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Barra Mansa,02/09/2026

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    Moisés Laureano de Santana

    O VOTO NÃO É CHEQUE EM BRANCO:

    QUEM ELEGE, FISCALIZA E COBRA


    O VOTO NÃO É CHEQUE EM BRANCO:


    O VOTO NÃO É CHEQUE EM BRANCO: QUEM ELEGE, FISCALIZA E COBRA

    Por Moisés Laureano de Santana

    Em um ano decisivo para o Brasil, o eleitor precisa entender que sua responsabilidade não termina diante da urna. Escolher é apenas o primeiro ato; acompanhar, fiscalizar e cobrar resultados são partes essenciais da democracia.

    Em 2026, o Brasil volta às urnas para escolher presidente, governadores, dois senadores por estado e pelo Distrito Federal, além de deputados federais, estaduais e distritais. O calendário eleitoral já está em vigor, e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) concentra as principais informações sobre regras, candidaturas, pesquisas, denúncias e fiscalização do processo.

    Entretanto, existe uma pergunta que deveria acompanhar cada eleitor durante toda a campanha — e, principalmente, depois da eleição: O que faremos com o poder que entregamos a quem elegemos? A resposta não pode ser apenas esperar quatro anos.

    O voto é poderoso, mas não é uma procuração para governar sem limites. Não é autorização para ignorar promessas, abandonar compromissos ou administrar recursos públicos sem prestar contas. O voto não é cheque em branco. Votar é escolher. Fiscalizar é participar.

    Existe um equívoco perigoso na cultura política brasileira: imaginar que a participação do cidadão termina quando a urna registra seu voto. Não termina. Na verdade, começa uma nova etapa.

    Ao escolher um candidato, o eleitor delega temporariamente uma parcela de seu poder. O eleito passa a administrar recursos públicos, formular políticas, propor leis, definir prioridades e tomar decisões que afetam diretamente a vida de milhões de pessoas. Por isso, a democracia não pode ser reduzida ao ato de votar. Democracia também é acompanhamento. É informação. É cobrança. É transparência. É responsabilidade.

    Quem elege tem o direito de perguntar. Tem o direito de discordar. Tem o direito de exigir explicações. E tem o dever de acompanhar aquilo que está sendo feito em seu nome.

    Essa postura é especialmente importante em 2026, quando o eleitor será submetido a uma avalanche de informações, promessas, pesquisas, vídeos, discursos e conteúdos produzidos ou manipulados digitalmente.

    O próprio TSE estabeleceu regras específicas para o uso de inteligência artificial nas eleições, incluindo medidas contra deepfakes e conteúdos falsos ou gravemente descontextualizados.

    Isso significa que uma das primeiras formas de fiscalização começa antes mesmo do voto: fiscalizar a informação que chega até nós.

    1. A promessa também precisa ter preço

    Durante uma campanha, prometer é fácil. Difícil é explicar como realizar.

    Todo candidato deveria ser questionado não apenas sobre o que pretende fazer, mas também sobre quanto vai custar, de onde virão os recursos, quais serão as prioridades e como os resultados serão medidos.

    Se promete construir hospitais, quantos? Em quanto tempo? Com qual orçamento? Quem vai contratar os profissionais?

    Se promete reduzir impostos, qual receita será sacrificada? Que despesa será revista?

    Se promete aumentar investimentos, qual será a fonte dos recursos?

    Se promete criar benefícios, qual será o impacto permanente nas contas públicas?

    Essas perguntas não são detalhes técnicos. São perguntas que atingem diretamente o bolso do cidadão.

    O dinheiro público não é dinheiro do governo. É dinheiro da sociedade. Vem dos impostos pagos por trabalhadores, consumidores, empresas e empreendedores. Por isso, o eleitor não deveria aceitar que candidatos tratem o orçamento como se fosse um recurso ilimitado. Promessa sem fonte de financiamento pode ser apenas propaganda. E propaganda, depois da eleição, pode se transformar em imposto, dívida, juros ou serviço público que deixa de receber recursos.

