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Barra Mansa,04/06/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    O Banquete das Sombras:

    A Política na Era da Dissimulação e o Brasil em Frangalhos


    O Banquete das Sombras:

    O Banquete das Sombras:

    A Política na Era da Dissimulação e o Brasil em Frangalhos

    Por Marcelo Kieling

    Vivemos o tempo do olhar febril.

    Basta observar o passageiro ao lado no metrô, o parente no almoço de domingo ou o colega de escritório durante o café. O brilho azulado das telas não apenas ilumina rostos; ele reflete uma mutação na alma coletiva.

    O que antes era o campo do debate, do dissenso respeitoso e da construção de consensos possíveis, transformou-se em uma arena de gladiadores cegos, onde a verdade é a realidade que causa incômodo e o ódio é a moeda de troca mais valorizada.

    A política, essa arte de viver juntos, foi sequestrada pela dissimulação e pela mentira. E o Brasil, com suas fraturas expostas e a sua identidade claudicante, parece o laboratório perfeito para essa tempestade.

    A mudança no tom do debate público global não é um acidente de percurso, mas o resultado de uma engenharia precisa. Entramos na era da "Economia da Atenção", onde o tempo do usuário é o recurso mais escasso e valioso do planeta. Nesse mercado, os algoritmos das bolhas das redes sociais não são juízes morais, servem exclusivamente como contadores de engajamento. Eles aprenderam, com uma rapidez assustadora, que a moderação é um tédio comercial. O que gera o clique, o compartilhamento e a permanência na plataforma são as emoções de alta excitação.

    A indignação, o medo e o ódio são combustíveis fósseis da psique humana: altamente poluentes, mas extremamente energéticos. Nesse cenário, a dissimulação e a mentira ganham asas de mercúrio. Uma teoria da conspiração bem amarrada, que valide os preconceitos mais profundos de um grupo, viaja seis vezes mais rápido que a correção árida de um fato. O político moderno percebeu que não precisa mais convencer pelo argumento; ele precisa mobilizar pelo espasmo. A verdade tornou-se um conceito elástico, substituída pela "pós-verdade", onde o que eu sinto sobre um fato tem mais peso do que o fato em si.

    Se a mentira serve para atacar o "inimigo", ela é aceita como uma ferramenta legítima de guerra. E assim, a política deixa de ser o lugar da fala para se tornar o lugar do silenciamento.

    Essa estratégia do "Nós contra Eles" é a ferramenta mais eficiente de poder já desenhada. Ela simplifica a complexidade do mundo em uma narrativa maniqueísta de salvadores e demônios. Quando o adversário é transformado em inimigo existencial, qualquer arma passa a ser justificada moralmente. A radical polarização afetiva — aquela que nos faz odiar o outro não pelo que ele faz, mas pelo que ele representa — rompe o tecido social de forma quase irreversível. Não se discute mais o orçamento público ou a reforma da previdência; discute-se a "essência" maligna do outro. É a política reduzida ao fígado apodrecido.

    No caso brasileiro, essa patologia encontra um hospedeiro fragilizado. O Brasil é uma nação que, historicamente, sofre de uma anemia de pertencimento. Como bem observou Sérgio Buarque de Holanda em sua análise sobre o "homem cordial", nossa formação deu-se de cima para baixo, em um Estado que sempre pareceu um corpo estranho à população. Nossa herança escravocrata e a desigualdade abismal criaram uma fratura estrutural que nunca cicatrizou. O brasileiro, desconfiado por natureza das instituições, refugiou-se no espaço privado. Valorizamos a família, o grupo de amigos, o "nosso" círculo, enquanto o espaço público é visto como terra de ninguém ou botim dos poderosos.

    Essa ausência de um sentido de nação é o solo fértil onde o ódio contemporâneo floresce. Quando não há um projeto comum de futuro, os símbolos nacionais tornam-se troféus de guerra. A bandeira, que deveria ser o manto que abriga a todos, passa a ser usada como uniforme de uma facção. O hino deixa de ser um canto de união para se tornar um grito de exclusão. O patriotismo, em vez de ser o cimento que liga os tijolos da sociedade, torna-se a marreta que os estraçalha.

    O impacto dessa dinâmica no cotidiano é devastador. A infiltração do ódio político nas esferas íntimas causou danos que os indicadores econômicos não conseguem medir. Famílias foram cindidas, amizades de décadas foram desfeitas no altar de uma ideologia de WhatsApp. A discordância política, que deveria ser o motor da democracia, passou a ser tratada como uma falha de caráter. "Se você não pensa como eu, você é uma pessoa má". Essa conclusão simplista é o fim da civilidade.

    O resultado final desse processo é uma paralisia social alimentada pelo cinismo. A exposição constante à dissimulação e à mentira institucionalizada gera uma fadiga democrática. O cidadão comum, bombardeado por narrativas conflitantes e ataques incessantes, mergulha na apatia. A crença de que "todos mentem" e de que "nada vai mudar" é o maior triunfo dos estrategistas do caos. Uma sociedade apática e cínica é incapaz de se mobilizar por projetos de longo prazo.

    Enquanto discutimos a última polêmica vazia ou o meme ofensivo do dia, os problemas estruturais — a educação que não educa, a infraestrutura que desmorona, a desigualdade que sufoca — permanecem intocados.

    O grande desafio que se impõe não é apenas tecnológico, mas cultural e pedagógico. O sentimento de nação não nasce por decreto, nem pela simples coincidência de nascermos no mesmo território. Ele nasce do compartilhamento de um projeto de futuro, de uma aposta comum na dignidade humana. A política baseada no ódio foca exclusivamente em destruir o projeto do outro, o que, por definição, inviabiliza a construção de qualquer objetivo comum.

    Precisamos, urgentemente, resgatar a política da lama da dissimulação. Isso exige o rigor jornalístico de separar o fato da versão, mas também o apuro literário de reconstruir uma narrativa de esperança que não seja ingênua. É necessário entender que a democracia não é o lugar da ausência de conflitos, mas o lugar onde os conflitos são resolvidos sem que precisemos destruir o outro.

    O Brasil precisa aprender a se olhar no espelho sem quebrar o vidro. Precisa entender que o "público" é a extensão do nosso quintal, e que a nação é um plebiscito diário de convivência. Enquanto permitirmos que os algoritmos e os mercadores do ódio ditem o tom da nossa conversa, seremos apenas uma multidão de estranhos ocupando o mesmo solo, gritando uns com os outros no escuro, enquanto o futuro, esse projeto que deveria ser de todos, escorre por entre nossos dedos.

    A política precisa voltar a ser a arte do encontro, ou continuaremos a ser apenas os restos de um naufrágio que deste navio que já afundou.

    Precisamos mudar o Brasil. Vamos?

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.


     



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