Carmem Teresa Elias
A DICOTOMIA DA FILANTROPIA
A fragilidade entre a filantropia e a misantropia atravessa o denso percurso da dependência e da cobrança
A DICOTOMIA DA FILANTROPIA
A fragilidade entre a filantropia e a misantropia atravessa o denso percurso da dependência e da cobrança.
Por mais que a boa intenção seja a de estender a mão ao outro, ajudar a erguer, abrir portas e construir caminhos, o receptor do outro lado, ou seja quem recebe, precisa entender que ajudar não é permitir a dependência.
Não raro, quanto mais ajudamos alguém, mais essa pessoa passa a considerar que temos de fornecer mais e mais ajuda cada vez mais e sempre. Quanto mais se ajuda, mais a outra parte começa a cobrar que façamos mais e mais por ela. O processo de ajuda se transforma então num processo de dependência, que logo depois vira cobrança: o ajudado passa a exigir mais e mais que você faça por ele o que ele não faz por si mesmo.
Nessa fase, em que outro assume que você passa a ser o provedor obrigatório de sua vontade, qualquer recusa que lhe seja dita é o suficiente para que apareçam sentimentos de raiva. Quem ajuda passa a sofrer depreciação, acusação, insultos. O filantropo facilmente passa ser visto como o vilão de um problema que está em quem necessitava ser ajudado.
Assim agem indivíduos, grupos, minoritários, classes sociais. Em pouco tempo o ajudado se investe de um falso sentimento de poder, revertendo sua carência não em agradecimento, mas ao inverso, em misantropia. Frequentemente nasce de um contraste ou da dissipação de uma expectativa que o sujeito havia desenvolvido e que depois foi desfeita, neste caso, por ter se auto investido de direito de exigir do outro devoção sobre-humana. A percepção se torna cínica e pessimista do mundo e aumenta enormemente o risco de síndromes paranoicas e depressivas.
O lado acometido pode passar a acreditar que no passado ou no futuro tenha existido ou existirá uma versão melhor de uma nova alma caridosa que irá aceitar incondicionalmente suas demandas de vítimismo. Investido de visão grandiosa de si mesmo demostra uma consideração miserável do próximo. Falta-lhe consciência, arrependimento e senso de gratidão. Vem então a manifestação de raiva, do aborrecimento à total falta de consideração.
A filantropia não é uma obrigação: é uma ato de amor. Quando ela apenas fortalece o estado de vitimismo do outro não é mais ajuda o que se fornece: é a sustentação de um vício danoso a ambos as partes.
Carmem Teresa Elias




COMENTÁRIOS