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Barra Mansa,15/06/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    O Relógio e a Herança:

    Quarenta Outonos de Rafaella


    O Relógio e a Herança: Rafa e Fernanda

    O Relógio e a Herança:

    Quarenta Outonos de Rafaella

    Por Marcelo Kieling

    Dizem que o tempo é um senhor implacável, mas a verdade é que ele é, acima de tudo, um ilusionista. Ele nos distrai com o cotidiano, com as planilhas de custos, com as estratégias de marketing e as urgências da gestão pública, para então, num golpe de mestre, revelar o óbvio: a vida não caminha, ela salta.

    Hoje, ao abrir os olhos, não foi o despertador que me acordou, mas o estrondo silencioso de um número. Quarenta! Rafaella, minha menina de ontem, completa quarenta anos.

    Para um pai, aceitar a maturidade de um filho é um exercício de geometria existencial. Tentamos traçar uma linha reta entre o berço e o agora, mas o que encontramos é um labirinto de flashes. Parece que foi ontem que o mundo era menor e cabia no meu colo. No entanto, o espelho e o calendário não mentem, apenas refinam a verdade. O susto de enxergar a velocidade do tempo é como aquele piscar de olhos em que a paisagem muda completamente: você entra no túnel com uma criança pela mão e sai dele vendo uma mulher que já construiu o seu próprio exército.

    E que exército. Olho para a Rafaella e vejo, multiplicada, a minha maior vitória, que não está em currículos ou cargos ocupados em O Dia, LANCE!, BNDES ou no IBGE. Minha herança está viva, corre pela casa, tem nome, sobrenome e um DNA que carrega séculos de história, desde as terras roxas do Paraná até o oficialato da cavalaria. Ricardo, Isadora, Guilherme e Fernanda. Minha doce tropa. Ver esses quatro pequenos é entender que a imortalidade não é um conceito teológico, mas biológico. Cada gesto deles, cada olhar de teimosia ou sorriso de descoberta, é um fragmento de nós que se recusa a apagar.

    Contudo, a alegria desta data não vem desacompanhada. Ela traz consigo um aperto no peito, uma saudade que tem nome de mulher e cheiro de cuidado: Dona Lindalva. Minha mãe foi o alicerce onde a infância da Rafa se estruturou. Foi ela quem ajudou a moldar o caráter, quem deu o suporte quando a vida exigia mais do que eu, no turbilhão da carreira, erros pessoais e das responsabilidades, conseguia entregar. Dona Lindalva foi a costura invisível que manteve o tecido da nossa família firme. Hoje, sinto sua falta como se faltasse um ponto cardeal na minha bússola.

    E há também o "Velho Cardona". Meu pai, o oficial de Infantaria, o herói de guerra que decidiu assistir ao mundo de outra atmosfera quando a Rafaella tinha apenas três anos. Ela não teve o tempo de convivência, não teve as histórias de caserna contadas ao pé do ouvido, mas carrega o sangue dele. Velho Cardona partiu cedo demais, deixando um vazio que a gente tenta preencher com honra e dignidade. Imagino o velho agora, em algum lugar desse universo vasto, ajeitando a farda e erguendo um brinde silencioso à neta que ele mal conheceu, mas que herdou sua fibra.

    A trajetória da Rafaella é a crônica de uma metamorfose necessária. Ver a "minha rebelde menina" transformar-se em uma "mãe de verdade" é o maior espetáculo que a vida já me proporcionou. A rebeldia, que outrora poderia parecer um desafio à autoridade, revelou-se, com o tempo, a matéria-prima da sua força. É essa mesma insubmissão que a faz proteger seus quatro filhos com unhas e dentes, que a faz ser uma mulher íntegra em um mundo que tantas vezes tenta nos dobrar.

    Neste ponto, esta minha crônica pede uma pausa para a autocrítica, esse rigor jornalístico que aplico aos fatos e, agora, à minha própria biografia. Olho para trás e sei que não fui um exemplo de perfeição. A vida de um homem que se divide entre o dever militar, a contabilidade dos números e a gestão da comunicação muitas vezes deixa lacunas no afeto presencial. Não fui o pai de manual, o herói de comercial de televisão. Mas, ao observar a Rafaella e o Tarso, meus filhos, sinto um alívio profundo. Se cometi erros na forma, acertei na essência. Soube apresentar o caminho, soube conduzi-los pela trilha da vida correta, da dignidade que não se negocia e do respeito que se conquista.

    Estar vivo para sentir essa mistura de felicidade, espanto e saudade é um privilégio que muitos não alcançam. O espanto é pelo tempo que voa; a felicidade é pela obra concluída na alma da minha filha; e a saudade é o tributo que pagamos por termos amado pessoas inesquecíveis.

    Rafaella chega aos quarenta com a bagagem cheia e o coração transbordando. Meu desejo, como pai e como observador atento da comédia humana, é que ela mantenha a chama. Que chegue aos cinquenta, aos sessenta, aos oitenta, preservando aquela menina rebelde que questionava o mundo, mas que agora o abraça com amor e alegria. Que ela continue sendo esse porto seguro para o Ricardo, a Isadora, o Guilherme e a Fernanda, ensinando a eles que a maior riqueza não se guarda em bancos, mas na memória e no sangue.

    Que venham muitos anos. Para ela, para nós, para a nossa linhagem. E que Dona Lindalva e o Velho Cardona, onde quer que estejam, saibam que a semente que plantaram deu frutos robustos. Hoje o brinde é por você, Rafa. Pela sua vida, pela sua história e por ser a prova viva de que, apesar da velocidade do tempo, o que é construído com amor e dignidade permanece eterno, mesmo que seja em um piscar de olhos.

    Parabéns, minha filha. Rafa, o mundo é pequeno diante da mulher que você se tornou.

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.


     

     

     



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