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Barra Mansa,06/07/2026

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    Fernanda Medeiros

    Quando o adversário deixa de ser apenas um jogador

    O que Haaland e Vinícius Júnior revelam sobre a forma como construímos heróis e antagonistas durante uma Copa do Mundo


    Quando o adversário deixa de ser apenas um jogador

    Quando o adversário deixa de ser apenas um jogador

    O que Haaland e Vinícius Júnior revelam sobre a forma como construímos heróis e antagonistas durante uma Copa do Mundo

    Muito antes de o árbitro autorizar o início da partida entre Brasil e Noruega pelas oitavas de final da Copa do Mundo, o jogo já havia começado no imaginário coletivo.

    Durante dias, as redes sociais foram tomadas por memes, músicas, montagens, comparações e provocações envolvendo Erling Haaland e Vinícius Júnior. Antes mesmo do primeiro toque na bola, milhões de torcedores já haviam escolhido seus protagonistas.

    Mas por que isso acontece?

    Por que um atleta passa a representar muito mais do que ele realmente é?

    A Psicologia explica que grandes competições esportivas raramente são vividas apenas como eventos esportivos. Elas também são narrativas coletivas. E toda narrativa precisa de personagens.

    Do lado brasileiro, Vinícius Júnior ocupa, para muitos torcedores, o lugar do herói.

    Do outro lado, Haaland passa a representar o obstáculo.

    Curiosamente, pouco importa quem Erling Haaland seja em sua vida pessoal. Durante a Copa do Mundo, ele deixa de ser apenas um atacante da seleção norueguesa e passa a ocupar um lugar simbólico na imaginação coletiva.

    É nesse ponto que a Psicologia se torna especialmente interessante.

    Os memes, as músicas e as provocações não surgiram porque os brasileiros conhecem profundamente Haaland como pessoa. Surgiram porque ele passou a representar aquilo que precisava ser superado.

    Mais do que um dos melhores atacantes do mundo, Haaland reúne características que, no imaginário coletivo, costumam ser associadas ao sucesso: é jovem, europeu, branco, mundialmente reconhecido, financeiramente bem-sucedido e protagonista de uma das maiores ligas de futebol do planeta.

    No lado brasileiro, Vinícius Júnior carrega uma narrativa pública bastante diferente.

    Nascido em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, cresceu em uma realidade simples, iniciou sua trajetória no futebol brasileiro e alcançou o cenário internacional por meio de talento, dedicação e desempenho esportivo. Mesmo após conquistar espaço entre os principais jogadores do mundo, continuou enfrentando episódios públicos de racismo durante sua carreira na Europa.

    Essas trajetórias não tornam um melhor do que o outro.

    Mas ajudam a compreender por que tantas pessoas se identificam emocionalmente com Vinícius Júnior.

    Muitos brasileiros enxergam nele uma história de superação. A sensação de que alguém saiu de uma realidade semelhante à de milhões de jovens do país para alcançar reconhecimento mundial desperta identificação, esperança e orgulho.

    Da mesma forma, Haaland acaba ocupando o lugar simbólico do gigante que precisa ser vencido.

    É importante dizer que essa construção não descreve quem esses atletas realmente são.

    Ela descreve como nós, seres humanos, organizamos emocionalmente uma competição.

    A Psicologia Social demonstra que grupos costumam transformar pessoas em símbolos. Projetamos nelas desejos, medos, expectativas e conflitos que vão muito além de suas características individuais.

    Na Copa do Mundo, esse processo se intensifica.

    Os jogadores deixam de representar apenas suas seleções. Passam a representar histórias, países, valores e tudo aquilo que imaginamos existir do outro lado do campo.

    Da mesma forma, nossos atletas deixam de ser apenas profissionais do esporte. Tornam-se depositários de sonhos, orgulho nacional e expectativas de milhões de pessoas.

    Talvez por isso os memes tenham surgido antes mesmo da partida.

    Eles não são apenas brincadeiras.

    Também funcionam como uma forma coletiva de lidar com a ansiedade.

    O humor sempre desempenhou um importante papel psicológico diante da incerteza. Rir do adversário, exagerar suas características, criar músicas e transformar jogadores em personagens ajuda o grupo a reduzir simbolicamente aquilo que parece ameaçador.

    É uma maneira de enfrentar o medo antes mesmo de enfrentar o jogo.

    Esse fenômeno revela algo que vai muito além do futebol.

    Com frequência, não enxergamos apenas a pessoa que está diante de nós. Enxergamos aquilo que ela passou a representar.

    Isso acontece no esporte, na política, nas redes sociais e até nas relações do cotidiano.

    Transformamos indivíduos em símbolos muito maiores do que eles próprios.

    A Copa do Mundo apenas torna esse mecanismo mais visível.

    Independentemente do resultado entre Brasil e Noruega, existe algo que já aconteceu.

    Antes mesmo de a bola rolar, Haaland deixou de ser apenas Haaland.

    Vinícius Júnior deixou de ser apenas Vinícius Júnior.

    Um tornou-se o obstáculo.

    O outro, a esperança.

    E talvez essa seja uma das maiores contribuições da Psicologia para compreender fenômenos coletivos: perceber que, muitas vezes, não enfrentamos apenas um adversário.

    Enfrentamos aquilo que acreditamos que ele representa.

    Fernanda Medeiros
    Psicóloga Clínica e Jurídica
    CRP-SC 12/02536 | CRP-RJ 05/300859

     



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