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Barra Mansa,26/06/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    A Elite Desconectada:

    Tolstói, a Beija-Flor e o Brasil que Não Cabe nos Salões


    A Elite Desconectada:

    A Elite Desconectada:

    Tolstói, a Beija-Flor e o Brasil que Não Cabe nos Salões

    Por Marcelo Kieling

    Em Guerra e Paz, Tolstói dedicou centenas de páginas a um exercício de crueldade literária que poucos romancistas ousaram repetir: colocar lado a lado, no mesmo parágrafo, a morte de um soldado anônimo na neve e o bocejo entediado de uma princesa em um salão de São Petersburgo. O efeito não é apenas narrativo — é moral. O leitor emerge da justaposição com a sensação nauseante de que o império russo, com toda a sua pompa, era um castelo de cartas construído sobre ossos.

    Lá estava a elite, falando francês para se distinguir do próprio povo, tramando casamentos e alianças enquanto o país sangrava em Austerlitz e Borodino. Tolstói, que servira como oficial de artilharia na Crimeia, sabia do que escrevia. Ele vira de perto o abismo entre os que decidem a guerra e os que morrem nela. E teve a coragem de dizer que Napoleão, o grande homem da época, era essencialmente um vaidoso sem empatia, empurrando massas para a morte por puro ego.

    Pois bem. Troque São Petersburgo por Brasília. Troque o francês pelo juridiquês do Congresso Nacional. Troque as batalhas napoleônicas pela guerra urbana das periferias brasileiras. E você terá o mesmo romance, reescrito com outros nomes, duzentos anos depois.

    Os dados do IBGE, divulgados em maio de 2026, são um tapa de luva de pelica na cara do Brasil oficial. A desigualdade voltou a subir em 2025. A renda dos 10% mais ricos cresceu 8,7% — mais que o dobro dos 3,1% registrados entre os 10% mais pobres. O índice de Gini, que mede a concentração de renda, recuou ligeiramente, é verdade, mas o movimento de fundo é inequívoco: a maré está subindo mais rápido para os iates do que para as canoas.

    O que esses números dizem, em linguagem fria de planilha, é o que o samba-enredo da Beija-Flor de 2018 já dissera com muito mais precisão e beleza: “Ganância veste terno e gravata / Onde a esperança sucumbiu.”

    A Beija-Flor, naquele ano, fez o que Tolstói fez com a literatura: usou a arte para escancarar a hipocrisia de uma nação que se pensa civilizada enquanto abandona seus filhos. O enredo sobre Frankenstein, o monstro da literatura gótica, era na verdade um espelho do Brasil. “Monstro é aquele que não sabe amar / Os filhos abandonados da pátria que os pariu.” Não é o jovem armado do morro o monstro. O monstro é o Estado que não educa, a elite que não tributa, o sistema que normaliza a desigualdade e depois se surpreende com a violência que ele mesmo cultivou.

    Brasília, como metonímia do poder, é hoje o que os salões de Anna Scherer foram para a Rússia czarista: uma corrupta bolha que respira o próprio ar rarefeito. O debate político oficial — de todos os partidos, sem exceção — perde-se em guerras culturais, alianças de conveniência e manutenção de privilégios, enquanto o país real enfrenta inflação que corrói o salário mínimo, precarização do trabalho que transforma direitos em miragens, e crises climáticas que alagam barracos mas não atingem coberturas.

    A polarização política, que é o esporte nacional dos últimos anos, rasgou o tecido social brasileiro de uma maneira que talvez nem a Guerra Civil Russa tenha conseguido. Líderes de ambos os lados inflamam suas bases não para governar, mas para sobreviver. O resultado é um país que vive em estado de guerra permanente — não a guerra de trincheiras e canhões, mas a guerra da insegurança alimentar, da fila do SUS, do transporte público que engole três horas do dia de quem trabalha, da educação que não forma cidadãos mas mão de obra descartável.

    E, no entanto, há uma paz possível. Tolstói a encontrou na figura de Platon Karataev, o camponês que, mesmo prisioneiro e humilhado, encontra sentido na simplicidade e na solidariedade. O Brasil encontrou a sua no Carnaval, no samba, na capoeira, no futebol de várzea, na feira de domingo, no almoço de família que reúne três gerações em volta de uma mesa improvisada. É a resiliência de um povo que, mesmo massacrado, continua criando beleza, comunidade e crítica social profunda — geralmente nos mesmos lugares onde o Estado só envia balas.

    A tese central da filosofia da história de Tolstói é que os grandes líderes não controlam a história. Eles são fantoches de forças que não compreendem. O verdadeiro motor da história é a soma das vontades anônimas do povo comum — os soldados que decidem lutar ou fugir, os camponeses que plantam ou abandonam a terra, as mães que criam filhos apesar de tudo.

    Se Tolstói estiver certo — e a história sugere que ele está —, então a política brasileira atual é um teatro de marionetes que ainda não percebeu que os fios estão se rompendo. Enquanto os salões de Brasília continuam a falar sua língua particular, o Brasil real fermenta. Não com a violência que aparece nos noticiários — essa é apenas a erupção visível de um vulcão que nunca esteve adormecido. Precisamos ter uma consciência crescente de que o sistema, como está, não serve a ninguém além dos interesses particulares dos políticos que se mostram sem quaisquer pensamentos voltados para a população.

    O samba da Beija-Flor termina com um lamento que poderia ser o epitáfio de toda uma era política: “Oh pátria amada, por onde andarás? / Seus filhos já não aguentam mais.”

    Não é uma pergunta. É uma sentença. E, como Tolstói sabia, sentenças proferidas pelo povo tendem a se cumprir mais cedo ou mais tarde. A questão não é se o Brasil real vai cobrar a fatura dos salões. A questão é quando — e se, quando esse dia chegar, ainda haverá tempo para aprender a amar os filhos que a pátria abandonou.

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.


     

     



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