    2. A cobrança precisa sobreviver à eleição

    Outro problema recorrente é a memória curta. Durante a campanha, candidatos apresentam propostas, assumem compromissos e fazem discursos. Depois da posse, entretanto, muitas promessas desaparecem do debate público. É nesse momento que o eleitor precisa mudar de papel. De eleitor, passa a ser fiscal do mandato. Não significa perseguir quem venceu. Muito menos transformar toda decisão do governo em motivo de ataque. Significa acompanhar.

    Se uma promessa foi cumprida, reconhecer. Se não foi, perguntar por quê. Se houve mudança de cenário, avaliar a justificativa. Se houve erro, cobrar correção. Se houve irregularidade, denunciar aos órgãos competentes. É assim que funciona uma democracia adulta: o cidadão não idolatra governantes; acompanha governantes.

    3. Fiscalizar não é ser oposição

    Há uma confusão que precisa ser enfrentada. Fiscalizar não significa ser contra.

    Um eleitor que votou em determinado candidato pode — e deve — criticá-lo quando considerar necessário. Da mesma maneira, quem não votou nele não precisa rejeitar automaticamente tudo o que seu governo fizer. Essa distinção é fundamental. O interesse público está acima da torcida partidária.

    Se uma política funciona, deve ser reconhecida, independentemente de quem a criou. Se uma decisão é ruim, deve ser questionada, independentemente de quem a tomou. Caso contrário, a política deixa de ser debate sobre resultados e se transforma em campeonato. E país não é campeonato.

    Quando um governo fracassa, não é apenas o adversário político que perde. A sociedade inteira paga a conta.

    4. O perigo da política de torcida

    A polarização tornou esse desafio ainda maior.

    Nas redes sociais, muitas pessoas passaram a defender políticos como torcedores defendem clubes de futebol. O candidato vira ídolo. O partido vira identidade. O adversário vira inimigo.

    Nesse ambiente, uma crítica ao próprio grupo é interpretada como traição.

    Um erro do adversário é amplificado. Um erro do próprio lado é relativizado. Uma informação favorável é compartilhada sem verificação. Uma informação desfavorável é imediatamente classificada como mentira. O resultado é uma democracia em que muitos querem vencer a discussão, mas poucos estão dispostos a descobrir a verdade.

    Em 2026, esse risco ganha uma dimensão ainda maior com a inteligência artificial. O TSE já estabeleceu mecanismos específicos para enfrentar conteúdos sintéticos e desinformação, além de manter parcerias com plataformas digitais para ampliar o combate a conteúdos que possam comprometer a integridade do processo eleitoral.

    Por isso, fiscalizar também significa checar antes de compartilhar. É uma responsabilidade pequena diante do tamanho da democracia, mas enorme diante do alcance de um celular.

    5. O eleitor precisa conhecer as ferramentas que possui

    A fiscalização não depende apenas de boa vontade. Existem mecanismos institucionais de transparência, controle e participação social.

    O TSE disponibiliza informações sobre candidaturas, pesquisas, regras eleitorais e denúncias. O Tribunal de Contas da União (TCU), por sua vez, trabalha com mecanismos de transparência, fiscalização e participação cidadã no controle da administração pública. Isso significa que o cidadão não precisa aceitar a frase: “Não há nada que você possa fazer.” Há!

    Pode buscar informações. Pode comparar promessas. Pode acompanhar votações. Pode consultar gastos públicos. Pode verificar contratos. Pode acompanhar resultados. Pode questionar representantes. Pode procurar órgãos de controle. Pode denunciar irregularidades. Pode participar de debates públicos. Pode, sobretudo, não esquecer aquilo que o candidato prometeu.

    A democracia oferece ferramentas. O problema é que, muitas vezes, elas são pouco utilizadas.

