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Barra Mansa,30/06/2026

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    Fernanda Medeiros

    Quando o sonho entra em campo

    O que a classificação do Brasil para as oitavas de final nos faz lembrar sobre os sonhos da infância


    Quando o sonho entra em campo

    Quando o sonho entra em campo

    O que a classificação do Brasil para as oitavas de final nos faz lembrar sobre os sonhos da infância

    Com a classificação da Seleção Brasileira para as oitavas de final da Copa do Mundo, as discussões voltam a ocupar as mesas de bar, os programas esportivos e as redes sociais. Há quem comemore, quem critique o desempenho da equipe e quem afirme que "não é mais a mesma seleção de décadas atrás".

    Talvez não seja mesmo.

    O futebol mudou. O esporte tornou-se mais veloz, mais físico, mais tático e muito mais competitivo. Os ídolos de uma geração já não são necessariamente os da geração seguinte. As comparações entre Pelé, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Neymar e tantos outros fazem parte de uma conversa que parece nunca terminar.

    Mas existe algo que permanece praticamente inalterado.

    O sonho.

    Quantas crianças, em algum momento da vida, não imaginaram vestir a camisa da Seleção Brasileira?

    Mesmo aquelas que nunca chegaram perto de um campo profissional costumavam transformar a rua, o quintal ou a quadra da escola em um estádio lotado. Bastava uma bola — muitas vezes improvisada — para que surgissem narradores imaginários, finais de campeonato e gols decisivos.

    Do ponto de vista psicológico, o sonho infantil nunca foi apenas sobre futebol.

    Era sobre reconhecimento.

    Sobre pertencimento.

    Sobre superar limites.

    Sobre imaginar um futuro diferente daquele que se vivia no presente.

    O brincar sempre ocupou um papel fundamental no desenvolvimento humano porque permite que a criança experimente possibilidades antes mesmo de vivê-las. Ao brincar, ela ensaia papéis sociais, desenvolve criatividade, regula emoções, aprende a lidar com vitórias e derrotas e constrói projetos de futuro.

    Quando uma criança diz "vou jogar na Seleção", ela não está apenas descrevendo uma profissão. Está dando forma a um desejo de crescer, ser admirada, conquistar espaço e acreditar que é capaz de realizar algo importante.

    Nem todas se tornarão atletas.

    Na verdade, a imensa maioria não seguirá esse caminho.

    Mas isso não significa que o sonho tenha sido inútil.

    Sonhos infantis cumprem uma função psicológica essencial: alimentam esperança, motivação e sentido de realização. Muitos adultos não trabalham hoje na profissão que imaginavam aos oito ou dez anos de idade. Ainda assim, aquele sonho ajudou a desenvolver persistência, disciplina, criatividade e confiança para enfrentar desafios ao longo da vida.

    Talvez por isso a Copa do Mundo continue despertando tanto interesse, mesmo entre pessoas que pouco acompanham futebol durante o restante do ano.

    Ela nos reconecta com uma parte da nossa história.

    Recordamos jogos assistidos ao lado dos pais, dos avós, dos irmãos e dos amigos. Lembramos das ruas enfeitadas, das camisas da Seleção, das figurinhas, das narrações emocionadas e das brincadeiras em que qualquer gol marcado parecia decidir uma final de Copa.

    A memória afetiva tem uma força extraordinária. Ela não recupera apenas acontecimentos; recupera emoções. Quando assistimos a um jogo da Seleção, muitas vezes não estamos apenas vendo vinte e dois jogadores em campo. Estamos reencontrando versões mais jovens de nós mesmos.

    É verdade que a Seleção Brasileira de hoje desperta críticas. Muitos torcedores sentem falta da magia de outras épocas, questionam o estilo de jogo e afirmam que o futebol perdeu parte de sua identidade.

    Essas comparações fazem parte do esporte e da paixão que ele desperta.

    Mas talvez exista uma pergunta ainda mais interessante do que "esta Seleção é melhor ou pior que as anteriores".

    Ela seria capaz de fazer uma criança sonhar?

    Se a resposta for sim, o futebol continua cumprindo uma de suas funções mais importantes.

    Porque os grandes símbolos de uma sociedade não sobrevivem apenas pelos títulos que conquistam. Eles permanecem vivos porque continuam inspirando pessoas a imaginar futuros possíveis.

    Ao final, talvez a Copa do Mundo nos lembre de algo que vai muito além das oitavas de final, das estatísticas ou do placar. Ela nos recorda que todo adulto já foi uma criança que acreditou ser possível chegar mais longe do que sua realidade permitia enxergar.

    E é justamente essa capacidade de sonhar que faz do esporte um fenômeno tão poderoso. Antes de formar atletas, ele forma histórias, fortalece vínculos, desperta pertencimento e ensina que algumas das maiores conquistas da vida começam muito antes do primeiro apito: começam na imaginação de uma criança.

    Fernanda Medeiros

    Psicóloga Clínica e Jurídica

    CRP – SC 12/02536 | CRP – RJ 300859



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