José Carlos Alcântara
A Qualidade de Vida da População de Armação dos Búzios
Para Armação dos Búzios, o futuro não é apenas o prolongamento do presente.
Praia da Ferradura - Armação de BúziosA Qualidade de Vida da População de Armação dos Búzios
Por José Carlos Alcântara
Armação dos Búzios consolidou-se como sinônimo de sofisticação, beleza natural e do turismo de alto padrão. A valorização imobiliária causadora do fluxo constante de visitantes, esculpiu uma paisagem de prosperidade aparente. Contudo, ao desviarmos o olhar do mar cristalino e das vitrines da Rua das Pedras, revela-se uma dicotomia incômoda: o desenvolvimento material acelerado, não se traduziu em bem-estar coletivo e uma melhoria real da qualidade de vida da população residente. A análise dos indicadores sociais demonstra que seu desenvolvimento econômico integrado depende menos da sua expansão imobiliária e mais da inflexão estratégica no rumo aos investimentos contínuos em saneamento, saúde e educação.
Calcanhar de Aquiles de Armação dos Búzios é o seu saneamento
A deficiência histórica na coleta e tratamento de esgoto, contamina as águas das praias que são a alma do balneário, gerando o passivo ambiental que é uma ameaça a seu principal ativo econômico, o seu ecossistema costeiro. A balneabilidade das suas praias icônicas periodicamente comprometida, é o alerta vermelho que transcende a questão ambiental e se torna num grande problema de gestão da saúde pública e do seu crescimento econômico.
Sem infraestrutura urbana eficiente que universalize o esgotamento sanitário, Armação dos Búzios constrói sua prosperidade sobre um terreno frágil, onde seu crescimento imobiliário amplifica a pressão sobre um sistema já deficitário. A cidade vive o grande paradoxo de ver o seu PIB crescer, enquanto o mar que lhe dá seu próprio nome sofre um processo silencioso de degradação.
A sazonalidade brutal da população imposta pelo turismo no verão, escancara as importantes fragilidades do sistema. A sua rede de saneamento básico que foi dimensionada para a população fixa, sofre um estresse insustentável nos períodos de alta temporada, período em que a demanda explode e as unidades de saúde se veem sobrecarregadas. Flutuação que exige um planejamento além do convencional, com políticas públicas mais flexíveis e robustas, capazes de garantir atendimento digno e resolutivo durante todo o ano. A qualidade de vida do cidadão local não pode ficar refém do modelo que prioriza a chegada de turistas, sem garantir a estrutura de atendimento adequada que essa demanda sazonal exige.
A chave para uma transformação sustentável reside na educação. Uma economia baseada no turismo e nos serviços de alto padrão, tende a gerar uma força de trabalho local que serve aos interesses dessa atividade, mas não protagoniza o desenvolvimento.
Sem um investimento estratégico de longo prazo na qualidade do ensino público, a população corre o risco de se tornar coadjuvante em sua própria cidade, ocupando meros postos de trabalho de qualificação menor e pequena remuneração, enquanto uma riqueza gerada se concentra. A educação é o instrumento primordial que rompe esse ciclo, formando os cidadãos capazes de empreender, para ocupar posições de gestão e liderar o processo de desenvolvimento local com um olhar crítico e capacitado.
Ao mirarmos exemplos dentro do próprio estado do Rio de Janeiro, ao compararmos municípios que alcançaram melhores indicadores sociais, é um exercício revelador. Niterói e Resende, em contextos distintos, demonstram que o desenvolvimento humano é fruto de escolhas políticas consistentes.
Niterói, combina um forte dinamismo econômico de investimentos contínuos em urbanização integrada, com a união de saneamento, habitação e mobilidade, resultando em índices de cobertura de esgoto e qualidade de vida muito superiores à média nacional. Resende, mostrou que só a industrialização não trazia benefícios automáticos; foi a partir de uma pactuação social focada numa universalização do ensino fundamental com qualidade e numa estruturação de rede de saúde eficiente, que a cidade conseguiu traduzir o crescimento do PIB em desenvolvimento social efetivo.
Esses casos demonstram que não é o número dos lançamentos imobiliários ou o volume de turistas que define o progresso. Mas, uma eficiente infraestrutura urbana, a preservação do patrimônio ambiental e a qualidade da formação de seu capital humano.
Para Armação dos Búzios, o futuro não é apenas o prolongamento do presente. É imperativo implantar um plano estratégico de longo prazo, uma política de Estado, para transcender os ciclos eleitorais que estabeleçam metas claras: universalizar o saneamento com tratamento terciário para poder despoluir o ecossistema marinho; redimensionar a rede de saúde, com um olhar metropolitano e sazonal; e revolucionar a qualidade do ensino público, inserindo a cultura oceânica e a sustentabilidade como os eixos curriculares, preparar os jovens para a economia azul, qualificada e inovadora.
O verdadeiro luxo que precisamos ostentar não está só nas vitrines das lojas, mas na capacidade da cidade oferecer a cada um de seus cidadãos uma vida digna, saudável e com boas oportunidades de emprego. Esse é o único desenvolvimento econômico real que se sustenta, por se alicerçar em seu ativo mais precioso: as pessoas.
José Carlos Alcântara foi Secretário Geral - AGEBRÁS Associação Brasileira de Agentes de Exportação, Rio de Janeiro; Consultor Técnico - FUNCEX Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior, Rio de Janeiro; Diretor de Marketing - BRASIL EXPORT New York, Dallas, Atlanta, Miami, Los Angeles e Chicago; Diretor Superintendente - ABC TRADING Comércio Exterior, Rio de Janeiro; Vice-President - The First National Bank of New York (SAFRA, NY-USA); Assessor Internacional da Presidência - ACRJ Associação Comercial do Rio de Janeiro; Redator de editoriais e artigos no Jornal Primeira Hora, Armação dos Búzios.




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