    6. O eleitor também precisa fazer sua parte

    Não existe democracia saudável quando toda a responsabilidade é colocada sobre políticos e instituições.

    O cidadão também precisa assumir sua parcela. Isso significa estudar minimamente os candidatos. Conhecer suas propostas. Verificar sua trajetória. Comparar discursos com ações. Desconfiar de promessas fáceis. Conferir informações antes de compartilhá-las. Significa também compreender que nenhum candidato será perfeito.

    A escolha eleitoral não precisa ser uma declaração de amor. Pode ser uma decisão racional. Qual candidato apresenta melhores condições para enfrentar os problemas reais? Essa talvez seja uma pergunta mais útil do que “quem fala aquilo que eu quero ouvir?”.

    O eleitor maduro não procura apenas alguém que confirme suas convicções. Procura alguém que consiga apresentar soluções. A eleição termina. A cidadania, não.

    Em outubro, milhões de brasileiros escolherão seus representantes. No dia seguinte, os vencedores terão de governar. E os derrotados continuarão fazendo parte da sociedade. É aí que começa a verdadeira prova. O candidato que prometeu precisa entregar.

    O governante que foi eleito precisa explicar. O parlamentar precisa prestar contas de seus votos. O cidadão precisa acompanhar. E a imprensa precisa continuar investigando, questionando e informando.

    Esse sistema de responsabilidades é que impede que a democracia se transforme em uma simples cerimônia eleitoral.

    Porque votar uma vez a cada quatro anos e desaparecer do debate público não é participação plena.

    É delegação sem acompanhamento.

    7. O poder não termina na urna

    Talvez uma das maiores mudanças necessárias na cultura política brasileira seja compreender que o eleitor não é cliente de político.

    Não deve favores. Não precisa defender um governante porque recebeu um benefício. Não deve fechar os olhos para erros porque votou nele. E tampouco precisa torcer para que o país dê errado apenas porque seu candidato perdeu. O cidadão não pertence ao político. O político é que ocupa temporariamente uma função pública em nome do cidadão.

    Essa inversão de perspectiva muda tudo. Muda a maneira de votar. Muda a maneira de cobrar. Muda a maneira de acompanhar. E, principalmente, muda a relação entre sociedade e poder.

    8. A grande escolha de 2026

    As eleições de 2026 serão decididas na urna. Mas a qualidade da democracia será construída todos os dias depois dela.

    Por isso, talvez seja hora de substituir uma pergunta tradicional: “Em quem você vai votar?” por outras, igualmente importantes: “O que você espera desse candidato?” “Como saberá se ele cumpriu?” “O que fará se ele não cumprir?” E talvez a pergunta mais importante de todas: “Você está disposto a fiscalizar também aquele em quem votou?” Porque democracia não é escolher um salvador. É escolher representantes e continuar exercendo a cidadania.

    O eleitor não precisa concordar com tudo. Não precisa gostar de todos. Não precisa abandonar suas convicções. Precisa, entretanto, preservar a capacidade de pensar, questionar e cobrar.

    Em uma democracia madura, o voto não entrega poder absoluto. Entrega uma responsabilidade temporária. E essa responsabilidade vem acompanhada de uma obrigação permanente: acompanhar o que foi feito em nome do povo.

    No fim das contas, o futuro de uma democracia não depende apenas de quem vence uma eleição. Depende também do comportamento de quem votou.

    Quem elege tem voz. Quem acompanha tem poder. Quem fiscaliza protege a democracia. E quem cobra resultados ajuda a transformar o voto em cidadania.

    Em 2026, antes de apertar a tecla “Confirma”, cada eleitor deveria lembrar: o voto não é cheque em branco. Quem elege, fiscaliza e cobra.

    Moisés Laureano de Santana é advogado, pós-graduado em Direito Público, Tributário e Eleitoral, com ampla e sólida experiência na Administração Pública do Estado do Rio de Janeiro, atuando em diversos cargos de direção e chefia em instituições governamentais 



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