JJ
COPACABANA TOMADA POR UMA MULTIDÃO
MULTIDÕES NAS RUAS NÃO SÃO, NECESSARIAMENTE, MAIORIA NAS URNAS
MULTIDÕES NAS RUAS NÃO SÃO, NECESSARIAMENTE, MAIORIA NAS URNAS
Por JJ
Ao ver essa extraordinária imagem de Copacabana tomada por uma multidão, com tanta gente manifestando apoio à campanha de Lula, lembrei de uma importante lição da história. No Rio de Janeiro, Lula perdeu por oito pontos de diferença no primeiro turno, e o candidato apoiado por seu adversário elegeu-se governador ainda no primeiro turno. Como explicar essa aparente contradição?
Voltei no tempo, a outubro de 1989, primeiro turno da campanha presidencial de Lula. Em São Paulo, uma passeata fenomenal saiu da Praça da Sé em direção à Avenida Paulista. Quando a cabeça da manifestação chegou ao Teatro Gazeta, o final ainda ocupava a Praça da Sé. Uma multidão impressionante!
Mas vieram as urnas. Lula terminou em quarto lugar em São Paulo, atrás de Collor, Maluf e Covas, e à frente de Afif Domingos e Ulysses Guimarães. Collor, que não havia realizado uma grande manifestação de massas na capital paulista, terminou na frente. A dimensão da passeata não se traduziu em maioria eleitoral.
O que isso nos ensina? Que o Brasil é imenso, tem milhões de eleitores e que, por maior que seja uma manifestação, os que se dispõem a ir às ruas representam apenas uma parcela do eleitorado. Uma parcela que pode ser muito expressiva, politicamente importante e capaz de influenciar o debate, mas que não deve ser confundida com a maioria silenciosa que decide seu voto longe dos palanques.
Isso não significa, evidentemente, que os atos de massa sejam dispensáveis. Pelo contrário: são importantes e podem ser decisivos. Animam a militância, demonstram força, ocupam o espaço público e ajudam a romper o isolamento imposto pela mídia e pelos adversários. Mas existe uma condição fundamental: a multidão precisa voltar para casa disposta a multiplicar a mobilização.
Cada participante deve compreender que o ato não termina quando o carro de som é desligado. Ele continua no trabalho, na sala de aula, na família, na conversa com os amigos e, principalmente, na disposição de procurar os indecisos, ouvir suas dúvidas, enfrentar os argumentos dos adversários e conquistar votos. É assim que uma grande manifestação pode ultrapassar seus próprios limites e produzir resultados eleitorais concretos.
Para isso, os atos não podem se resumir a palcos nos quais parlamentares eleitos falam de si, exaltam seus feitos e recebem aplausos. Mobilização não é espetáculo para alimentar vaidades pessoais. É instrumento de organização, conscientização e convencimento político.
Infelizmente, foi o que faltou, em grande medida, no ato do Largo da Batata, em São Paulo. Com honrosas exceções, muitos oradores e oradoras pareciam mais preocupados em gritar ao microfone, falar de si mesmos ou promover seus grupos do que em orientar a militância. Faltaram orientação, preparação, qualificação dos discursos e, sobretudo, uma estratégia clara de como transformar aquela energia em votos.
A eleição está difícil. E ficará ainda mais difícil se deixarmos seu destino nas mãos de parlamentares que, depois de vitoriosos nas urnas, confundem o mandato com protagonismo pessoal e a política com a celebração de suas próprias imagens.
Precisamos de menos vaidade e mais política; menos discursos para os já convencidos e mais diálogo com quem ainda podemos convencer; menos preocupação com aplausos e mais compromisso com votos.
As multidões nas ruas são necessárias. Mas a vitória será construída também longe delas: de porta em porta, de conversa em conversa, de argumento em argumento. O desafio não é apenas reunir milhares de pessoas numa manifestação. É fazer com que cada uma delas ajude a conquistar outras pessoas para o nosso lado.
A manifestação precisa ser o começo da mobilização, não o seu ponto final. Porque quem quer vencer uma eleição não pode se contentar em contar a multidão na avenida. Precisa conquistar a maioria nas urnas.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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