JJ
COLÔMBIA
Um Resultado Que Não Encerra Uma LUTA
COLÔMBIA, Um Resultado Que Não Encerra Uma LUTA
Por JJ
O resultado preliminar da eleição presidencial colombiana, que aponta a vitória apertada de Abelardo de la Espriella sobre Iván Cepeda, deve ser lido com prudência institucional e profundidade histórica. A diferença inferior a um ponto percentual, em uma disputa marcada por forte polarização, não permite conclusões simplistas. Cepeda anunciou que sua campanha questionará cerca de 33 mil mesas de votação durante o escrutínio oficial. Até que esse processo seja concluído, a responsabilidade democrática exige atenção aos fatos, às atas e às decisões das autoridades eleitorais.
Mas, mesmo antes da conclusão jurídica, há uma evidência política incontornável. A esquerda colombiana sofreu uma derrota. Não uma derrota definitiva, nem uma derrota moral, mas uma derrota eleitoral que expõe os limites, as contradições e as dificuldades de um projeto progressista em um país historicamente submetido à política da guerra, ao peso do narcotráfico, à violência armada e à influência estratégica dos Estados Unidos.
O governo de Gustavo Petro foi o primeiro governo assumidamente de esquerda a chegar ao poder na Colômbia. Isso, por si só, já representava uma ruptura de enorme significado. A Colômbia foi, durante décadas, o mais sólido aliado de Washington na América do Sul, uma peça central da arquitetura militar e diplomática norte americana no continente. O país viveu sob a lógica do combate às drogas, da militarização dos territórios e da associação quase automática entre segurança, repressão e alinhamento com os Estados Unidos.
Essa estrutura não desaparece apenas porque uma eleição escolhe um presidente de esquerda.
Petro governou sob desconfiança interna, resistência de setores econômicos, pressão de grupos conservadores, enfrentamentos institucionais e intensa vigilância externa. Sua tentativa de deslocar o debate nacional da guerra para a justiça social, da repressão para a paz, da submissão geopolítica para uma política externa mais soberana, encontrou obstáculos profundos. A Colômbia não é apenas um país dividido entre direita e esquerda. É um país atravessado por décadas de medo, violência, desigualdade e dependência.
A segurança pública e o narcotráfico foram, mais uma vez, os temas que mobilizaram uma parte decisiva do eleitorado. Em sociedades marcadas pela violência cotidiana, o discurso da ordem possui enorme força. A direita sabe explorar esse sentimento. Ela oferece respostas rápidas, punições severas, promessas de autoridade e a imagem de um Estado forte. Ainda que tais respostas não resolvam as raízes do problema, elas dialogam diretamente com o medo de quem vive sob ameaça.
Esse terreno também favorece a aproximação histórica entre setores da direita colombiana e os governos norte americanos. A chamada guerra às drogas sempre funcionou como instrumento de presença política, militar e econômica dos Estados Unidos na Colômbia. Ao longo dos anos, a segurança foi apresentada como prioridade absoluta, enquanto a desigualdade, a concentração de renda, a exclusão territorial e a ausência do Estado em regiões periféricas foram tratadas como questões secundárias.
Não é possível analisar esta eleição sem considerar esse contexto.
A influência do Norte foi importante no resultado, não necessariamente por meio de uma intervenção direta que precise ser provada, mas pela força de uma cultura política construída durante décadas. A ideia de que a estabilidade depende do alinhamento com Washington, de que a esquerda representa risco e de que a segurança exige endurecimento estatal permanece viva em parcelas expressivas da sociedade colombiana. Essa influência é ideológica, econômica, diplomática e comunicacional.
O governo Petro também precisa ser avaliado com honestidade. Houve avanços, coragem política e uma tentativa concreta de alterar prioridades históricas. Houve uma agenda de paz, de combate à desigualdade, de defesa ambiental e de afirmação da soberania latino americana. Mas houve também um excesso de confrontação retórica. Um presidente que precisa enfrentar estruturas tão antigas não pode ignorar que suas palavras, em determinados momentos, podem ampliar resistências, alimentar inseguranças e afastar setores que não são necessariamente de direita, mas que buscam estabilidade.
A agressividade do discurso pode ter custado caro. A política exige firmeza, mas exige também capacidade de construir maiorias. Um governo progressista não se sustenta apenas com a mobilização de sua base. Ele precisa disputar consciências, dialogar com os setores populares que ainda votam pela segurança e oferecer respostas concretas para aqueles que vivem entre o medo da violência e o medo da mudança.
Se o resultado preliminar for confirmado pelo escrutínio, será uma derrota política para o governo Petro e para o campo progressista colombiano. Mas não será o fim de uma história. Pelo contrário, será uma lição dura sobre os caminhos da transformação social em países profundamente marcados pela desigualdade e pela intervenção histórica de interesses externos.
A luta na Colômbia, como no Brasil e em toda a América Latina, não é feita em linha reta. Há avanços, recuos, vitórias parciais, derrotas dolorosas e recomeços. A história não se encerra em uma urna, nem se resolve em um mandato.
Infelizmente, os povos latino americanos ainda precisam lutar contra velhas estruturas de poder, contra a concentração da riqueza, contra o medo transformado em instrumento eleitoral e contra a ideia de que a submissão internacional é sinônimo de segurança.
Mas é preciso manter a esperança.
A esperança não como ingenuidade, mas como compromisso. A esperança de quem sabe que nenhuma transformação profunda acontece sem resistência. A esperança de quem entende que uma derrota eleitoral não apaga conquistas, não destrói consciências e não elimina a possibilidade de um novo ciclo político.
A Colômbia vive um momento decisivo. O escrutínio precisa ser respeitado, as impugnações precisam ser analisadas e a democracia precisa prevalecer. Depois disso, a esquerda colombiana terá de refletir, reorganizar sua linguagem, ampliar seus diálogos e continuar disputando o futuro.
Porque a luta, lá como cá, continua.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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