90 Anos da Rádio Nacional: preservar a memória é manter o Brasil em sintonia
Por Cesar Miranda Ribeiro
Falar dos 90 anos da Rádio Nacional é falar de uma das instituições mais importantes da história da comunicação e da cultura brasileira. Mas, neste aniversário, quero propor um olhar diferente.
Não quero falar apenas dos grandes artistas, radialistas, jornalistas, músicos, atores e profissionais que passaram pelos microfones da Rádio Nacional ao longo de nove décadas. Quero falar daquilo que permaneceu.
Quero falar da memória.
E, principalmente, da responsabilidade que o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro assumiu, desde 1972, de preservar parte fundamental dessa história.
A Rádio Nacional nasceu em 1936 e rapidamente se transformou em uma das principais vozes do Brasil. Ao longo de sua trajetória, seus estúdios e auditórios receberam nomes que ajudaram a construir a identidade cultural do país. A emissora foi palco de música, dramaturgia, humor, jornalismo, esporte e entretenimento, tornando-se uma referência para milhões de brasileiros.
Mas a história de uma instituição não existe apenas enquanto ela está no ar.
Ela também está nos documentos que sobreviveram ao tempo.
Está em um disco, em uma fotografia, em uma partitura, em um roteiro manuscrito, em uma ficha, em um programa de auditório, em uma gravação, em um objeto e, sobretudo, na voz daqueles que viveram aquela história.
É justamente nesse território que o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro exerce uma de suas mais importantes missões.
Desde 1972, a F.MIS preserva uma importante coleção relacionada à Rádio Nacional. São milhares de documentos que ajudam a reconstruir não apenas a trajetória da emissora, mas também uma parte essencial da história cultural brasileira.
Nos diferentes setores de nosso acervo, preservamos materiais audiovisuais, sonoros, partituras, documentos e objetos que registram a passagem de artistas e profissionais fundamentais pela Rádio Nacional.
Entre esses registros estão roteiros, discos e partituras relacionados a nomes como Almirante, Renato Murce, Paulo Tapajós, Fernando Lobo e Max Nunes, além de partituras de maestros e compositores fundamentais para a música brasileira, como Radamés Gnattali, Guerra Peixe, Lírio Panicali, Léo Peracchi e Moacyr Santos.
Também preservamos registros relacionados a programas que marcaram gerações, entre eles o histórico Repórter Esso, que durante décadas levou informação aos lares brasileiros e se tornou parte da memória coletiva do país.
Isso significa que o que preservamos não é apenas a história de uma emissora.
Preservamos uma parte da história do Brasil.
Preservamos os sons de uma época, as formas de fazer rádio, os textos que eram escritos para serem interpretados, as músicas que chegavam aos lares brasileiros, os artistas que se tornaram ídolos nacionais e os profissionais que ajudaram a construir uma linguagem própria para a radiodifusão brasileira.
Preservamos, sobretudo, os vestígios de uma sociedade que encontrou no rádio uma das suas principais formas de informação, entretenimento e formação cultural.
O acervo da Rádio Nacional também se conecta a outras coleções preservadas pelo MIS. Ao longo de sua existência, a Fundação reuniu documentos relacionados a artistas e personagens fundamentais da cultura brasileira, muitos deles diretamente ligados à própria história da Nacional.
Essa característica faz do nosso acervo algo maior do que uma reunião de documentos isolados.
É uma grande rede de memórias.
A história da Rádio Nacional pode ser reencontrada nas coleções de músicos, cantores, compositores, radialistas e pesquisadores que também fazem parte do patrimônio documental preservado pelo Museu.
Mas existe ainda uma dimensão que considero fundamental: os depoimentos.
Um documento registra um acontecimento.
Uma fotografia registra um instante.
Uma partitura registra uma obra.
Mas um depoimento registra a experiência humana.
É a pessoa contando, com sua própria voz, aquilo que viveu.
Por isso, os mais de 90 depoimentos de profissionais e artistas ligados à Rádio Nacional preservados pela F.MIS possuem um valor extraordinário. Eles permitem que pesquisadores e novas gerações não apenas saibam quem foram aqueles personagens, mas possam ouvir suas próprias vozes, suas lembranças, suas histórias e suas interpretações sobre o tempo em que viveram.
