MK - Marcelo Kieling
O Cansaço de Deus:
Entre os Átrios de Judá e os Palácios de Brasília
O Cansaço de Deus:
Entre os Átrios de Judá e os Palácios de Brasília
Por Marcelo Kieling
O cheiro era de gordura queimada e incenso caro. No século VIII a C., os pátios do Templo de Jerusalém fervilhavam com a coreografia precisa dos rituais. Havia o som metálico das moedas, o balido dos animais perfeitos destinados ao sacrifício e o murmúrio constante de orações decoradas. Para um observador incauto, Judá vivia o ápice de sua espiritualidade. Para o profeta Isaías, no entanto, aquele cenário não era uma sinfonia de adoração, mas um ruído insuportável que fustigava os ouvidos do Divino.
A denúncia contida em Isaías 1.10-13 é um dos momentos mais cortantes da literatura profética. Ela não mira o ateísmo ou a heresia doutrinária, mas algo muito mais insidioso: a esquizofrenia entre a liturgia e a ética. Quando o profeta convoca os "príncipes de Sodoma" e o "povo de Gomorra", ele não está falando com estrangeiros pagãos, mas com as elites de Jerusalém. A ironia é pedagógica e brutal. Judá, em sua opulência ritualística, havia se tornado moralmente indistinguível das cidades que se tornaram sinônimo de abominação. E o pecado, como Ezequiel clarificaria séculos depois, não era uma abstração metafísica, mas a soberba de quem tem fartura de pão e fecha os olhos à humilhação do pobre.
Essa tensão milenar encontra um eco perturbador no Brasil contemporâneo. Ao observarmos a ascensão do neopentecostalismo — essa terceira onda que redesenhou o mapa religioso e político do país a partir da década de 1970 —, percebemos uma mimese involuntária do "pisar nos átrios" denunciado por Isaías. Onde o profeta via o acúmulo de holocaustos, hoje vemos a estética do espetáculo, as campanhas financeiras de vulto e uma ocupação voraz dos espaços de poder. A pergunta que se impõe, com o rigor que o tema exige, é: em que medida a eficácia institucional e a mobilização política tornaram-se fins em si mesmos, transformando a fé em um incenso que, em vez de elevar preces, mascara o odor da injustiça social?
A Exegese da Náusea
Para compreender a profundidade do abismo, é preciso voltar ao texto. Quando Deus afirma, pela boca de Isaías, estar "farto" (saba) dos sacrifícios, a palavra hebraica carrega uma conotação de saciedade que beira o nojo físico. É a reação de quem foi empanturrado com algo indesejado. O problema não era o ritual — instituído pela própria Lei — mas a crença de que o ritual poderia servir como uma espécie de "suborno" celestial. O sacrifício funcionava como uma cortina de fumaça: quanto maior a corrupção judiciária e a desigualdade social nas ruas de Jerusalém, mais sangue de touros era derramado nos altares para compensar a balança moral.
O "pisar nos átrios" era, portanto, uma ocupação física desprovida de reverência ética. Era o comparecimento formal de quem cumpre uma agenda religiosa enquanto planeja a próxima manobra para expropriar a vinha do vizinho ou manipular o peso na balança do comércio. Deus não pedia o fim do culto; Ele exigia que o culto não fosse um álibi para a opressão.
O Neopentecostalismo e a Teologia do Sacrifício Financeiro
Transportando essa lógica para o cenário brasileiro, o neopentecostalismo introduziu uma gramática espiritual onde o "sacrifício" foi ressignificado. Se em Judá o fiel trazia o melhor do seu rebanho, no altar contemporâneo o sacrifício é financeiro. As "Fogueiras Santas" e as campanhas de prosperidade são apresentadas como provas tangíveis de fé.
Há, aqui, uma sofisticação da barganha denunciada por Isaías. Na Teologia da Prosperidade, o aporte econômico não é apenas uma doação; é um gatilho para a bênção, uma forma de "mover a mão de Deus". Quando essa prática se torna o eixo central da experiência religiosa, o vulto das arrecadações e a visibilidade pública dos templos monumentais — como o Templo de Salomão em São Paulo, uma réplica que busca materializar a glória do Antigo Testamento — podem acabar obscurecendo a função crítica da fé. A religião torna-se uma engrenagem de autoajuda financeira e expansão patrimonial, onde o sucesso institucional é lido como aprovação divina, ignorando-se o custo ético das alianças feitas para sustentar tal estrutura.
