MK - Marcelo Kieling
O Crepúsculo dos Fantasmas:
Lippmann e a Solidão da Gestão no Brasil
O Crepúsculo dos Fantasmas:
Lippmann e a Solidão da Gestão no Brasil
Por Marcelo Kieling
Ao iniciar a leitura do livro de Walter Lippmann - Público Fantasma; vi um retrato de uma boa fatia da sociedade brasileira ali retratada. Assim, segue a minha crônica sobre o que entendi como necessário expor:
Brasília, em certas noites de chuva fina, parece uma maquete esquecida por um deus tecnocrata. O mármore das colunas da Esplanada, lavado pela água que desce do céu do Planalto Central, reflete a luz azulada que emana não dos postes, mas das telas de milhares de smartphones acesos dentro de carros parados no Eixo Monumental. É uma cena de uma quietude enganosa. Ali, no coração geográfico do poder, o silêncio dos corredores do BNDES ou as salas de análise do IBGE — onde o destino de milhões é traçado em planilhas de rigor quase ascético — contrasta violentamente com o rugido invisível que atravessa as fibras ópticas. É o som do "público fantasma", um conceito que Walter Lippmann, com a precisão de um relojoeiro social, nos legou em 1925 e que, no Brasil de 2026, atingiu sua forma mais barroca e cruel.
Lippmann não era um pessimista por vocação, mas um realista por necessidade. Ao escrever sobre a anatomia do público, ele percebeu uma ferida que a modernidade apenas tratou de infeccionar: a ideia do "cidadão onicompetente" é uma peça de ficção romântica, um mito que sustenta a democracia no papel, mas que desmorona diante da complexidade técnica do mundo real. No Brasil, essa tese não é apenas um estudo acadêmico; é a nossa biografia não autorizada. Vivemos em um laboratório a céu aberto onde a ilusão de participação digital atua como uma cortina de fumaça, escondendo o abismo que separa o clamor das massas das engrenagens reais do Estado.
Lembro-me, por um breve momento de digressão necessária, do espírito dos desbravadores, como meu avô materno nas terras roxas do Paraná. Naquela época, a política era feita de solo, de café, de presença física e de uma construção que levava décadas para se consolidar. Havia um peso na palavra e uma materialidade na ação pública. Hoje, a "praça digital" é uma miragem. O cidadão, exausto por uma jornada de trabalho que nunca termina e bombardeado por algoritmos que lucram com sua indignação, consome a política como um entretenimento tribal. Ele não debate o marco regulatório do saneamento ou as sutilezas da macroeconomia que decidem o preço do pão; ele replica estereótipos. Ele grita no X ou no WhatsApp, acreditando que seu ruído é soberania, enquanto o "público" continua sendo o que Lippmann previu: um fantasma na governança, mas um gladiador na guerra cultural.
Essa dinâmica consolidou o que podemos chamar de "lógica do veto". É uma patologia brasileira singular. O eleitor não entra em campo para votar por um projeto de nação; ele entra como um árbitro reativo, apitando o final de uma partida que ele sequer compreendeu inteiramente, apenas para expulsar quem está no poder. É a democracia do cartão vermelho. Escolhemos pelo medo do espectro oposto, nunca pela esperança em uma proposta estrutural. E, enquanto o cartão é erguido sob os holofotes das redes sociais, os insiders — a burocracia resiliente de Brasília, o Centrão camaleônico e a tecnocracia dos tribunais — operam o país em um vácuo de silêncio.
Há uma melancolia profunda em perceber que a governabilidade brasileira depende mais dessa articulação silenciosa, feita em salas acarpetadas e jantares de baixa luminosidade, do que de qualquer consenso democrático real. O público trava batalhas ferozes sobre costumes, sobre o que se pode dizer ou vestir, enquanto os especialistas negociam o orçamento público como se fosse um segredo de Estado. O abismo é cristalino: de um lado, a fúria digital; do outro, a frieza dos números que, no final do dia, são os únicos que realmente governam.
Entretanto, a realidade brasileira atual é ainda mais sombria do que o obscurantismo que Lippmann anteviu no início do século passado. Não enfrentamos apenas a desinformação ou a falta de tempo do cidadão comum para se informar. Estamos mergulhados em uma "pandemia cognitiva" de proporções históricas. O obscurantismo não é um acidente de percurso ou uma falha no sistema educacional; é um projeto de manutenção da ignorância para o controle do rebanho. A exploração criminosa da fé religiosa, transformada em depositário financeiro de redes corruptas, transmutou o debate público em uma metralhadora de ódio. A fé, que deveria ser o refúgio do espírito, tornou-se o combustível de uma necro-ideologia que corrói a essência da nação.
Nesse cenário, o cidadão é reduzido a um consumidor de certezas prontas. Ele não quer a verdade, ele quer a confirmação de seus preconceitos. Ele não busca o fato, busca o pertencimento ao grupo. E o jornalismo, minha profissão de fé e ofício, encontra-se em uma lastimável encruzilhada existencial. Durante décadas, acreditamos que entregar dados brutos e informações verificadas seria o suficiente. Estávamos errados. Em um mundo saturado de informação, o dado sem contexto é apenas mais um ruído. O jornalismo profissional precisa abandonar a montanha de dados brutos e atuar como um farol analítico. Precisamos traduzir a complexidade com seriedade e verdade em sinais claros de integridade democrática.
A mediação ética é o único antídoto contra as realidades paralelas. Sem ela, o Brasil continuará sendo esse gigante que caminha no escuro, guiado por vozes que gritam no deserto digital. Como gestor, sei que a eficiência de uma política pública se mede na ponta, na vida do cidadão que o IBGE tenta traduzir em estatísticas. Mas como cronista, sinto que estamos perdendo a capacidade de contar a nossa própria história. Estamos trocando a real densidade da memória pela volatilidade do feed.
A "Anatomia do Público Fantasma" revela um corpo social que perdeu a propriocepção. Não sabemos onde terminamos e onde começa a manipulação. A "lógica do veto" nos mantém em um estado de paralisia permanente, onde a única mudança permitida é a troca das faces no poder, mantendo as estruturas de privilégio e silêncio intactas. É uma dança macabra de sombrias paredes no mármore de Brasília.
O fecho desta reflexão não pode ser uma solução mágica, pois o jornalismo e a gestão não lidam com milagres, mas com a resiliência da persistência. O antídoto não é exigir que cada brasileiro se torne um especialista em economia ou direito constitucional — isso seria ignorar a lição de Lippmann sobre a limitação humana. O caminho é a reconstrução das instituições de mediação. É o fortalecimento de uma imprensa que não tenha medo de ser analítica e de uma gestão que não tenha medo de ser transparente, mesmo quando a transparência revela verdades desconfortáveis.
Ao final, quando as luzes dos smartphones se apagam e a chuva em Brasília finalmente para, o que resta é o silêncio da Esplanada. Um silêncio que não deveria ser de exclusão, mas de reflexão. O público fantasma precisa encontrar sua carne, sua voz real e sua capacidade de construir, para que não sejamos lembrados apenas como a geração que viveu em uma pandemia cognitiva, assistindo, de celular na mão, ao naufrágio de suas próprias esperanças. A nação não pode ser um espectro; ela precisa ser um projeto. E projetos exigem mais do que cartões vermelhos; exigem a coragem de olhar para o abismo e, em vez de gritar, começar a construir a ponte.
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.





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