Atualmente, a Fundação Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro preserva mais de 86 mil itens em seus diferentes setores e suportes. Esse número representa muito mais do que uma dimensão quantitativa.
Cada item é uma possibilidade de pesquisa.
Cada fotografia pode revelar um contexto.
Cada disco pode recuperar uma voz.
Cada roteiro pode reconstruir um programa.
Cada partitura pode revelar como uma música foi concebida.
Cada depoimento pode devolver humanidade a um personagem histórico.
Essa é uma das grandes riquezas do Museu da Imagem e do Som: transformar memória em patrimônio e patrimônio em conhecimento.
Por isso, preservar não significa simplesmente guardar.
Preservar significa identificar, organizar, catalogar, conservar, restaurar, digitalizar, pesquisar e, principalmente, permitir que esse patrimônio volte a dialogar com a sociedade.
É nesse ponto que a preservação encontra a difusão cultural.
Um exemplo muito significativo aconteceu justamente neste ano em que a Rádio Nacional completa 90 anos.
A F.MIS teve a oportunidade de exibir, na Sala Glauber Rocha, em primeira mão, o documentário PRK-30 – O Rádio Pelo Avesso, dirigido por Eduardo Albergaria e produzido pela Urca Filmes.
A sessão especial aconteceu antes da estreia comercial do filme e foi seguida de um debate sobre o rádio brasileiro, sua história e a importância do PRK-30 para a cultura nacional, reunindo o diretor, o produtor e representantes da F.MIS.
A escolha do filme não foi casual.
O PRK-30 é parte da memória da própria Rádio Nacional e representa um dos momentos mais importantes da chamada Era de Ouro do rádio brasileiro.
Ao receber essa sessão na Sala Glauber Rocha, a F.MIS reafirmou uma ideia que considero fundamental: preservar memória não significa apenas guardar documentos em um acervo.
Significa também criar oportunidades para que essa memória seja conhecida, discutida e redescoberta pelas novas gerações.
É nesse movimento entre preservação e acesso que o trabalho de uma instituição como a F.MIS encontra seu verdadeiro sentido.
Guardamos o passado, mas não para deixá-lo parado.
Guardamos para que ele possa voltar a falar.
Quando olhamos para os 90 anos da Rádio Nacional, portanto, não precisamos olhar somente para o passado.
Precisamos olhar para o futuro.
Porque preservar é garantir que as próximas gerações tenham acesso às fontes que lhes permitirão compreender o Brasil de hoje e o Brasil que fomos.
A Rádio Nacional atravessou nove décadas. O mundo mudou, as tecnologias mudaram, os meios de comunicação mudaram e os hábitos do público mudaram.
Mas a necessidade de preservar aquilo que construímos como sociedade permanece.
Hoje, a própria Rádio Nacional desenvolve iniciativas para revisitar sua história, recuperar registros e aproximar novas gerações desse patrimônio.
É uma demonstração clara de que preservar não é um ato voltado exclusivamente ao passado.
A preservação alimenta o presente.
E ajuda a construir o futuro.
Ao completar 90 anos, a Rádio Nacional celebra sua trajetória.
Nós, da Fundação Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, celebramos também a responsabilidade de termos sido, durante mais de cinco décadas, uma das instituições responsáveis por manter viva parte dessa trajetória.
Desde 1972, quando a Coleção Rádio Nacional chegou ao MIS, o Museu passou a ser também uma casa dessa memória.
Uma casa onde estão guardadas vozes.
Onde estão guardadas músicas.
Onde estão guardados roteiros.
Onde estão guardadas imagens.
Onde estão guardadas histórias.
E onde estão guardadas as marcas de uma época em que o rádio ajudou a construir uma ideia de Brasil.
Por isso, neste aniversário de 90 anos, nossa homenagem à Rádio Nacional não é apenas lembrar aqueles que fizeram sua história.
É garantir que suas histórias continuem existindo.
Porque o tempo passa.
As vozes podem silenciar.
Os programas podem sair do ar.
As tecnologias podem mudar.
Mas, quando a memória é preservada, aquilo que foi vivido não desaparece.
Permanece disponível para ser ouvido, estudado, pesquisado e redescoberto.
Esse é o compromisso da Fundação Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.
Preservar para que o Brasil possa continuar ouvindo a si mesmo.
Cesar Miranda Ribeiro
Jornalista, Radialista e Presidente da Fundação Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro desde 2021




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