Seja bem-vindo
Barra Mansa,23/06/2026

    • A +
    • A -
    Publicidade

    JJ

    A Albânia não está à venda

    A Albânia conhece bem o preço da submissão.


    A Albânia não está à venda

    A Albânia não está à venda

    Por JJ

    Há povos que a história tenta reduzir ao tamanho de seus mapas. A Albânia é um deles. Pequena em território, cercada por mares, montanhas, fronteiras instáveis e ambições estrangeiras, ela jamais foi pequena em sua capacidade de resistir.

    Hoje, novamente, o país é chamado a defender uma parte de si mesmo. A ilha de Sazan, a lagoa de Narta, a península de Zvërnec, suas aves migratórias, suas águas, suas memórias militares e suas paisagens mediterrâneas passaram a ser tratadas como mercadoria disponível para a especulação de luxo. O projeto de resort ligado a Jared Kushner e Ivanka Trump não representa apenas hotéis, marinas e vilas para milionários. Ele simboliza uma velha operação do capitalismo internacional, transformar a terra de um povo em ativo financeiro, a natureza em vitrine e a soberania em concessão.

    O governo de Edi Rama apresenta o empreendimento como desenvolvimento. Esta palavra, tantas vezes prostituída pelo capital, volta a cumprir sua função ideológica. Desenvolvimento para quem? Empregos precários para a população, lucros concentrados para investidores estrangeiros, patrimônio natural entregue à destruição e um Estado reduzido a corretor de interesses privados. A promessa é conhecida em toda a periferia do mundo. Primeiro chegam os grandes projetos, depois os discursos sobre modernização, em seguida os cercamentos, a expulsão silenciosa, a devastação e a dependência.

    A Albânia conhece bem o preço da submissão.

    Conheceu a longa dominação otomana, quando sua identidade precisou sobreviver entre impérios. Conheceu ocupações fascistas e nazistas. Conheceu o isolamento duro, contraditório e muitas vezes doloroso do período socialista. Mas também conheceu, sob Enver Hoxha, uma experiência que, com todos os seus limites, afirmou diante do mundo que um pequeno país não precisava ajoelhar se diante das grandes potências. A Albânia foi chamada de farol porque ousou dizer não, porque buscou construir autonomia, porque recusou a condição de quintal geopolítico.

    Não se trata de apagar os erros, as deformações burocráticas, os excessos autoritários e os dramas humanos daquele processo. Uma análise marxista séria não transforma a história em altar. Mas também não aceita que a restauração capitalista seja apresentada como libertação absoluta. O desmoronamento do socialismo real abriu caminho para uma nova forma de dependência. Onde antes havia a promessa de soberania nacional, ainda que cercada de contradições, instalou se a lógica da privatização, da oligarquia, da migração forçada pela pobreza e da venda do território ao melhor comprador.

    É nessa ferida histórica que os protestos atuais devem ser compreendidos.

    Quando o povo albanês grita que a Albânia não está à venda, ele não fala apenas de um resort. Fala de uma nação que se recusa a ser convertida em cenário exótico para os ricos do Ocidente. Fala de uma juventude que não aceita ver seu futuro reduzido a servir turistas em hotéis erguidos sobre terras públicas. Fala de comunidades que percebem que a destruição ambiental não é acidente, mas método. Fala de uma sociedade que reconhece, por trás da retórica do investimento, a velha aliança entre elites locais submissas e capital estrangeiro predador.

    A presença de interesses ligados à família Trump dá ao caso uma dimensão ainda mais reveladora. Não se trata de antiamericanismo simplista. O povo albanês não protesta contra os Estados Unidos como povo. Protesta contra a arrogância de um capitalismo político que imagina poder atravessar oceanos, escolher uma ilha, negociar com governos dóceis e transformar a história de um país em propriedade privada.

    O capitalismo contemporâneo não chega mais apenas com tanques. Chega com fundos de investimento, escritórios de advocacia, campanhas publicitárias, promessas de empregos e projetos arquitetônicos de luxo. Ele não precisa ocupar formalmente um território quando pode comprar sua costa, capturar suas leis e subordinar seus governantes.

    A luta em Sazan, Narta e Zvërnec é, portanto, uma luta de classes. De um lado, investidores, grandes proprietários, operadores financeiros e uma elite política disposta a entregar patrimônio público em nome do mercado. De outro, trabalhadores, estudantes, ambientalistas, pescadores, moradores, jovens e todos aqueles que compreendem que a defesa da natureza é inseparável da defesa da vida coletiva.

    O flamingo transformado em símbolo dos protestos não é um detalhe pitoresco. Ele expressa uma verdade profunda. Defender a fauna, a água e a terra é defender a possibilidade de um povo continuar existindo em seu próprio território. O capital vê a lagoa como oportunidade imobiliária. O povo vê nela memória, trabalho, alimento, beleza e continuidade histórica.

    A Albânia sucumbiu ao colapso do socialismo real, como tantos países que foram lançados brutalmente na restauração capitalista. Mas não sucumbiu como povo. Sua memória de independência permanece viva. Ela vem das resistências contra os impérios, passa pela luta antifascista, atravessa as experiências socialistas e reaparece agora nas ruas, nas faixas, nas assembleias e nas vozes que afirmam que a nação não pode ser leiloada.

    O pequeno país que um dia foi chamado de farol ainda ilumina, não porque reproduza um modelo fechado, mas porque seu povo insiste em defender aquilo que o capital deseja apagar, a soberania, a dignidade e o direito de decidir sobre a própria terra.

    A Albânia resiste com as armas que possui. E, neste momento, sua arma mais poderosa é a consciência de que nenhum povo é pequeno quando se levanta para defender sua história.

    JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira 

     



    COMENTÁRIOS

    LEIA TAMBÉM

    Buscar

    Alterar Local

    Anuncie Aqui

    Escolha abaixo onde deseja anunciar.

    Efetue o Login

    Baixe o Nosso Aplicativo!

    Tenha todas as novidades na palma da sua mão.