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Barra Mansa,31/05/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    O Banquete dos Bárbaros:

    A Anatomia da Nossa Queda


    O Banquete dos Bárbaros:

    O Banquete dos Bárbaros:

    A Anatomia da Nossa Queda

    Por Marcelo Kieling

    Tento mostrar aqui nesta crônica, uma análise da ascensão da estúpida mediocridade utilizada como estratégia deliberada de poder no Brasil, comparando ciclos históricos de populismo e destacando o papel dos algoritmos na organização do ressentimento social. O texto enfatiza que o corrupto despreparo técnico foi transformado em ativo político, resultando em tragédias humanitárias e fragilidade institucional, concluindo com a necessidade urgente de reformas estruturais (como o fim da reeleição e mandatos mais longos) para tentar restaurar um pouco da racionalidade no debate público:

    Vivemos o ápice de um paradoxo que desafia a lógica linear do progresso. Em 2026, o Brasil é um território onde a infame bolha digital da redes sociais e a fibra ótica cortam o solo com a mesma velocidade com que o pensamento arcaico devasta as reacionárias mentes de uma parte da massa da população. Temos, nas telas e na palma da mão, o acesso irrestrito ao saber universal, mas uma massa reacionária opta, coletivamente, por se banquetear com as migalhas do ódio e da ignorância. O cenário é de um crepúsculo da razão, onde a luz do conhecimento não serve para iluminar o caminho, mas para ofuscar a visão, permitindo que a canalhice política  - fundamentada em total mediocridade, deixe de ser um defeito de caráter para se tornar um sofisticado projeto de poder.

    A política brasileira, historicamente pendular, parece ter estacionado em um pântano de slogans primários. O que assistimos nas últimas décadas não foi um acidente de percurso ou um erro estatístico. Foi uma criminosa construção deliberada. O despreparo, antes motivo de vergonha e recolhimento, foi transmutado em credencial de autenticidade. Criou-se a mística do líder que, por não saber governar, seria o único capaz de fazê-lo, sob o pretexto de não estar "contaminado" pelas engrenagens do sistema. É a apoteose do tosco, a celebração do homem que gagueja diante da complexidade e ruge diante do ódio.

    Essa trajetória de degradação tem raízes que se alimentam do ressentimento. Se recuarmos ao final da década de 80, veremos o ensaio geral: um jovem místico, atlético e de fala empolada que prometia caçar fantasmas e privilégios. Ali, a televisão ainda era o altar da liturgia política. O sistema, embora abalado, ainda mantinha filtros editoriais. O desfecho foi o trauma, o confisco e a queda. Contudo, a semente da "salvação pelo outsider" permaneceu latente, aguardando o fertilizante tecnológico que transformaria o descontentamento em fanatismo.

    Trinta anos depois, o fenômeno retornou, mas sem os filtros da imprensa tradicional. O novo messianismo digital não precisava mais da permissão dos editores; ele habitava o submundo dos aplicativos de mensagem, as câmaras de eco onde a mentira repetida mil vezes não se torna apenas verdade, mas dogma. O líder medíocre descobriu que, para governar uma massa ressentida, não é necessário apresentar um plano de metas, mas um inimigo comum. A política deixou de ser a arte da gestão para se tornar a estética da vingança.

    O que Le Bon e Freud descreveram sobre a psicologia das multidões ganhou, no Brasil contemporâneo, uma aceleração algorítmica. O algoritmo é o novo chicote dos senhores de engenho digitais. Ele não apenas conecta; ele organiza o ódio. Ele identifica a ferida do eleitor — o medo da mudança, a insegurança econômica, o preconceito latente — e a cutuca com o sal da desinformação até que a dor se transforme em fúria cega. O líder medíocre é o espelho dessa fúria. Ele não convence pela lógica, pois a lógica exige esforço intelectual; ele seduz pelo pertencimento. O eleitor não vota em um projeto; ele vota em uma identidade que lhe permite ser tão tacanho quanto aquele que está no palco.

    Essa "estética do tosco" é uma declaração de guerra epistemológica. Quando o detentor do poder máximo ridiculariza o cientista, ofende mulheres, ataca o professor e despreza o diplomata, ele está dizendo ao seu exército que o conhecimento é uma forma de opressão das elites. É a vingança do senso comum contra o saber especializado. O resultado dessa inversão de valores é medido em corpos. Não há exemplo mais doloroso do que o silêncio de centenas de milhares de cadeiras vazias ao redor das mesas brasileiras, fruto de uma gestão que trocou o protocolo sanitário pela superstição ideológica. A morte, nesse contexto, tornou-se um detalhe contábil diante da necessidade de manter viva a narrativa de negação.

    O custo institucional dessa aventura é o esgarçamento do tecido democrático. As instituições, que deveriam ser os diques de contenção contra o arbítrio, passaram a ser alvos de um cerco permanente. O ataque não é apenas físico, como vimos nas vidraças estilhaçadas dos palácios da capital; é um ataque simbólico à própria ideia de lei. Quando o líder exalta a vontade da turba acima da Constituição, ele está pavimentando o caminho para o que Umberto Eco chamou de fascismo eterno. Um fascismo que não precisa de camisas negras ou desfiles militares clássicos, pois ele já veste o uniforme da "liberdade" distorcida e fala a língua do "cidadão de bem".

    A urgência de uma mudança nas condições políticas do Brasil não é uma questão de preferência partidária, mas de sobrevivência civilizatória. Não podemos mais permitir que o país seja gerido por ciclos de curto-prazismo eleitoral e marketing de guerrilha. A estrutura política atual, com seu sistema proporcional de listas abertas e coligações espúrias, é um convite à ascensão de figuras que brilham pela polêmica e fracassam pela gestão. É imperativo que discutamos de imediato, o fim da reeleição para cargos executivos, a adoção de mandatos mais longos que permitam o planejamento de Estado e, acima de tudo, uma reforma que devolva aos partidos a responsabilidade de selecionar quadros tecnicamente preparados.

    A reconquista da razão exige, também, uma nova postura das instituições de saber. Universidades e centros de pesquisa precisam descer de suas torres de marfim e aprender a falar a língua do povo, sem perder o rigor, mas ganhando em empatia e clareza. O conhecimento técnico só voltará a ser respeitado quando a população perceber que ele se traduz em dignidade, saúde e prato cheio.

    O Brasil está diante de um gigantesco abismo. O crepúsculo da razão já nos envolveu com suas sombras do ódio, da intolerância e da mediocridade. No entanto, o crepúsculo é também o prenúncio de que uma aurora é possível. Mas ela não virá por milagre. Ela exige a coragem de reformar o sistema por dentro, de regular o faroeste digital que envenena nossas conversas e de restaurar a política como o lugar da inteligência a serviço da vida. O tempo da tolerância com a barbárie travestida de opinião acabou. Ou recuperamos a lucidez institucional, ou seremos definitivamente devorados pelo deserto que ajudamos a criar.

    Precisamos mudar o Brasil. Vamos?

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.


     

     



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