Carmem Teresa Elias
Cultura - A luz da vida
LIterartura, arte e cultura, alimento da educação
Carmem Teresa Elias é Doutora em Letras, docente aposentada, palestrante e pesquisadora em Literatura Comparada, Análise de Gêneros Textuais, escrita do ofuscamento feminino e desvios da Inteligência Artificial na produção textual.
Autora de 16 livros publicados, entre eles O Julgamento das Mães, maternidade e terror ( romance, 245 pag), Inteligente Artificial Generativa: A Nova Colônia ( ensaio); Até onde o Tocantins me tocar ( crônicas).
Curadora e organizadora de eventos culturais e exposições de arte. Artista plástica ( Pintura em AST e aquarela) com 5 exposições individuais.
Autora de diversos artigos acadêmicos e de apostilas de material didático para o Ensino Médio e Universitário.
Colunista de revistas e jornais on-line. Escritora com premiações oficiais por instituição públicas — Feira do Livro de Genebra, Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro, Prefeitura de Petrópolis, entre outras
1. Em seu ensaio sobre a IA Generativa, você utiliza o termo "Nova Colônia". De que maneira a dependência de modelos de linguagem estrangeiros e automatizados pode representar um novo tipo de imperialismo cultural e linguístico para o Brasil?
Em primeiro lugar, a IA foi projetada por humanos, ou seja, formatava conforme o pensamento de seus produtores. Sabemos que não existe neutralidade. Todo ser humano é regido por suas crenças, cultura, valores. Assim que a IA surgiu, realizei uma pesquisa: pedi a 15 pessoas diferentes em locais diferentes que pedissem para a IA redigir um texto a partir do mesmo prompt. Ao receber os 15 textos analisei e encontrei os mesmos estereótipos e preconceitos, mesmo que expostos de forma sutil. Por exemplo, todos os textos se referiram ao Ceará como um local apenas de pessoas pobres e sem perspectivas de condições de vida. Todos os textos também estimulavam o empreendedorismo como caminho do sucesso, da riqueza e da fama. O velho mito do sonho americano estava nítido em todos os 15 textos.
Ou seja, o material gerado por IA claramente carrega viés ideológico e mais, visa incutir as mesmas ideias em quem recebe e lê esses textos.
O processo é bem semelhante ao que na Linguística se estuda como Linguística Estrutural, que por sua vez gerou um método de aquisição de linguagem baseado no processo de condicionamento de ratos em laboratório ( estímulo - resposta) . Em suma, estamos sendo sujeitos a um processo de condicionamento linguístico, que molda nosso modo de pensar e agir. Não é à toa que as massas são movidas aos bandos sem qualquer raciocínio lógico diante de fakenews em disputas eleitorais. São massas escravizadas pelas telas, redes e fakenews por IA.
Além de tudo isso, os modelos linguísticos são padrões compatíveis com a língua inglesa, com seu padrão de vocabulário, estrutura sintática, extensão das frases, uso de sinalizações do discurso. Enfim, perdem-se as riquezas de cada idioma. Aos poucos toda a linguagem vai se tornando igual.
2. Como pesquisadora dos "desvios" da IA na produção textual, quais são os riscos mais urgentes que você identifica para a autenticidade da voz autoral e para a preservação dos estilos literários humanos?
O maior risco , e diria que já está implantado, é o condicionamento. A linguagem estrutura o pensamento e se a linguagem obedece a um padrão, o pensamento também ficará moldado ao mesmo padrão. É assim que ao se chamar qualquer idiota de mito repetidas vezes, as massas acreditam estar diante de um mito mesmo. O pensamento abstrato, criativo e crítico desaparecem dentro dos padrões repetidos a que são submetidos.
3. Sua pesquisa aborda a "escrita do ofuscamento feminino". Como esse conceito se manifesta na literatura contemporânea e quais mecanismos as escritoras atuais estão usando para romper essa barreira histórica
Outra grande problema é o roubo de toda produção intelectual humana para que se copie e cole os conteúdos para a produção dos textos por IA, anulando o direito autoral e o crédito do autor. Antes, citávamos Platão, por exemplo, e deixávamos explícito que tal fala era dele . O autor era referência. A IA não respeita o autor; mistura falas e não importa de quem era a autoria original.
