JJ
Candidatura Para Perder
A oportunidade passou.
Candidatura Para Perder
Por JJ
Há uma pergunta que precisa ser feita sobre a política paulista. O Partido dos Trabalhadores lança candidaturas para vencer ou para perder de forma honrosa?
A provocação pode parecer exagerada, mas a história das eleições para o governo do estado de São Paulo aponta para uma conclusão desconfortável. Desde 1982, o PT e o conjunto das forças políticas que gravitam ao seu redor insistem em repetir uma mesma lógica. Escolhem candidatos capazes de unificar a militância, mas nem sempre capazes de construir uma maioria eleitoral. Fazem campanhas que agradam aos convertidos, mas raramente dialogam com quem decide a eleição.
Não se trata de defender qualquer tipo de pragmatismo vazio. Trata se de compreender que eleições majoritárias são disputas pela maioria da sociedade. Quem ignora isso transforma a campanha em um exercício de afirmação ideológica e não em um projeto real de conquista do governo.
Ao longo de mais de quatro décadas houve poucas oportunidades concretas de romper a hegemonia conservadora em São Paulo. Na minha avaliação, duas delas foram desperdiçadas.
A primeira ocorreu em 2002.
Geraldo Alckmin havia assumido o governo apenas um ano antes, após a morte de Mário Covas. Ainda não era a liderança consolidada que se tornaria nos anos seguintes. O antigo MDB de Orestes Quércia oferecia apoio tácito à candidatura petista. Havia uma conjuntura política favorável e um ambiente nacional impulsionado pela expectativa da vitória de Lula.
José Genoino era um grande parlamentar. Um homem íntegro, preparado e respeitado. Tive a honra de coordenar sua campanha ao lado do saudoso Paulo Frateschi e chegamos ao segundo turno com relativa tranquilidade.
Mas campanhas majoritárias não são julgamentos sobre a qualidade moral dos candidatos.
Naquele momento, Genoino carregava uma imagem política construída ao longo de décadas. Para uma parcela importante do eleitorado paulista, sua trajetória como ex guerrilheiro pesava mais do que sua atuação parlamentar. A percepção política superava a realidade objetiva.
Talvez Aloizio Mercadante fosse o candidato mais adequado para aquela conjuntura. Tinha um perfil mais moderado, dialogava melhor com o centro político e possuía características que poderiam ampliar a base eleitoral. Não se escolhe um candidato para representar apenas um partido. Escolhe se um candidato para vencer uma eleição.
A oportunidade passou.
Depois vieram as eleições de 2006, 2010, 2014 e 2018.
Em todas elas o resultado parecia conhecido antes mesmo das convenções. As candidaturas cumpriam uma função interna de afirmação política, mas chegavam às ruas sem perspectiva concreta de vitória. As derrotas em primeiro turno tornaram se quase uma rotina. Ainda assim, nenhuma reflexão estratégica foi realizada.
Em 2022 surgiu uma nova oportunidade.
A direita estava dividida. Rodrigo Garcia enfrentava o desgaste do governo herdado de João Doria. Tarcísio de Freitas era um candidato sem história política em São Paulo. Nascido no Rio de Janeiro, construiu sua carreira técnica e política em Brasília. Chegou ao estado apenas para disputar a eleição, sem vínculos sociais, eleitorais ou administrativos com a população paulista. Durante a campanha, demonstrou inclusive desconhecimento sobre referências conhecidas do estado.
Era uma eleição aberta.
Na minha avaliação, Márcio França reunia as melhores condições para disputar aquele momento. Havia chegado ao segundo turno na eleição anterior. Tinha presença consolidada no interior, maior capacidade de diálogo com o centro político e menor rejeição entre setores moderados.
Mais uma vez, porém, prevaleceu a lógica interna do PT.
Fernando Haddad foi imposto como candidato e o resultado foi uma derrota para um adversário que chegava como um forasteiro político ao estado. O campo progressista perdeu o governo, perdeu a eleição para o Senado e, mais uma vez, não produziu uma autocrítica compatível com a dimensão da derrota.
É justamente essa ausência de reflexão que explica a situação atual.
Tudo indica que estamos assistindo à repetição do mesmo roteiro.
Mais uma candidatura construída para perder por pouco.
Os erros são de forma e de conteúdo.
A chapa é estreita.
O discurso é estreito.
As propostas dialogam quase exclusivamente com quem já vota na esquerda.
A campanha aposta na experiência administrativa de seus integrantes, como se a simples informação de que a chapa reúne quatro ex ministros fosse suficiente para despertar entusiasmo popular. Não é.
Campanhas vitoriosas não são movidas por currículos.
São movidas por esperança, identificação e perspectiva de futuro.
O problema central continua sendo estratégico.
São Paulo não é um estado progressista. Nunca foi.
Seu eleitorado é majoritariamente conservador, competitivo e profundamente influenciado pela ideia de ascensão individual. Milhões de trabalhadores sonham deixar de ser empregados para se tornarem patrões. O empreendedorismo, o mérito individual, a prosperidade econômica e o sucesso pessoal fazem parte do imaginário coletivo paulista.
Ignorar essa realidade não a transforma.
Uma candidatura que pretende governar São Paulo precisa conversar também com esse eleitor. Precisa disputar o centro político. Precisa dialogar com o interior. Precisa compreender o peso econômico e simbólico do agro. Precisa oferecer segurança para a classe média e perspectivas concretas de desenvolvimento.
Isso não significa abandonar princípios.
Significa compreender que vencer uma eleição exige construir maiorias.
Campanhas existem para ampliar apoios e não apenas para reafirmar convicções.
Se a estratégia permanecer a mesma, o resultado provavelmente também será.
Mais uma derrota.
Mais uma explicação baseada apenas na força do adversário.
Mais uma oportunidade perdida sem que ninguém se disponha a discutir os próprios erros.
Talvez o maior problema da esquerda paulista não seja a dificuldade de disputar eleições.
Talvez seja a dificuldade de aprender com as derrotas.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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