela cumpre um papel político, econômico e ideológico. A Rede Globo, Veja, Folha de S.Paulo e setores inteiros do sistema de comunicação participaram ativamente da construção da narrativa que legitimou a Lava Jato, uma operação apresentada como cruzada moral, mas que produziu devastação econômica, desemprego, destruição de empresas estratégicas e profundo atraso nacional. A operação foi incentivada, anabolizada e politicamente instrumentalizada em conexão com interesses que ultrapassavam as fronteiras brasileiras, enquanto seus principais veículos de propaganda jamais fizeram uma autocrítica proporcional aos danos que ajudaram a produzir. A indústria da construção pesada foi destroçada, milhares de empregos desapareceram e o país perdeu capacidade produtiva. Agora, muitos dos mesmos personagens querem novamente posar como sacerdotes da moral pública.
É nesse terreno que uma fotografia de ministros sorrindo ganha proporções artificiais. A classe média progressista, tantas vezes incapaz de distinguir forma de conteúdo, aparência de essência e fato isolado de processo histórico, embarca facilmente na avalanche de manipulações. Interpretar corretamente a realidade não é simples. Exige método, capacidade de abstração e compromisso com a totalidade concreta. Aos que se ocupam seriamente da política e se reivindicam de esquerda cabe utilizar o materialismo histórico e dialético para compreender os movimentos reais por trás das imagens cuidadosamente escolhidas. A fotografia pode, inclusive, revelar que uma maioria do STF, oportunisticamente ou não, percebe que precisa defender a própria instituição diante de uma ofensiva permanente. Como observou Alcolumbre, a existência de mais de uma centena de pedidos de impeachment contra ministros do Supremo não pode ser tratada como normalidade democrática.
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro aparece reiteradamente associado a suspeitas, investigações e falcatruas, mas recebe uma cobertura frequentemente menos histriônica do que uma fotografia de ministros sorrindo. E aí está o conteúdo por trás da aparência. O problema nunca foi apenas a foto, a ética ou a moralidade. O problema é político e de classe. A mídia dominante dispara seus mísseis contra quem, em determinado momento, representa obstáculos aos interesses das forças que a financiam e sustentam. Flávio Bolsonaro, por sua vez, não é tratado com o mesmo furor porque seus objetivos fundamentais jamais estiveram tão distantes daqueles que controlam os grandes interesses econômicos e ideológicos do país. No fim, a indignação dessa corja de comunicadores tem preço, endereço e classe social. E quem não enxerga isso continuará sendo manipulado por uma fotografia enquanto a realidade inteira acontece atrás dela.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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