Livros, artigos, teses estão todos roubados e usurpados dos diretores de autoria, como se a produção intelectual humana não tivesse mais valor ou importância alguma.
No contexto artístico então! A IA copia o estilo de autores clássicos, copia formatos, copia ideias, copia tudo, exceto o nome do autor legítimo.
Tenho pensado muito a respeito de como preservar a voz autoral. Um caminho é quebrar padrões, romper paradigmas inclusive teóricos, usar muita metáfora porque a máquina não interpreta a nível simbólico, ainda, o que ela copia e cola. Porém para isso, bons leitores também são necessários: leitores capazes de entender nas entrelinhas, de decodificar subtextos, de decifrar metáforas e de mesclar ideias abstratas. Onde estão esses leitores, principalmente em países que não investem em Educação?
O movimento pela emancipação feminina é bem complexo. Sair às ruas ou escrever gritando por igualdade de gênero não basta sem uma ampla compressão, tanto da parte dos homens quanto das próprias mulheres, de como o processo patriarcal se instalou e se perpetuou. O problema é estrutural e perdura por 6 mil anos!! O entendimento histórico a meu ver é essencial para que uma nova estrutura de pensamento possa de fato ser amadurecida. Além de fatores socias, há muitos fatores religiosos envolvendo dogmas que urgem serem revistos. Claro, isso requer uma mudança muito profunda em comportamentos e crenças que já integram o inconsciente coletivo. Justamente por esse motivo, um profundo estudo dos mecanismos usados há milênios é urgente para que avanços possam ser obtidos sem o risco do aumento de feminicídios e estupros, por exemplo, como tem ocorrido no país. ( Ainda em 2026 e em primeira mão para você, Marcelo) vou lançar um livro em que eu abordo o ofuscamento feminino na literatura desde os sumérios( 3000 a.C) até o presente.
4. No romance O Julgamento das Mães, você une maternidade e terror. Qual é o limite entre o sagrado da figura materna e as sombras psicológicas que a sociedade muitas vezes prefere não discutir?
O Julgamento das Mães, Maternidadr e Terror é um romance, 245 páginas, que narra e compara as histórias de sobrevivência de duas duplas de mãe e filha : uma dupla no a comunidade do Rio de Janeiro e a outra num país de fundamentalismo radical sob domínio terrorista. Não é um livro sobre mamães e bebês. Trata-se de uma obra pesada, tensa, profunda, que expõe as muitas formas de violência doméstica, social, religiosa, cultural que milhares passam ao redor do mundo. Traição, agressão, medo, estupro, suicídio, assasinato. Os relatos abrangem os sacrifícios que uma mãe pode ter de passar por suas filhas (e vice-versa) para até por meio da dor buscar uma salvação.
A obra começou a me ocorrer nos anos 1996-97 quando estive na África e presenciei mulheres de burca, mutiladas, escravizadas, situações que estão ocorrendo agora ainda! Situações que as mulheres e meninas do Brasil também ainda estão vivenciando.
A violência e a violação do corpo feminino ocorre no mundo todo e se queremos nos defender aqui é necessário defender a sociedade como um todo dos horrores que são pregados seja em comunidades, seja em territórios de terroristas. Todas as situações narradas no livro são oriundas de histórias reais. Nada ali é fantasia. Ao contrário, é dor e sofrimento. A leitura é árdua porque a verdade incomoda e requer do leitor que saia da zona de conforto e enfrente o que lhe incomoda. Levei 30 anos para escrever e publicar esse livro porque eu mesma tive de assimilar que denunciando pela escrita eu poderia fazer algo, o mínimo que fosse, para conscientizar que há situações inadomissiveis de vida que não podemos deixar que continuem acontecendo sem nos manifestarmos.
