JJ
Tareco & Mariola
A história e o destino ...
Tareco & Mariola
Por JJ
Há histórias que parecem ter sido escritas pela própria vida para contrariar aqueles que acreditam que o destino dos homens está determinado pelo lugar onde nasceram. Luiz Inácio Lula da Silva nasceu em Garanhuns, no agreste pernambucano, e ainda criança conheceu a dureza da migração nordestina. Chegou a São Paulo adolescente, trabalhou desde cedo, tornou-se metalúrgico, dirigente sindical, fundador de um partido e, depois de uma longa caminhada política, chegou três vezes à Presidência da República. Agora, aos 80 anos, disputa novamente o cargo. Gosto de imaginar aquele menino nordestino nos dias de escassez, tendo no Tareco, na água e na Mariola uma imagem possível das pequenas alegrias de quem aprendeu cedo que a vida não oferece facilidades. Há algo de profundamente brasileiro nessa trajetória: sair de quase nada e chegar ao centro da história nacional.
Eu não escondo a minha posição. Meu voto é em Lula. Não o faço por desconhecer suas contradições, nem por acreditar que sua trajetória esteja acima de críticas. Faço essa escolha porque, olhando para o Brasil de hoje, entendo que sua presença nesta eleição representa, para mim, uma determinada concepção de país. Lula já representou a esperança de milhões de brasileiros e já nos fez acreditar que era possível perder o medo de ser feliz. Hoje, aos meus olhos, sua candidatura está associada à defesa da democracia, da soberania nacional, das políticas sociais, do SUS, do desenvolvimento e da ampliação de direitos trabalhistas. Entre os temas que estão no debate público estão também a restrição das apostas eletrônicas e a discussão sobre a jornada 6x1. São questões diferentes entre si, mas que ajudam a revelar o tipo de sociedade que está sendo disputado nas urnas.
E existe uma questão que, para mim, não pode ser colocada em segundo plano: o Brasil não é quintal de ninguém. Donald Trump e seu governo entraram de maneira extraordinariamente explícita no debate político brasileiro. Há registros jornalísticos de exigências feitas pelo governo norte-americano durante negociações comerciais que envolviam a participação de chamados dissidentes políticos nas eleições brasileiras, além de medidas econômicas e diplomáticas que Lula e seus aliados interpretaram como formas de pressão sobre o Brasil. A campanha de Lula chegou a recorrer ao STF e ao TSE, alegando interferência estrangeira, enquanto o governo dos Estados Unidos negou acusações anteriores de interferência eleitoral. Para mim, a resistência de Lula a essa pressão é um elemento central desta eleição. É também por isso que considero que, entre os candidatos apresentados, Lula é, de longe, aquele que mais claramente se coloca contra a tentativa de subordinação dos interesses brasileiros aos interesses políticos de Washington.
É nesse ponto que a eleição deixa de ser apenas uma disputa entre candidatos e passa a envolver uma questão maior: que lugar o Brasil pretende ocupar no mundo. Lula afirmou recentemente, inclusive em discurso na Organização das Nações Unidas, que o Brasil não cabe no quintal de ninguém. A Reuters registrou que a relação com o governo Trump e as acusações de possível interferência estrangeira se tornaram elementos importantes da reta final da campanha. Eu considero isso particularmente importante porque soberania não significa hostilidade contra outros países. Significa poder conversar com todos, negociar com todos e manter relações comerciais e diplomáticas com todos, sem aceitar que qualquer potência estrangeira determine o destino político brasileiro. É nessa ideia de soberania que encontro uma das razões fundamentais da minha escolha.
O desafio agora é o voto. O primeiro turno é domingo, 4 de outubro de 2026. No que depender de mim, não teremos segundo turno.
Os indecisos, os que ainda não escolheram candidato e aqueles que decidirão o voto nos últimos momentos devem ser os alvos principais da campanha, acredito.
Esses eleitores terão enorme importância em uma disputa apertada.
Também considero inevitável o enfrentamento de uma narrativa construída durante anos em torno de Lula, especialmente por setores da imprensa que continuam associando seu nome às denúncias de corrupção. Essas acusações e seus desdobramentos jurídicos, infelizmente, fazem parte da história política brasileira e precisam ser desmascarados com fatos, documentos e decisões judiciais. Nada foi comprovado.
A minha escolha, portanto, está feita e não depende de esconder as contradições do personagem histórico que estou escolhendo apoiar.
Ao fim e ao cabo, é por isso que escrevo. Eu voto em Lula porque acredito que o Brasil ainda precisa de uma liderança capaz de defender sua soberania, suas instituições democráticas e a possibilidade de construir um futuro menos desigual. Posso estar certo ou errado, como qualquer cidadão que deposita seu voto em uma urna. Não tenho vergonha da minha escolha e não preciso de subterfúgios para explicá-la. Lula veio de Garanhuns, atravessou a pobreza, chegou a São Paulo, enfrentou a vida de trabalhador, organizou trabalhadores, fundou um partido e chegou à Presidência da República. Para quem, na infância, podia ter no Tareco, na água e na Mariola uma refeição simples e uma pequena alegria, chegar tão longe já é uma história extraordinária. Se a política é também a possibilidade de transformar a vida de quem nasceu sem privilégios, então esta história ainda não terminou. E é por isso que eu luto.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira
Obs.: O Tareco é um biscoito simples, tradicional de Pernambuco e de outras regiões do Nordeste, geralmente feito à base de farinha de trigo, açúcar, ovos e outros ingredientes básicos. A Mariola é um doce tradicional brasileiro, especialmente associado ao Nordeste, feito geralmente de banana e açúcar, com consistência firme, semelhante a uma bananada. Tareco e Mariola fazem parte da memória afetiva e alimentar de muitas famílias nordestinas, remetendo a uma alimentação simples e às pequenas alegrias da infância.




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