Carlo Simi
Idade não é veredito
O que os anos me deram, e o que eles nunca vão me tirar
Idade não é veredito
O que os anos me deram, e o que eles nunca vão me tirar
Por Carlo Siimi
Ninguém deveria precisar pedir licença para continuar pensando E, no entanto, é exatamente isso que uma parcela da sociedade cobra, todos os dias, de quem já viveu mais: que se cale, que ceda o lugar, que aceite ser tratado como peça fora de época. Existe uma crença silenciosa, quase automática, de que a vida intelectual tem prazo de
validade — como se, ao passar de determinada idade, a mente perdesse a licença para inventar, propor, ousar. É uma crença falsa, e talvez uma das mais injustas que atravessam nossa sociedade, porque ela não julga o que a pessoa pensa. Julga apenas quantos anos ela tem para pensar.
Escrevo sobre isso não como observador distante, mas como alguém que vive essa disputa na própria pele. Estou prestes a completar 77 anos, e escrevo sem nenhuma
sombra de nostalgia ou de resignação. Escrevo, na verdade, no auge. São mais de cinco décadas de militância política e de vida pública. Foram anos de sala de aula, foram cargos que ocupei, foram decisões que tomei — algumas certas, outras que hoje eu faria diferente, e é exatamente essa mistura que me formou. Não escondo os erros: eles fazem parte do mesmo patrimônio que os acertos. Quem nunca errou nada construiu, apenas evitou se expor. Eu me expus, muitas vezes, e disso vieram tanto tropeços quanto conquistas das quais me orgulho.
O que quero dizer é simples: hoje, mais do que em qualquer outro momento da minha vida, sinto que estou na plenitude da minha capacidade de pensar, planejar e construir. Não apesar da idade. Por causa dela. Cada ano vivido não foi tempo perdido — foi tempo investido. Hoje consigo enxergar padrões que antes me escapavam, antecipar problemas que antes eu só percebia depois que já haviam acontecido, montar estratégias com uma clareza que só vem de quem já testou, na prática, o que funciona e o que não funciona. Chamam isso de experiência, mas eu prefiro chamar de acúmulo de lucidez. E há um ponto que faço questão de deixar claro, porque ouço com frequência o contrário: a tecnologia não me ameaça, nem me diminui. As novas ferramentas não me dão experiência — isso ninguém tira de uma tela, isso se constrói vivendo. Mas elas me ajudam a usar essa experiência com mais velocidade, mais alcance, mais precisão.
Aprender a lidar com o novo não é trair o que sou. É a prova de que continuo em movimento, continuo curioso, continuo disposto a aprender no dia seguinte o que ainda não sabia no dia anterior.Por isso me incomoda tanto ouvir, ainda hoje, comentários que tratam a idade como sinônimo de esgotamento. Quem diz isso nunca parou para pensar que um projeto bem desenhado, uma estratégia bem calibrada, uma ideia verdadeiramente transformadora não nascem do improvisoda pressa — nascem da maturação de quem já entendeu, na pele, o peso de cada decisão.
Não escrevo isso como defesa pessoal. Escrevo como testemunho de algo que vejo repetir-se em tantas outras pessoas da minha geração: professores que seguem
inovando em sala de aula, gestores que seguem entregando resultados, cientistas que seguem publicando descobertas, artistas que seguem reinventando sua própria obra — todos na idade em que, segundo o preconceito, já deveriam ter se calado. E vejo o mesmo potencial, com outros contornos, em tantos jovens que ainda vão viver o que eu já vivi — o que só reforça que nenhuma geração, sozinha, é suficiente. A transformação
verdadeira nasce do encontro entre quem começa e quem já percorreu o caminho, não da eliminação de uma das partes.
Aos 77 anos, não sinto que estou terminando um ciclo.Sinto que estou em um dos meus momentos mais férteis. E se há algo que aprendi nessas mais de cinco décadas de vida pública, é isto: envelhecer não é perder relevância. É, para quem continua curioso, o momento em que a relevância finalmente amadurece Combater o etarismo, portanto, não é apenas um gesto de respeito ao passado. É um investimento inteligente no futuro — porque nenhuma sociedade avança de verdade descartando parte da sua própria inteligência coletiva.
Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.




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