5. Em Até onde o Tocantins me tocar, você sai do rigor acadêmico para a crônica. Como a geografia física do Brasil influencia a geografia emocional da sua escrita?
Boa pergunta.
Sou um ser de natureza. Sem ela nunca teríamos existido. Sou totalmente integrada à Natureza. Assim que a pandemia passou quis logo viajar para um local de natureza primitiva e Tocantins, mais especificamente Jalapão, foi minha escolha. Não é uma viagem fácil : são 8 a 9 horas de estrada de barro por dia, todo o tempo com terreno acidentado e sem nenhuma infraestrutura: sem banheiros, sem postos, sem restaurantes. Só chão. E por fim locais de uma beleza original, intocada, puríssima ( ao menos era na época antes de virar point turístico). Havia um choque: uma vasta extensão árida de estradas e locais pequenos de beleza ímpar, que valiam por todo sacrifico. Algo entre uma via-Crucis e paraísos.
Sou também uma cidadã do mundo. Meu pensamento não possui fronteiras. Então o livro oscila entre descrições paradisíacas, e momentos de mente vazia dentro do Jeep em que a mente seguia um fluxo de consciência ao acaso. Dentro do carro eu escrevia o que viesse à mente, pertencendo ou não ao local. Nas pousadas eu descrevia a emoção dos locais maravilhosos. Vivi um estado de êxtase com a natureza, uma declaração de amor à vida e à humanidade naquela viagem. Uma epifania talvez entre o amor, a não morte pandêmica, o coração selvagem de um Brasil quilombola, uma bagagem de leituras que voltavam à mente. Um pouco de tudo, diria, num relato que virou uma peregrinação pelo sagrado das emoções, palavras e territórios. Como disse, uma Via Crucis e redenção!
6. Como a prática da pintura em AST e aquarela dialoga com o seu processo de escrita? Existe um momento em que a imagem substitui a palavra, ou elas são extensões uma da outra?
Embora poucas pessoas, incluindo escritores e artistas plásticos, percebam, a verdade é que Imagem e texto são indissociáveis. Primeiro, ambos são linguagens. Segundo, o texto escrito existe porque a escrita é uma representação de imagem. Vou te dar um exemplo. Em algumas palestras sobre a relação texto-imagem eu começo mostrando por exemplo uma imagem de uma coruja e pergunto o que é. Até hoje, todos, invariavelmente, responde “coruja”. Eu sigo mostrando outros “animais” até que mostro eles todos juntos formando uma palavra. Por quê? Por que aqueles animais na forma que apresentei eram simplesmente letras do alfabeto em hieróglifos egípcios. A coruja, no caso, nada mais era do que o som da letra “m”.
A partir daí sigo a tecer como a arte é parte integrante da literatura e como a literatura muitas vezes se expressa pela arte visual.
Em suma, diria que a mente processa ideias, conceitos, que podem estar contidos simultaneamente em palavras ou expressões visuais. Literatura, afinal, é a arte da escrita, ou uma escrita em forma de arte.
Já realizei vários trabalhos em que interligo imagem e texto. Já realizei 5 exposições com esse conceito integrativo entre minhas telas e poemas. Tenho até 2 livros (“ Ancestralidrs” e “Âmago”) com imagens das minhas telas e poemas relacionados ao lado. Por vezes o texto leva à pintura, ou vice-versa. Por vezes, pode ser que não se juntem jamais. Mas com certeza existem não apenas extensões, mas infiltração, inserção mesmo de uma arte na outra. Em minhas pesquisas, associo muitos quadros famosos a textos de autores famosos. Um bom exemplo ocorre nas obras de romancista português Eça de Queiroz e pintores impressionistas, entre muitos outros casos.
7. Ao organizar exposições e eventos culturais, como você aplica sua experiência em Análise de Gêneros Textuais para construir a narrativa visual de uma mostra de arte?
