Carmem Teresa Elias
LONGAS VIAGENS EM BUSCA DA LITERATURA
A literatura é constituída de valor atemporal e universal.
LONGAS VIAGENS EM BUSCA DA LITERATURA
Ao acompanhar a palestra “A longa viagem em busca de um título”, proferida pelo escritor Antônio Torres, membro da Academia Brasileira de Letras, como parte do ciclo “Caminhos da Ficção”, ocorre-me abordar algo muito necessário de se entender em tempos insipientes deste século XXI: a permanência do tempo na escrita literária. A literatura também faz história e a história é parte intrínseca da realidade da qual a própria ficção literária se compõe.
O verdadeiro escritor convive com o alheio. Observa, investiga, analisa, supõe, conclui, inventa sobre a vida que circula à sua volta, ou do outro lado do mundo, ou em qualquer época. A literatura não é prisioneira do imediatismo do aqui e agora, mal que assola a sociedade digital não só líquida como propôs Bauman, mas agora pulverizada pela rolagem de telas.
Costumo frisar com insistência que a literatura é constituída de valor atemporal e universal.
Já passei por várias postagens pelas plataformas digitais que erroneamente, a meu ver, reduzem um livro a uma capa, um título, um parágrafo inicial impactante, um folhear de 50 breves páginas sobre a vida pessoal e uma festa de lançamento. Ponto. O suposto livro acaba ali.
Antônio Torres nos comprova o oposto: seu romance “Os Homens dos Pés Redondos, segue sua trajetória de curto, médio e longo prazo, desde 1973 em reedições, a nos confrontar de modo satírico, irônico, sério e extremamente crítico com personagens que dão voltas em torno de si mesmos, justamente por não se abrirem a escopos mais amplos. Já o protagonista observa e disseca o dia a dia como um autor deve fazê-lo para que sua vivência componha o laboratório de sua criação.
A obra de Torres se passa em um suposto país fictício, porém muito semelhante a Portugal nos anos de ditadura de Salazar. Como a sinopse relata “o livro tece uma rede de histórias onde os cidadãos — os tais "homens dos pés redondos" — sobrevivem sob o jugo de um governante ditador onipresente que nunca aparece na história, mas controla todos os aspectos de suas vidas.” Em suma, uma literatura que acende luzes metafóricas sobre o autoritarismo e tiranias ditatoriais que assolam a história da humanidade de modo recorrente. Mudam-se os sapatos, mas os pés permanecem, ouso acrescentar.
A palestra de Torres também somou vários títulos indispensáveis. Destaco “O Som e a Fúria”, de William Faulkner, obra impactante, de 1929, cuja leitura marcou minha formação tanto como leitora quanto docente de literatura. Trata-se de um romance que desafia o leitor pela complexidade narrativa contada por quatro vozes diferentes, incluindo a contada por um deficiente mental, utilizando técnicas de fluxo de consciência e saltos imprevisíveis no tempo. Um dos dez melhores livros de todos os tempos.
Finalizo lembrando duas obras minhas. “Perdidos Atávicos” ( contos - editora Scortecci) nasceu justamente de minha observação de cenas alheias, estranhas e totalmente diferentes da minha experiência pessoal, porém focada em denúncias sociais, preconceitos, censura, exploração humana, torturas, totalitarismo, incomunicabilidade. Olhos de uma autora voltada para o mundo lá fora do eu.
Por fim, meu mais recente ensaio literário, “ Escrita do Feminino, registro e ocultação”, ( editora Scortecci, 188 páginas) uma longa viagem histórica pela literatura de ofuscamento da mulher, seja personagem, seja autora resgatado ao longo do percurso de mais de 4 mil anos de civilização humana. Citando Nise da Silveira concluo: é necessário se espantar, se indignar, e se contagiar, pois só assim é possível mudar a realidade.”
Carmem Teresa Elias




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