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Barra Mansa,03/07/2026

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    Carlo Simi

    Das Bancas de Jornal ao Coração da Arquibancada

    O legado ítalo-tricolor


    Das Bancas de Jornal ao Coração da Arquibancada

    Das Bancas de Jornal ao Coração da Arquibancada

    O legado ítalo-tricolor

    Jornaleiros italianos, o Tricolor e o caminho de um ministro — antes de existir aplicativo de notícia, existia um homem, uma esquina e um caixote de madeira. Foi ali que a Itália deixou sua marca mais silenciosa no Rio de Janeiro, e que um jornaleiro de Ipanema aprendeu, ouvindo um exilado que voltava para casa, o que viria a ser o trabalhismo da sua vida.

    Por Carlo Simi

    Há histórias que o Rio esqueceu de contar sobre si mesmo. Uma delas está de pé em quase toda esquina da cidade, e ninguém mais repara: a banca de jornal.

    Quem inventou esse objeto tão carioca foi um italiano. Carmine Labanca chegou ao Rio no início do século passado e fez o que os imigrantes sempre fizeram por aqui: transformou necessidade em ofício. Depois dele vieram centenas de outros — napolitanos, calabreses, romanos — que trocaram o caixote de madeira por estrutura de ferro e fizeram da distribuição de notícias um negócio de família, passado de pai para filho, geração após geração. Por décadas, quase nenhum jornal circulou no Rio de Janeiro sem passar pelas mãos dessa rede italiana. Não é exagero dizer que a Itália, sem querer, também escreveu a imprensa carioca — só que por fora, na calçada, longe das redações.

    Dessa multidão de nomes que a história não guardou, alguns escaparam do esquecimento.

    Pasquale Amato mantinha sua banca em frente ao Edifício Avenida Central, no coração do Centro do Rio. Dali, por décadas, saíam as caravanas de torcedores do Fluminense rumo a outros estados — e Amato, discretamente, se tornou parte da paisagem afetiva do clube antes mesmo de qualquer torcedor perceber. Era, como registra a história da torcida tricolor, um digno representante da maioria da colônia italiana do Rio.

    Já no Largo da Carioca, quem construiu templo foi Seu Ottavio Santoro. Veio de Roma ainda jovem e passou a vida inteira vendendo jornal na mesma esquina — mas fez daquele ponto de venda muito mais que trabalho. Cobriu a banca de bandeiras, escudos, adesivos e souvenirs do Fluminense, até virar, para quem passava por ali, simplesmente “o Jornaleiro Tricolor”. Ninguém sabia seu nome — sabiam o apelido. Comemoração de título do Flu tinha endereço certo: a banca do Ottavio. Ele morreu depois de décadas fazendo daquele trabalho um ato de amor, e o filho segue lá, mantendo acesa a mesma bandeira, verde, branca e grená — que, não por acaso, ecoa as cores que a Itália também reconhece como suas.

    Essas duas histórias, sozinhas, já bastariam para mostrar como a colônia italiana tricolorizou o Rio de dentro para fora, um jornal por vez. Mas há uma terceira história que atravessa a banca e chega direto ao coração do trabalhismo brasileiro.

    Em 1979, um rapaz trabalhava como jornaleiro numa banca em Ipanema, ao lado do Hotel Everest — sem carteira assinada, como tantos outros. Foi naquele hotel que se hospedou um velho exilado político, recém-chegado de volta ao Brasil depois de anos fora: Leonel Brizola. O jornaleiro se chamava Carlos Lupi. Dali nasceu uma amizade de vinte e seis anos. “Os diálogos duravam horas. Só ele falava, eu só ouvia”, contaria Lupi depois, já deputado, já ministro, já presidente do PDT que herdou do próprio Brizola.

    E aqui a história fecha um círculo que parece escrito de propósito, embora não tenha sido. Carlos Lupi é filho de Paulo Roberto Lupi e Carmelita Lopes Cavalcanti Lupi — e carrega, pelo lado paterno, a mesma ascendência italiana que ergueu as bancas de Amato e de Ottavio. O sobrenome Lupi, comum na Toscana e na Emília-Romanha, não é aqui apenas curiosidade etimológica: é herança de família, documentada em sua própria biografia. O neto — ou bisneto — de italianos que vendia jornal em Ipanema é, em essência, o mesmo personagem que Amato e Ottavio foram no Centro e no Largo da Carioca — só que o dele foi o único caminho, entre os três, que saiu da banca direto para o Ministério. E, décadas depois, ao ser questionado sobre eventual conflito entre ser ministro e presidir o PDT, respondeu com a ironia de quem nunca escondeu de que lado está: seria a mesma coisa, disse ele, que perguntar se havia conflito em “ser tricolor fanático e ministro”. Tricolor fanático. Palavras dele.

    Há algo profundamente trabalhista nessa trajetória, ainda que ninguém tenha planejado assim. A banca de jornal foi, para a colônia italiana no Rio, o primeiro degrau de uma ascensão que a cidade tentou não notar. Foi lá que um imigrante sem capital construiu clube, construiu comunidade, construiu pertencimento. E foi na mesma banca, décadas depois, que um jovem sem carteira assinada aprendeu de um dos maiores líderes trabalhistas do país o que viria a ser sua causa de vida. O caixote de madeira que Carmine Labanca ergueu no início do século não sabia — não podia saber — que também estava erguendo um lugar de formação política.

    Amato vendia jornal de olho na torcida que passava para o Maracanã. Ottavio decorava sua banca de bandeira tricolor até virar símbolo do bairro. Lupi ouvia Brizola falar durante horas, sem imaginar ainda que aquilo seria o começo de tudo. Três bancas, três histórias, um só fio: o de que o Rio de Janeiro, tantas vezes descrito como cidade de elite e de Copacabana, também foi — e ainda é — cidade de jornaleiro. E que a Itália, discreta como sempre foi por aqui, ajudou a escrever isso com as próprias mãos, uma edição de cada vez.

    Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.



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