A análise de gêneros textuais consiste do estudo dos padrões linguísticos conforme o tipo de texto, público alvo, objetivo do texto. Por exemplo, como uma propaganda é estruturada para conceber um receptor a comprar um produto. Minha pesquisa acadêmica no mestrado foi sobre a forma como os anúncios de instituições de caridade eram padronizados para despertar sentimentos de pena, comoção até os leitores serem levados a doar dinheiro como forma de aliviar a “culpa” por uma situação humana degradante descrita no anúncio. Entram em questão técnicas linguísticas de persuasão, coerção e força.
Uma exposição também precisa ter coerência e coesão entre as obras, diálogo entre os artistas participantes e oferecer algo que disperte o interesse do visitante. Uma narrativa artística pode seguir padrão temporal, ou de cores, ou de emoções. Ou pode até mesmo quebrar padrões e apresentar uma distribuição assimétrica. Depende dos objetivos, do público alvo.
A análise de gêneros textuais busca encontrar padrões, defini-los, ordenar. A arte tem a liberdade de justamente quebrar padrões!
Ouso dizer que em tempos de IA, autores agora precisam descobrir caminhos para quebrar padrões de escrita!
8. Como docente aposentada e autora de material didático, como você vê o futuro do ensino de literatura em um mundo onde a leitura profunda disputa espaço com o consumo rápido de conteúdos digitais?
Vejo de modo muito negativo no atual contexto, tanto pela baixíssima alfabetização e escolaridade brasileira ( entre as piores do mundo em testes comparativos internacionais), como pelo avanço indiscriminado do uso de ferramentas digitais como a IA que retira do sujeito toda a sua possibilidade de crescimento linguístico. Entregar textos prontas e respostas prontas por robôs e plataformas é, no mínimo, o meio mais rápido de atrofia mental e intelectual. Aprendizado é tentativa e erro, esforço, repetição, revisão. Aprender é esforço intelectual. Na mente humana, o pensamento é estruturado pela linguagem. Quando a linguagem não se desenvolve o que sobra é atrofia intelectual. Não é por acaso que as gerações mais novas têm obtido resultados intelectuais inferiores às anteriores e a superficialidade e a mediocridade tomam conta da vida.
9. Suas premiações em instituições como a Feira do Livro de Genebra reforçam a relevância da literatura brasileira no exterior. Qual o papel do intelectual brasileiro no debate global atual?
Em termos genéricos, o mundo atual carece de intelectuais, pensadores, filósofos, escritores que ofereçam profundidade, seriedade e responsabilidade com o presente e o futuro. Existe inclusive uma moda que tem levado muitas pessoas a se auto-denominarem escritores, sem jamais terem sido leitores, inclusive. Existe uma farsa, uma festa, uma ação mercadológica que toca o mundo do livro adiante vendendo qualquer pelo lucro para as grandes editoras, as internacionais, principalmente. Existe uma repetição exaustiva de temas rasos, de histórias semelhantes, de material que em nada acrescenta ao pensamento.
O Brasil ainda luta e tem muito caminho pela frente para ser visto com destaque no cenário mundial. A própria língua é um obstáculo para além dos países lusófonos.
Mesmo assim, já temos nomes traduzidos para outras línguas, com boa aceitação. Machado de Assis tem sido reverenciado pelo mundo. Estamos dando bons passos.
O amadurecimento, espero, virá. Mas primeiro vamos ler, por favor, muito!
10. Com uma carreira tão diversa, qual é o tema ou a linguagem artística que você ainda sente necessidade de desbravar?
Sou curiosa. Muitos caminhos não temos tempo de trilhar frente à necessidade de ganha pão. Ainda jovem comecei ballet. Com a faculdade parei. Após me aposentar atuei em teatro. Participei de 5 peças, uma experiência que deveria fazer parte do currículo das escolas. Meu sonho de adolescente era ter seguido astrofísica. Parou na falta de mercado profissional no Brasil da época. Atualmente analiso obras literárias com viés psicanalítico, mesmo não sendo da área. Gosto de misturar, experimentar, pesquisar. No momento alguns dizem que eu virei uma contestadora. Será?




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