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Barra Mansa,29/06/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    O Hino que Carrego nos Ossos

    Nós somos da Pátria a guarda.


    O Hino que Carrego nos Ossos

    O Hino que Carrego nos Ossos

    Por Marcelo Kieling

    Nasci em 1960, num lugar chamado Querência do Norte, no noroeste do Paraná, onde meu avô materno desbravou a terra roxa plantando café e construindo uma história que misturava política, público e aventura. Minha avó materna trazia no sangue o sobrenome Vargas. Minha mãe era gaúcha de Santa Maria. Meu pai, pernambucano, filho de um comendador casado com a filha do sapateiro da cidade, trocou a sua cidade, Bonito, pela farda e foi parar no Rio Grande do Sul, onde serviu como oficial de Infantaria.

    Mas antes disso, ele atravessou o oceano. Integrante da Força Expedicionária Brasileira, lutou na Segunda Guerra Mundial. Voltou vivo. Voltou com histórias que não contava. Voltou com a certeza de que a pátria merecia tudo.

    Eu cresci nesse silêncio. No quartel, na disciplina, no respeito à hierarquia. A Canção do Exército não era uma música que se ouvia no rádio — era um hino que se carregava no peito. Nossa vida ao teu serviço, a pátria amada, Terra de Santa Cruz. Aprendi esses versos antes de entender o que significavam. Ou talvez tenha entendido antes mesmo de aprendê-los, porque eles estavam no ar que eu respirava dentro de casa.

    Em 1979, formei-me oficial R2 pelo CPOR/RJ. O país vivia os estertores da ditadura militar. Eu, filho de um herói da FEB, neto de desbravador, parente de Vargas, ingressava na caserna num momento em que a instituição que meu pai honrara com sangue começava a ser arrastada para o pântano da política. Não sabia disso na época. Ou sabia, mas não queria admitir. A farda pesa. Mas o ideal pesa mais.

    A Canção do Exército diz: Nós somos da Pátria a guarda.

    Passei a vida inteira tentando entender: guardar a pátria de quem? E, mais doloroso ainda, guardá-la para quem?

    Trabalhei no BNDES, no IBGE, fui Secretário Municipal de Planejamento e Projetos em Teresópolis, assessor da Presidência, gestor de comunicação e marketing. Vi a máquina pública por dentro. Vi servidores dedicados, honestos, que acreditavam no que faziam. E vi o outro lado: o patrimonialismo, o fisiologismo, o uso do Estado como balcão de negócios. Vi cargos sendo distribuídos como moeda de troca. Vi projetos de longo prazo sendo destruídos a cada ciclo eleitoral. Vi a "grandeza do Brasil" que a canção prometia ser trocada por disputas paroquiais, por emendas, por interesses que nada tinham de republicanos.

    Meu pai não atravessou o Atlântico para que o Estado fosse tratado como espólio. O pracinha da FEB não arriscou a vida em Monte Castelo para que, décadas depois, a política brasileira se resumisse a um toma-lá-dá-cá sem vergonha. O tenente-coronel que escreveu a letra da canção não imaginava que o "serviço à pátria" se transformaria em serviço a grupos, a facções, a interesses privados disfarçados de público.

    Mas foi o que aconteceu. E eu vi. Infelizmente continuo vendo.

    A canção fala em unidade. Fiéis soldados, por ela amados. Mas o Brasil que eu vi se despedaçar nas últimas décadas não consegue cantar junto nem o hino nacional. A polarização transformou a pátria em campo de batalha. Adversários viraram inimigos. O debate público virou guerra de trincheiras. E a ideia de marchar unidos em direção à paz e ao progresso — que a canção descreve como destino inevitável — tornou-se uma miragem cada vez mais distante.

    Eu, que cresci acreditando na instituição, vi a instituição ser desgastada por escândalos, por crises, por uma crise de representatividade que atinge todos os poderes. O cidadão comum, ao olhar para aqueles que deveriam ser os guardiões das leis e do desenvolvimento, encontra descrédito. Encontra abandono. Encontra a sensação de que a pátria foi sequestrada por quem nunca vestiu uma farda, nunca jurou nada, nunca cantou nada — a não ser o próprio interesse.

    A Canção do Exército, para mim, nunca foi objeto de análise crítica. Foi hino de vida. Foi juramento. Foi a música que meu pai carregou na memória quando voltou da guerra. Foi a música que eu cantei no CPOR em 1979, com a voz embargada e a certeza de que estava servindo a algo maior.

    Hoje, aos 65 anos, com dois filhos, quatro netos, uma carreira construída no serviço público e na iniciativa privada, olho para trás e vejo o abismo entre o que a canção promete e o que o país entrega. Não é uma ironia. É uma enorme ferida.

    Porque a canção não mudou. Ela continua lá, solene, intacta, sendo cantada nos quartéis todas as manhãs. O país é que mudou. Ou talvez o país nunca tenha estado à altura da canção. Talvez a canção sempre tenha sido um farol iluminando um mar que o Brasil nunca quis navegar.

    Meu pai morreu. Os pracinhas da FEB estão se apagando um a um. A geração que jurou defender a pátria com a própria vida está dando lugar a outra, que jura defender interesses com o próprio bolso. E a Canção do Exército continua sendo cantada — por soldados que acreditam, por oficiais que ainda se emocionam, por meninos que entraram no quartel sonhando com a grandeza de um país que, lá fora, insiste em ser pequeno.

    Eu sou um deles. Ou fui. A farda está guardada. Mas a canção, essa ninguém tira. Ela está nos ossos. No aperto no peito quando a banda toca. Na lembrança do meu pai, pernambucano, herói, que um dia cantou esses mesmos versos antes de atravessar o oceano para defender uma pátria que, talvez, nunca tenha entendido o tamanho do que ele fez.

    Nós somos da Pátria a guarda.

    A guarda existe. O que falta é a pátria que mereça ser guardada.

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.

     

     



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