Fernanda Medeiros
Quando a dor não parece dor
O que a Psicologia pode nos ensinar sobre negação psíquica, luto e julgamentos precipitados
Quando a dor não parece dor
O que a Psicologia pode nos ensinar sobre negação psíquica, luto e julgamentos precipitados
No caso Henry Borel, um dos aspectos que mais mobilizou a opinião pública não foi apenas a investigação criminal, mas a forma como a mãe da criança reagiu após a morte do filho.
Muitas pessoas passaram a interpretar determinados comportamentos como evidência de frieza, perversidade ou ausência de sofrimento. Entre os fatos mais comentados estavam a ida ao salão de beleza e outras condutas consideradas incompatíveis com o luto de uma mãe.
Mas a Psicologia faz uma pergunta importante: será que o sofrimento humano se manifesta da mesma forma em todas as pessoas?
A resposta é não.
Diante de eventos traumáticos, o psiquismo pode lançar mão de mecanismos de defesa inconscientes para proteger o indivíduo de uma realidade emocionalmente insuportável. Um desses mecanismos é a negação.
Na negação psíquica, a pessoa não deixa de saber racionalmente o que aconteceu, mas pode apresentar dificuldade em entrar em contato com a dimensão emocional da perda. Como consequência, pode continuar realizando atividades rotineiras, preocupar-se com questões aparentemente banais ou agir de maneira que observadores externos considerem inadequada.
Isso não significa, necessariamente, ausência de sofrimento.
Também não significa, por si só, psicopatia, transtorno de personalidade ou frieza emocional.
A Psicologia não trabalha com diagnósticos baseados em um comportamento isolado. Para compreender o funcionamento psicológico de alguém é necessário analisar contexto, história de vida, padrão de funcionamento afetivo, relações interpessoais e diversos outros elementos.
O erro mais comum da opinião pública é acreditar que existe uma forma correta de sofrer. Espera-se que a dor tenha um roteiro: choro intenso, recolhimento, desespero visível. Quando isso não acontece, surgem julgamentos morais e interpretações psicológicas precipitadas.
Entretanto, a realidade clínica mostra que algumas pessoas choram, outras silenciam, algumas adoecem, outras trabalham compulsivamente e há aquelas que tentam seguir a rotina como forma de suportar aquilo que ainda não conseguem elaborar.
Isso não impede que condutas sejam investigadas pela Justiça. Tampouco impede a responsabilização de quem eventualmente tenha participado de um crime.
Mas é importante compreender que culpa jurídica e funcionamento psíquico são questões distintas.
Nem toda reação considerada inadequada é prova de perversidade. E nem toda ausência aparente de emoção significa ausência de sofrimento.
Quando analisamos o comportamento humano, especialmente em situações extremas, a cautela costuma ser mais científica do que o julgamento apressado.
Este artigo não tem por objetivo analisar, diagnosticar ou emitir conclusões sobre pessoas envolvidas em casos concretos, mas utilizar um fato amplamente conhecido para discutir conceitos psicológicos de interesse público.
Fernanda Medeiros
Psicóloga Clínica e Jurídica
CRP – SC 12/02536 | CRP – RJ 300859




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