Átrios Públicos: A Conquista da Pólis
A segunda correlação analítica reside na transição do neopentecostalismo do isolamento para a conquista. Diferente do pentecostalismo clássico, que muitas vezes pregava o afastamento das "coisas do mundo", a liderança neopentecostal brasileira abraçou a política institucional com um pragmatismo férreo.
A ocupação dos "átrios públicos" — o Congresso Nacional, as assembleias legislativas e os palácios governamentais — é feita sob a bandeira da representatividade. No entanto, a crítica inspirada em Isaías questiona as pautas dessa ocupação. Muitas vezes, a Frente Parlamentar Evangélica (FPE) parece mais focada em pautas corporativistas, na manutenção de privilégios tributários para as igrejas ou no controle de concessões de radiodifusão do que na defesa dos "órfãos e viúvas" — as categorias que, na linguagem bíblica, representam os vulneráveis sem voz no sistema.
Quando a mobilização política serve primordialmente para proteger o patrimônio da instituição ou para impor uma moralidade seletiva que não toca nas estruturas de desigualdade, a igreja mimetiza os príncipes de Judá. Ela "pisa nos átrios" do poder estatal com a mesma desenvoltura com que Isaías via o povo pisar no Templo: com as mãos cheias de sangue, não necessariamente o sangue físico, mas o sangue simbólico da omissão diante da fome, do racismo estrutural e da exclusão que define a periferia brasileira.
O Contraponto: A Fé nas Brechas do Estado
Seria, contudo, um erro jornalístico e intelectual reduzir o neopentecostalismo a um bloco monolítico de manipulação. Uma crônica honesta precisa caminhar pelas naves dos templos e ouvir o pulsar das comunidades.
Em muitos rincões do Brasil, onde o Estado é uma abstração burocrática ou uma força meramente repressiva, é a igreja neopentecostal que oferece a rede de assistência social mais imediata. São centros de recuperação para dependentes químicos, auxílio funeral para quem não tem onde cair morto, e uma estrutura de pertencimento que retira o indivíduo da invisibilidade. Para o fiel da periferia, o "sacrifício" financeiro é muitas vezes interpretado como um ato de dignidade: ele deixa de ser um "assistido" passivo para se tornar um mantenedor de uma obra que ele considera sua. É uma ruptura com a mentalidade de escassez.
Além disso, a entrada na política é defendida por muitos como um exercício legítimo de cidadania em uma democracia laica. Se a sociedade é composta por uma maioria cristã, argumentam, é natural que seus valores e lideranças busquem espaço na formulação das leis. O desafio, portanto, não é a presença na política, mas a natureza dessa presença.
A Reabilitação Ética: O Grito de Isaías Hoje
A conclusão de Isaías não é um niilismo religioso. Ele não propõe a demolição do Templo, mas a sua purificação. "Lavai-vos, purificai-vos... buscai a justiça, acabai com a opressão" (Is 1:16-17). O profeta oferece um roteiro de reabilitação ética que serve como um espelho rigoroso para as lideranças religiosas de hoje.
A legitimidade de uma instituição de fé, no longo prazo, não será medida pela altura de suas colunas de mármore, pelo número de seguidores em redes sociais ou pelo tamanho de sua bancada no parlamento. Ela será medida pela sua capacidade de ser uma voz profética que incomoda o poder em favor da justiça.
Se o neopentecostalismo brasileiro continuar a focar na expansão patrimonial como prova de favor divino e na influência legislativa como ferramenta de domínio, ele corre o risco de ouvir o mesmo veredito que ecoou nas muralhas de Jerusalém: "Não posso suportar a iniquidade associada ao ajuntamento solene". Deus, ao que parece, continua tendo um sono leve e um olfato sensível para o incenso que tenta esconder o cheiro da injustiça.
A fé, para Isaías e para o tempo presente, só recupera sua fragrância quando as mãos que se levantam em oração são as mesmas que se sujam na construção de uma sociedade onde a dignidade humana não seja um sacrifício no altar do mercado ou da conveniência política. O resto é apenas o barulho de quem pisa nos átrios, sem nunca ter compreendido o que significa, de fato, entrar no santuário.
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.





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