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Barra Mansa,17/10/2026

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    Dia das Crianças:

    antes de preparar o futuro, precisamos respeitar a infância


    Dia das Crianças:

    Dia das Crianças: antes de preparar o futuro, precisamos respeitar a infância

    Por Profª Paty Fonte

    Hoje, 12 de outubro, homenagens nas redes sociais, vitrines coloridas, brinquedos e campanhas publicitárias nos lembram que é Dia das Crianças. Mas, em meio às comemorações, precisamos fazer uma pergunta que não pode ser silenciada: garantimos às crianças os direitos que dizemos celebrar?

    Mais do que presentes, as crianças precisam de presença. Mais do que brinquedos, precisam de tempo para brincar. Mais do que adultos que falem por elas, precisam de adultos dispostos a escutá-las. E, acima de tudo, precisam ser reconhecidas como sujeitos de direitos, com voz, desejos, sentimentos, curiosidades e maneiras próprias de compreender o mundo.

    A infância é vida acontecendo no agora

    A infância não é uma etapa que precisa ser vencida rapidamente para que a criança se torne, o quanto antes, produtiva, competitiva e preparada para o futuro. A infância é vida acontecendo no agora. É um tempo de descobertas, vínculos, experiências, encantamento e construção da identidade.

    Quando apressamos esse tempo, corremos o risco de comprometer justamente aquilo que deveria ser nossa prioridade: o desenvolvimento integral de cada criança.

    Direitos no papel, distância na vida real

    A Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) reconhecem direitos fundamentais como educação, saúde, dignidade, respeito, liberdade, cultura, lazer e convivência familiar e comunitária. O ECA também assegura expressamente o direito de brincar. Não são concessões feitas pelos adultos quando sobra tempo ou dinheiro, mas direitos que precisam ser efetivados com prioridade.

    Entretanto, entre o que está garantido na legislação e o que muitas crianças vivenciam diariamente, ainda existe uma distância que me inquieta. Há crianças sem acesso adequado à alimentação, à saúde, à educação de qualidade, à cultura e a espaços seguros para brincar. Há crianças expostas à violência, ao racismo, à discriminação e a diferentes formas de negligência. Há aquelas que precisam amadurecer antes do tempo, assumindo responsabilidades que não deveriam fazer parte de sua infância. E há também crianças que, mesmo cercadas de recursos materiais, vivem com agendas excessivas, cobranças precoces e pouco tempo para brincar livremente, imaginar, descansar e simplesmente ser criança.

    Precisamos compreender que garantir direitos não significa apenas proteger a criança de situações extremas, mas criar condições para que ela viva plenamente sua infância.

    Brincar não é perder tempo

    Brincar não é perder tempo. É uma das maneiras mais importantes de a criança conhecer a si mesma, compreender o outro e experimentar o mundo. Quando brinca, a criança cria narrativas, negocia regras, enfrenta desafios, elabora sentimentos, constrói hipóteses e aprende a conviver com as diferenças. Quando inventa uma história, transforma objetos em possibilidades e dá forma à imaginação. Quando corre, observa a natureza, constrói com outras crianças ou faz perguntas aparentemente simples, produz conhecimentos e atribui sentidos às próprias experiências.

    Folhas preenchidas não são aprendizagem

    Por isso, preocupa-me uma educação que transforma a infância em uma corrida por resultados, antecipa exigências e valoriza mais o produto final do que o processo vivido pela criança. Folhas preenchidas, atividades padronizadas e tarefas concluídas podem até produzir uma aparência de organização, mas não garantem, por si só, experiências significativas de aprendizagem.

    A escola precisa ser um espaço de encontro, investigação, brincadeira, criação e convivência. Um lugar em que a curiosidade seja acolhida, as perguntas tenham valor e os erros sejam compreendidos como parte do aprender. Isso exige intencionalidade pedagógica, planejamento e professores preparados para mediar experiências, sem transformar a criança em mera executora de comandos.

    É nesse contexto que defendo uma educação humanizadora, ativa, criativa, reflexiva e transformadora. Uma educação que considere a criança por inteiro: corpo, emoção, pensamento, imaginação e relações sociais. Aprender não é apenas acumular informações. É estabelecer conexões, construir sentidos e descobrir possibilidades de participação no mundo.

    Escutar também é educar

    Também precisamos falar sobre escuta. Respeitar a infância significa levar a sério aquilo que as crianças expressam, inclusive quando suas opiniões não coincidem com as nossas. Significa reconhecer seus sentimentos, acolher suas dúvidas, estabelecer limites sem humilhação e compreender que educar não é exercer poder sobre alguém, mas assumir a responsabilidade de acompanhar seu desenvolvimento com respeito e cuidado.

    Essa responsabilidade não pertence exclusivamente às famílias ou às escolas. É também do poder público, da sociedade e de todos nós. Precisamos de políticas que garantam acesso à educação, à saúde, à cultura, ao lazer, à proteção e a espaços públicos seguros. Precisamos combater as desigualdades que fazem com que o direito de brincar, estudar e viver com dignidade dependa do lugar onde a criança nasceu ou das condições econômicas de sua família.

    Mais do que celebração, compromisso

    Celebrar o Dia das Crianças, portanto, deveria nos mobilizar para além das homenagens e dos presentes. Deveria nos levar a rever nossas práticas, nossas prioridades e a maneira como organizamos os espaços onde as crianças vivem, aprendem e convivem.

    Que presente oferecemos quando não temos tempo para escutar? Que futuro construímos quando ignoramos as necessidades do presente? Que sociedade desejamos formar se não somos capazes de respeitar aqueles que estão começando a descobrir o mundo?

    Não precisamos de uma infância acelerada, mas de uma infância respeitada. Não precisamos transformar todas as crianças em pequenos adultos, mas garantir que possam crescer com proteção, liberdade, vínculos, oportunidades e experiências que façam sentido. Educar é compreender que, antes de formar alunos, precisamos preservar crianças.

    Neste 12 de outubro, desejo que cada criança receba carinho, alegria e oportunidades. Mas desejo, sobretudo, que seus direitos sejam respeitados nos outros 364 dias do ano. Porque nenhuma criança deveria precisar esperar por uma data comemorativa para ter direito a brincar, aprender, ser ouvida, sentir-se protegida e viver com dignidade.

    A infância merece mais do que uma celebração. Merece compromisso, políticas públicas e uma sociedade que não apenas diga que ama suas crianças, mas demonstre esse amor nas escolhas que faz todos os dias.

    Pela paixão de educar e pelo desafio de inovar, sigamos defendendo o direito de cada criança a viver a infância que merece.

    Paty Fonte - Consultora Educacional, Filósofa, Palestrante e Conferencista. Especialista em Pedagogia de Projetos, Pedagogia das Infâncias e Pedagogia do Brincar. Pós-graduada também em Coordenação Pedagógica, Supervisão Escolar, Alfabetização e Letramento. Pesquisa e atua na área de competências socioemocionais e inovação na educação há mais de 25 anos. Escritora com vários livros publicados, dentre eles: ‘Pedagogia de Projetos: ano letivo sem mesmice’ e ‘Competências Socioemocionais na Escola', ambos publicados pela WAK Editora.

    Contatos: IG: @professorapatyfonte 

     

     




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